quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Pão de queijo, cachaça e poesia

Ouvi um rapaz dizendo: “mineiro come letra, às vezes come meia palavra”. Concordei em pensamento.
Sendo filho de Minas, sou também amante da culinária mineira. Não resisto a um bom pão de queijo, a um “franguim” com quiabo acompanhado de angu e couve (apesar de eu preferir taioba à couve), uma broa no café, um torresmo feito na hora, um feijão tropeiro... e sim, também como muitas letras. E acho que de tanto comer letras, sílabas, tomei gosto pelas palavras. Hoje como palavras inteiras. Gosto de sentir o gosto de cada pedacinho. Não resisto a boas palavras.
Tenho me arriscado também a preparar alguns pratos ortográficos. Ainda estou experimentando temperos, errando o ponto às vezes (ora deixo um pouco cru, ora cozinho demais), testando fôrmas... enfim, divertindo-me na arte de cozinhar palavras. Mas paladar cada um tem o seu. Muitos com certeza vão preferir um bom pão de queijo a qualquer um de meus pratos. Estou pensando em me dedicar mais ao preparo de pães de queijo, para dar mais opções ao leitor.
Um amigo meu sempre diz que vir para Minas é sinônimo de engordar. Ele diz que se come demais por aqui e que é difícil resistir a tanta comida boa. Eu retruco: basta ter moderação! E nem toda comida daqui engorda. As letras, as palavras que comemos são recomendadas em qualquer quantidade. Talvez elas engordem a alma, mas, em se tratando de alma, quanto mais gorda, mais leve. E quanto mais leve, mais saudável!
Mas caso se exagere um pouco no feijão tropeiro, no frango com quiabo ou até mesmo numas palavras que não caíram bem, deixo aqui a dica: sempre haverá uma boa cachacinha para arrematar tudo! Saúde! (Beba com moderação)


Aviso: Pessoal, este é o último prato servido em 2011. Espero voltar a servir em nossa mesa na segunda quinzena de janeiro/2012. Já são aproximadamente 1 ano e meio de blog, com mais de 90 pratos servidos, por isso, para os que sentirem fome durante esse pequeno recesso, fica o lembrete: os pratos já servidos continuam à mesa, para serem degustados sempre. Desejo de coração à todos um feliz natal! E que venha 2012 com muita paz e poesia para todos nós! Grande abraço!!!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Nova Inconfidência

Poucos livros me carregaram tanto para o cenário, para o tempo da história que contavam, quanto o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Quando o lia, eu estava ali, um espectador angustiado nas mesmas ruas em que o Alferes passava. Provavelmente o fato de eu já ter visitado alguns daqueles lugares em que se deu a história contribuiu para que eu entrasse mais no clima.
Esse foi com certeza um daqueles livros em que quase não utilizamos os olhos para lê-los, mas sim a alma. Os olhos muitas vezes aprisionam a alma. Muitas vezes, a alma quer seguir sozinha. E saibam, bravos leitores, é chegado o tempo de uma nova Inconfidência: Oh almas! Oh almas leitoras! Liberdade, ainda que tarde!

“(...) Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja). (...)"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Outras cozinhas (prosas poéticas)

Camus

"...Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados."

Miguel de Unamuno

"A neve havia coberto todos os cumes rochosos da alma... Estava esta, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de pureza total, mas debaixo dele a alma tiritava de frio. Porque a pureza é fria, muito fria! Assim como o pôr do sol, ao entardecer, as coisas não fazem sombra umas às outras, e como se abraçam e se tornam irmãs na santa unidade do crepúsculo e mais tarde na negrura unificadora da noite, assim também na brancura da neve. A brancura desta e a negrura da noite são dois mantos de união, de fusão, quase de irmanação. A nevada silenciosa estende um manto de brancura, de nivelação, de aplainamento. É como a alma da criança e do ancião, planas e silenciosas. Os grande silêncios da alma da criança! Os grandes silêncios da alma do ancião!"

Victor Hugo

"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Como acreditava Descartes


Dizem que algumas pessoas estão à frente do seu tempo. São visionárias. Só o futuro as entenderá. Elas conseguem enxergar além do agora. Eu, com certeza, não sou uma delas.
Acho que estou atrás do meu tempo. Muito atrás. Talvez uns cinquenta anos ou mais. Sinto saudade das coisas que passaram e eu não vivi. Meus olhos não enxergam muito além de ontem.
Meu coração ainda está se deliciando, de maneira inédita, com as confusões de Mazzaropi (foto). Meus ouvidos ainda têm o timbre das eletrolas e parecem cantar por si só as canções de Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Mário Reis, Vicente Celestino, Gordurinha... Meus olhos ainda necessitam serem regados por luz de lampião, para navegarem a Rússia de Dostoievski, a Bahia de Gregório e quem sabe até apoitar na Lisboa de Fernando?! Minha boca, antes de cada beijo, quer fazer serenata. E no meu carnaval, ela ainda quer cantar marchinhas.
Não desprezo o novo. Mas acho, caros amigos, que tenho mesmo a alma velha, amarrotada e empoeirada, esquecida na glândula pineal...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Retalhos do Pano - II

Mais uns poeminhas do livro "O poeta e o pano"...

PREFÁCIO

(Para a Luja)

Vai passando o longo inverno enfim, pequena!
O frio cede ante ao frêmito do novo,
começa a vida a renovar as suas penas,
despe o mundo do seu vestido de corvo.

Eis que tudo reaprende a ordem inata!
Até meu corpo, acostumado a teu calor,
afasta-se, estica-se e então a ti reata!
Quer agora reaprender o teu frescor.

Mas não careço para alegrar, pequena,
dos espectros das margaridas, dos lírios,
das begônias, das rosas, das açucenas.

Já bem sei o grande jardim que nos espera.
Quando vi, amor, esses seus olhinhos lindos,
vi também um prefácio da primavera.


A MENINA E A FLOR

(Para Ana Clara e Júlia)

De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.


HINO DOS POETAS DO DESERTO

Maldigo esse fado sedutor e traiçoeiro!
Iludido eu canto a minha perdição.
Regastes de versos as minhas mãos,
mas peço, ó deuses, dai-me ouvido:
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Ao cantar o céu, não mais sou sincero.
Os hinos que canto colhi no deserto.
Não vi uma ninfa sem hienas por perto.
De que vale o mel sem o pão prometido?
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Cada vil miragem esculpi com esmero,
sem ver que os oásis eram de areia.
Eu vi seguir-me uma sombra alheia
com mãos amputadas e peito ferido.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Dai-me o castigo que tanto quero!
Tomai-me as palavras, a tinta, o canto!
Tornarei potável meu próprio pranto
e farei poemas juntando gemidos.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Só o amor, só amor faz sentido
a um poeta cansado de rimas,
de metrificar em vão sua sina.
Dai-me! Dai-me o que tanto quero!
Ou arrancarei as penas do Cupido
e matarei à flechada Homero!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dois coração

Perguntaram-me: o que rima melhor com coração? Respondi na lata: coração. Acho que não fui levado muito a sério.
Se analisarmos ortograficamente é uma rima perfeita. Mas acho que a pessoa queria algo do tipo “algodão”, “lamentação”, “corrupião” ou talvez eu tenha me expressado mal. Esqueci de dizer que era “outro coração” e não o mesmo. Pois nada rima melhor com um coração do que “outro coração”. E nada de pôr no plural! Lembro-me que certa vez, aventurando-me a compor uma canção, escrevi: “Coração não tem plural. Um é pouco, dois é um, três é de mãe”...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Poesia de papel

Queria que todas as vezes
que eu escrevesse,
minhas palavras tocassem o mínimo
possível no papel.
É preciso conservar nele sua leveza,
sua fragrância de céu.
Queria escrever poemas
que só andassem nas pontas dos pés,
com palavras bailarinas.
É preciso conservar na folha
o seu jeito de menina.
Delicada. Sem uma só dobrinha.
Mas sou rude,
não sei cortejar a folha com palavras
e acabo sempre recorrendo
às flores...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Da imprecisão dos relógios

Nada é tão impreciso quanto os relógios. Relógios não sabem nada do tempo. Não sabem quando iremos rever um velho amigo. Não sabem quando vamos morrer de rir ou morrer de verdade. Não sabem quanto durará meu próximo beijo ou meu próximo abraço. Não sabem cronometrar saudade. Não levam em consideração o trânsito. Não sabem dar um tempo quando estamos em paz. Julgam-se sempre certos e seguem sempre em frente. Gostam de apontar para as horas, minutos, segundos, mas mal sabem apontar para o céu (os poucos que ousaram a isso e a guiarem-se pelo sol já estão quase extintos, perderam-se no tempo, ou em outras palavras, provaram do próprio veneno). Relógios odeiam surpresas e acho que sequer foram inventados no mundo dos sonhos.
Relógios pensam que sabe do tempo, mas não sabem. Eu mesmo tinha um que até bem pouco tempo atrás acreditava que eu acordava às 7:00...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Outras cozinhas (o vaga-lume, as abelhas e o galo)

Máquina breve (Cecilia Meireles)

O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.


A chegada da caixa de abelhas (Sylvia Plath)

Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.

Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.

Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.

Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu Deus, juntas!

Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.

Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.

Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.

A caixa é apenas temporária.


Tecendo a manhã (João Cabral de Melo Neto)

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Meu horizonte perdido

Resolvi reler Horizonte Perdido, de James Hilton. Não sei se lá em 1933 o autor imaginava que estava criando uma das maiores utopias do homem contemporâneo: encontrar Shangri-la. Quem, ao ler o livro, não deseja estar ali com Conway e seus companheiros naquele escondido paraíso terrestre? Na realidade, acho que muitos já até tentaram, através do livro, encontrar pistas do caminho para Shangri-la. Mas a grande verdade é que, independente dos anseios por Shangri-la, Horizonte Perdido é um belíssimo romance.
Eu também pretendo um dia escrever romances. Não sei quando e não faço idéia do tema. Talvez crie meu próprio paraíso escondido. Ainda não sei. A única coisa certa é que, se houver uma expedição, já tenho um pequeno trecho pronto:

... E a manhã vinha chegando como uma última integrante da expedição, carregando todo o peso do qual tentamos nos desfazer na madrugada, durante nossas poucas horas de sono. E a noite partira em silêncio. Guardara todas as estrelas silenciosamente em sua mochila e seguira o caminho sem despertar o grupo, talvez levando consigo a esperança de nos rever mais adiante. E quanto a nós, ainda mal conseguíamos nos mover. Nossos corpos queriam continuar ali, imóveis, como parte inerte daquele belo e hostil cenário de rochas e abismos. Mas até o assobio agudo de um solitário sovi parecia nos alertar de que era preciso seguir. Com muita relutância deixamos então de ser rochas para voltarmos a ser abismos. Prosseguimos com a expedição...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Retalhos do Pano

Três poemas do livro "O poeta e o pano"...

DE ASTROS

(Para Luja)

Saí do teu quarto atônito, mudado.
Como se eu ou o velho mundo fosse outro.
Com a vida condensada num estado
entre sonhos e relâmpagos de ouro.

Senti-me envolto a uma áurea de gigante,
alheio a tudo que não fosse ente celeste.
Já não lembrava como a vida era antes,
se o silêncio foste tu que compuseste.

E se me perguntas para onde eu fui,
por quais caminhos rabisquei meu rastro
de felicidade e passos azuis,

eu mal me lembro dos nomes das ruas.
Só sei que saí de lá falando de astros
e com um leve sotaque da lua.


MODA PASSAGEIRA

Meus planos são sempre absurdos...
Não para mim, mas para os outros.
Já quis voar em bando com anjos misantropos.
Já quis barganhar meus olhos
por um saquinho de jabuticabas.
Já quis viver no escuro e andar
tranquilamente com meu coração pelado.
E quem diria?! Já quis até ser
eu mesmo num dia de chuva!
Moda passageira... Todos os planos passaram...
Restam-me algumas maquetes velhas do céu.
Mas hoje sou apenas
mais um ser ocioso e sem planos.
E para passar o tempo,
ando por aí me embebedando
com os beija-flores.


SINTOMAS

Meus poemas cheiram a café.
Meus versos têm disritmia .
Queria um coração
só para fazer poesia!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Novo livro: O poeta e o pano



Pessoal, é com enorme alegria que compartilho com vocês meu novo livro: O poeta e pano. Sirvam-se à vontade! Um grande abraço a todos!!!

Clique aqui para baixar.

DUAS LUAS

No mesmo poema, o amor
e toda minha dor noturnal.
Disfarço de afago o punhal.
Disfarço de punhal a flor.
Pois há quem me queira mal!
E há quem me mate de amor!

Na noite do poeta existe
uma escuridão bifurcada,
duas luas minguadas,
e um pincel em riste.
Pois há venturas cantadas!
E há canções que são tristes!

Lanço aos céus minha sorte
e espero a sorte caída.
Ela cai como ave ferida
que perdeu o seu norte.
Pois há versos que faço pra vida!
E há versos que faço pra morte!

(Poema do livro O poeta e o pano)

domingo, 25 de setembro de 2011

Turismo

Como escreveu Fernando Pessoa, “há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem”... Ah, os lugares que não existem!... eis aí aonde quero visitar. Antigamente sonhava em conhecer a Galícia, a Patagônia (e ainda quero), mas agora o que quero mesmo é conhecer todos esses lugares que não existem. E talvez eu encontre por lá todas aquelas coisas da “Enciclopédia das coisas que não existem”, sobre a qual menciona Rubem Alves em seu quarto de badulaques. Farei amigos que não existem, andarei por ruas que não existem, comerei em restaurantes que não existem (se possível, comida japonesa) e trarei comigo lembranças que não existem. E trarei também alguns livrinhos que não existem para substituir certos positivistas da minha estante. Porque me desculpem os mais céticos, mas “o que não existe” existe!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Leilão

Em uma cidadezinha francesa, um pouco ao norte de Paris, um senhor muito rico colecionara pinturas de grandes artistas durante quase toda sua vida. Pressentindo que o dia de sua morte se aproximava, resolveu leiloá-las.
Na coleção daquele rico senhor, era possível encontrar os principais quadros de Rembrandt, Van Gogh, Picasso, Ensor, Kandinsky, Goya... Para a cerimônia, vieram pessoas do mundo inteiro, eufóricas pela possibilidade de arrematar uma daquelas obras. O lance inicial era de mil palavras (afinal uma imagem vale mais que mil palavras). Iniciou-se o leilão.
Logo na primeira peça, uma disputa acirrada. Políticos, padres, jornalistas, oradores, todos faziam ofertas astronômicas. Eram muitas as palavras. O dono dos quadros hesitava em dar a martelada. Até que no meio daquela gritaria de senhores distintos e bem vestidos, entrou um poeta maltrapilho que, sob o olhar inquisidor dos presentes, declarou: Compro todos!
Nesse mesmo instante, dispararam as gargalhadas e os comentários irônicos. O rico homem do martelo, ainda tentando conter o riso, bateu o objeto na mesa e pediu silêncio. Perguntou ele ao poeta:
- E o que o senhor tem a oferecer?
- Meu poema!
- E quantas palavras valem seu poema?
O poeta então caminhou até o rico senhor e murmurou-lhe algo ao ouvido. O senhor martelou a mesa e em seguida, bradou:
- Vendidos todos ao poeta!
Não era possível! As pessoas ali presentes não podiam acreditar. Perguntaram ao moribundo leiloeiro:
- Quantas palavras valem o poema dele?
- Muitas! Tantas, que comprou inclusive meu silêncio...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Outras Cozinhas (Cordel - Parte II)

"Céu, 25 de agosto
de mil novecentos e
oitenta e sete. Senhores,
eu nesta oportunidade
quero desejar a todos
saúde e felicidade.

Tem a Constituição
dimensão nacional,
mas deve ser baseada
de modo primordial
no aperfeiçoamento
da justiça social.

Os senhores são tão lentos
que às vezes me desespero
porque perdem muito tempo
com conversa e lero lero
e custam muito a fazer
aquilo que tanto espero.

E deixem que Sarney leve
seu mandato até o fim,
pois ele é inofensivo
não é bom nem é ruim;
deixem-no puxar o saco
do seu colega Alfonsín.

Cidem com sabedoria
desta Constituição
mas não gastem tanto tempo
comento tanto feijão
por conta da miserável
da probe desta Nação.

Façam a Constituinte
com os espíritos serenos
sem atrapalhar os grandes
procurando, pelo menos
se não quiser ajudar,
não maltratar os pequenos.

Nós aqui no céu temos
compromisso com partidos,
queremos que os brasileiros
se mantenham sempre unidos
para que os objetivos
da Nação sejam atingidos.

Que os grandes rumos tomados
pela Constiuição
sejam dem direção dos pobres,
três quartos desta Nação;
não vejam eles somente
em tempo e eleição.

São os pobres que elegem
deputados, senadores
e é entre os camponeses
que estão os lavradores,
são portanto aqueles homens
que dão comida aos senhores.

São homens simples e bravos
humildes, mas que não somem
nas situações difíceis
dignificando o homem,
enquanto tanto produzem
os senhores só consomem

São os pobres que mantêm
a luz da esperança acesa,
sustentáculos, balaustres,
no ataque e na defesa,
são eles os verdadeiros
alunos da Natureza.

São eles que forma o grande
contigente eleitoral,
mais de oitenta porcento
numa votação geral,
importantes em qualquer
decisão nacional.

Tentem consertar um pouco
a máquina judiciária,
mas com latifundiários
de educação primária
antes do ano dois mil
não façam a reforma agrária.

Porque só serviria para
atiçar a ira acesa
dos donos do Brasil contra
camponeses sem defesa
contentes com uma pequena
fatia da Natureza.

Só pode a reforma agrária
ser idéia de algum santo
que tendo tudo nas mãos
achou, por encanto,
de dar para cada filho
um determinado tanto.

No país de São Maluf,
São Oreste, São Moreira,
São Brizola, São Delfim,
Saõ Bresser e São Gabeira
falar de reforma agrária
é deslavada besteira.

Eu falo para os senhores,
do céu, mas mineiramente,
fiz muito bem em morrer
antes de ser presidente,
e por favor, não me façam
voltar aí novamente.

Metam também outra coisa
na obtusa cachola:
dificilmente o Brasil
se livrará do Brizola;
com ele na presidência
o bandido deita e rola.

Livrem-se dos mares e
eu vos livrarei dos ares,
que pornografias entrem
em lanchonetes e bares
mas que as balas brizolinas
não penetrem em vossos lares.

Estas palavras, senhores
não trazem nem as mais leves
pretensões de acabar
com quebra-quebras e greves
são só alertas do velho
amigo Tancredo Neves".

(FIM)

É preciso levar em conta a época em que esse cordel foi escrito. Com certeza nem mesmo Tancredo em sua morada celeste podia prever um futuro tão lamentável na política brasileira, acho que alguns dos personagens não eram tão inofensivos como ele pensou...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Outras Cozinhas (Cordel - Parte I)


Nesses tempos onde a cada dia somos “surpreendidos” por uma nova notícia de corrupção, um novo caso de total imoralidade e ausência de ética na política brasileira, recordei de um cordel que tenho aqui comigo, escrito em 1987 por Gonçalo Ferreira da Silva, e que gostaria de compartilhar em nossa mesa:

CARTA DE TANCREDO NEVES AOS CONSTITUINTES

(Gonçalo Ferreira da Silva)

Tancredo de Almeida Neves
no colégio eleitoral
venceu com facilidade
seu deslavado rival
mas morreu sem ostentar
a faixa presidencial.

Há línguas envenenadas
que dizem até hoje em dia
que a vice-presidência
Sarney quis porque sabia
que o velho das alterosas
brevemente morreria.

De fato foi tiro e queda,
o velhinho sucumbiu
depois de agonia suprema
que o povo também sentiu;
e Sarney como mandava
o figurino assumiu.

Muitas coisas, por Tancredo
já estavam programadas,
outras foram, pelo próprio
José Sarney inventadas
que se Tancredo vivesse
jamais seriam aprovadas.

Sem que Sarney percebesse
Tancredo ficou atento
no aconchego celeste
vendo todo movimento:
a criação do cruzado
que trouxe o congelamento.

E o descongelamento
matando o plano cruzado,
o longo tempo de inércia
que Sarney acomodado
queria, pelo bigode
ser do governo arrancado.

Tancredo dava muxoxos
de pura indignação,
mas estando entre os eleitos
na celestial mansão
veria o trabalho da
nova constituição.

O resto de paciência
que ainda tinha Tancredo
se colocasse num copo
talvez que não desse um dedo
com tanta burrice junta
ele esgotou logo cedo.

Fortuna gasta em papel
para inoperante estudo
que resulta num trabalho
de tão fraco conteúdo
que eles mesmos se mancam
depois vão repetir tudo.

Centenas de homens in-
pecavelmente vestidos
submetendo uns aos outros
rascunhos tão repetidos
que nos matam de vergonha
no momento em que são lidos.

Mas não entrando no cerne
do problema da Nação
não adianta mudança
de forma ou de redação
para consolidação
desta constituição.

Diante da lentidão
da nova constituinte
Tancredo aos constituintes
se fez de contribuinte
mandando-lhes uma carta
com a redação seguinte:

(Continua...)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Deixados pelo caminho

Ultimamente tenho andado um pouco perdido no tempo. Erro o dia, o mês e, às vezes, até o ano. Passei quase todo mês de agosto acreditando que estava no mês nove, quando fui informado que ainda era o mês oito. Mas meu problema não é com a memória nem com o tempo, meu problema é com os números. Acho que estou aos poucos excluindo os números da minha vida, deixando algarismos pelo caminho.
Desde que assumi de vez meu casamento com as letras, os números têm ficado abandonados. E hão de continuar assim. Pois enquanto esses números insistem em contar as horas, as datas e tantas outras coisas sem valor, há muito as letras me ensinaram a contar o infinito.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Badulaques

Meu fiel carderno, que me acompanhou durante anos, onde eu escrevia poemas, pensamentos, lembretes e etc, chegou ao fim. A maioria dos meus poemas, das coisas que sirvo aqui em nossa mesa, foi escrita nele. Agora vou guardá-lo cuidadosamente, zelando pelas suas páginas já fragilizadas.
Há nele também muitos esboços de poemas, tentativas não tão bem sucedidas de expressar-me. Muitas palavras vão ficar só com ele. Porém, antes de aposentá-lo oficialmente, selecionei aqui algumas dessas palavras, desses versos que, como um gesto de homenagem, gostaria de compartilhar com vocês. Grande abraço!

Poema de Esquina


Estou propenso à esquiva,
ao abrigo reto da esquina.
Quero o encontro no vértice,
sem sinapse entre as quinas.

Calcularei a distância segura.
Se dou pé nas suas palavras,
Se aturo me ater nas alturas.

Dessa vez quero ter chão
ao alcance da alma.
Soletre cada silêncio,
quero o infinito com calma.

E não, não apresse o contato.
Deixe os corpos para os ouvidos.
Deixe os olhos usarem o tato.


Minas de fios

Aquele que vai ali
é homem desconfiado,
do papo fiado,
do chapéu desfiado.

Aquele que vai ali
é da graça afiada,
da viola afinada,
da fé e mais nada.

Aquele que vai ali
é das Minas de fio,
é fiote das Gerais...


Sadomasoquismo no sertão

Não que eu goste da dor
nem que queira ser santo,
mas não há uma só alegria
que quebre o prazer e o encanto
de ver a tarde morrendo
com uma viola em pranto...

domingo, 14 de agosto de 2011

As tres irmans do poeta

Para nosso prato dominical, gostaria de servir um dos meus poemas favoritos, "As tres irmans do poeta", de Castro Alves. Para pô-lo à mesa, mantenho-me fiel à edição de 1989 de onde o retirei. De acompanhamento, vai a narração feita pelo grande músico e poeta Elomar. Bom apetite!

AS TRES IRMANS DO POETA (Traduzido de E. BERTHOUD)


É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão tres pallidas virgens silenciosas
Atravez da procella irrequieta.
Vão tres pallidas virgens... vão sombrias
Rindo colar n’um beijo as bocas frias ...

Na fronte cismadora do — Poeta —

"Saude, irmão, eu sou a Indifferença.
Sou eu quem te sepulta a ideia immensa,
Quem no teu nome a escuridão projecta...
Fui eu que te vesti do meu sudario...
Que vais fazer tão triste e solitario?. . ."

— "Eu lutarei!" — responde-lhe o Poeta.

"Saude, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome...
O teu misero pão, misero athleta!
Hoje, amanhan, depois... depois (qu'importa?)
Virei sempre sentar-me á tua porta. . ."

—“Eu soffrerei!” — responde-lhe o Poeta.

"Saude, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hymno augusto e forte.
Marquei-te a fronte, misero propheta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cantico gelar-se no meu seio?!"

— "Eu cantarei no céu" — responde-lhe o Poeta!



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Outras cozinhas (eróticos)

Delírio (Olavo Bilac)

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...


Para o sexo a expirar (Drummond)

Para o sexo a expirar eu me volto, expirante,
raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sémen aljofrando o irreparável ermo.


Depois da orgia (Augusto dos Anjos)

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

É preciso morrer!

Nossa cozinha está de volta após esse pequeno recesso! Durante esse curto período em que estive ausente, tive alguns “árduos afazeres”, mas reservei tempo para algumas saborosas leituras que não podem faltar no nosso dia-a-dia. Dentre elas, Dostoievski.
O príncipe Míchkin, de O Idiota, sem dúvida é um dos maiores personagens criados até hoje. Uma das intenções de Dostoievski ao escrever esse fabuloso livro era, como ele mesmo relatou, “retratar um homem perfeitamente belo”, um homem que fosse perfeitamente bom. Para tal façanha, o autor observou que precisaria de muita inspiração, constatando que, em toda história, o único homem que havia satisfeito esse ideal de “perfeitamente belo” foi Cristo (após um longo período na prisão, Dostoievski aderiu firmemente aos valores cristãos). No mundo literário, o personagem que mais se aproximava desse ideal era Dom Quixote, embora para o autor tal personagem parecia, em certas circunstâncias, demasiadamente cômico (Dostoievski estudou ainda personagens como o Sr. Pickwick de Dickens e Jean Valjean de Victor Hugo). E assim nasceu o príncipe Míchkin, uma mistura de Cristo com Dom Quixote.
Entretanto, mais do que características advindas dessa mistura, o humanista príncipe Míchkin era, em muitos momentos, uma representação do próprio autor. O príncipe era epilético assim como Dostoievski e carregava muitas das experiências que o escritor passou em vida. Talvez esse tenha sido um dos personagens mais autobiográficos do autor em questão.
Existe uma famosa frase latina que diz “primo vivere, deinde philosophare”, primeiro há de viver, depois há de filosofar. Assim também é usado na literatura: primeiro há de viver, depois há de escrever. Dostoievski fez isso brilhantemente. Sua vida está quase toda descrita em seus livros.
Por outro lado, ao escrever seus poemas, Sylvia Plath contrariou um pouco essa idéia. Ela propôs talvez uma idéia de que “primeiro há de morrer, depois há de escrever”. Pois é, caros amigos, Plath estava certo! Em muitas ocasiões, para escrever um bom romance, um bom poema, é preciso morrer algumas vezes...

“Morrer
é uma arte, como tudo mais.
Eu, por exemplo, morro excepcionalmente bem.

Morro para me sentir no inferno.
Morro para me sentir real.
Acho que se pode dizer que tenho um dom.”
(Sylvia Plath)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Recesso

Pessoal, devido a algumas dificuldades para manter o blog atualizado durante o mês de julho, a cozinha entrará num pequeno recesso até o começo de agosto. Mas gostaria de lembrar que todos os pratos servidos até aqui continuarão à mesa para os que ainda não se serviram e também para os que querem repetir a refeição, reler algo. Além disso, se olharmos ao nosso redor, veremos que o que não falta são deliciosos pratos a serem preparados e/ou degustados. O mundo está repleto de histórias, de casos a serem contados e ouvidos. Cada ser vivo que pisa nesse planeta (e talvez também os que pisam em outros) é digno de um livro, de ter sua biografia minuciosamente contada e preservada para a posteridade. Queria poder ouvir todas elas. Como não posso, contento-me com as que ouço no dia-a-dia.
Pena que as pessoas de hoje parecem ter um gosto maior por histórias tristes. Talvez porque, como disse Leon Tolstoi, “todos os gêneros de felicidade se assemelham, mas cada infortúnio tem o seu caráter particular”. Sendo assim, ao ouvir uma história de felicidade, muitos já se dão por satisfeitos e querem logo saber das desgraças (vide os telejornais atuais). Está certo que não podemos nem devemos tapar ouvidos e olhos para os infortúnios do mundo, mas convenhamos, ouvir uma história feliz é sempre bom (seja desse ou de outro planeta).

Grande abraço e inté breve!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Outras cozinhas (dos amores perdidos)

Essa que hei de amar perdidamente um dia (Guilherme de Almeida)

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"


Hão de chorar por ela os cinamomos
(Alphonsus de Guimaraens)

Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"


Perdoa-me, visão dos meus amores (Álvares de Azevedo)

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores…

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…

Sem que última esperança me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Trovas

Fiz para você uma trova,
sem sequer ser trovador.
Ela é bem mais que uma prova,
é um veredicto de amor!

Não tenho o hábito de escrever trovas. Essa surgiu numa das raras vezes que me arrisquei por esse caminho. Talvez motivado pelo livro de trovas que tenho em mãos desde o começo desse mês: Degraus do Sonho, da poetisa Manita. Segundo as informações do livro em questão, Manita é membro correspondente da Academia Fluminense de Letras, membro efetivo da Academia Teresopolitana de Letras, do Clube dos Poetas Fluminenses, da Sociedade Cultural e Artística Brasileira (S.C.A.B.) e do Grêmio Brasileiro de Trovadores. Não consegui muito mais informações sobre a autora, como sua data de nascimento e se ainda é viva. Fato é que o “Degraus do Sonho” que tenho comigo foi publicado em 1966.
Outra pequena informação que tenho sobre Manita é que ela visitou algumas vezes minha cidade natal, Ervália. E tais visitas devem ter sido bastante agradáveis, pois fez a autora dedicar algumas de suas belas trovas a essa pequena grande cidade. Uma delas, compartilho agora em nossa mesa:

A noite, nos céus de Ervália,
Tão bela, dá gosto de vê-la;
Não há lugar, Deus me valha,
Para pôr mais uma estrela.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O elo perdido

Caros arqueólogos e simpatizantes, parem com essa bobagem de procurar o “elo perdido”! Nunca perdemos o elo com os animais, com os primatas. Somos os mesmos homens de sempre (talvez mais eretos e menos emotivos). O que perdemos foi o elo com o outro mundo, com os sonhos, com as coisas que não existem. Estamos na “era do coração de pedra”.
Inventamos a roda, mas perdemos a direção. Inventamos a lâmpada, mas perdemos as estrelas. Inventamos o telefone, mas perdemos as palavras. Inventamos o avião, mas atropelamos os anjos... Aprendemos a contar, calcular, medir, e criamos uma espécie de fita métrica para o céu, para nos certificarmos que aquele pedaço de azul cabe em nosso poema em redondilha maior. Trocamos cinco palmos de poesia por dois dedos de prosa apressados. Sabemos exatamente quantos copos d’água nossa flor no vaso necessita, mas esquecemos qual a nossa dose diária de flores para sobreviver.
Experimentem um dia escavar livros. Não os seus próprios livros, mas esses livros rasos que algumas crianças guardam como tesouros. Nossa história não está numa ossada enterrada no barro, está manchada à tinta no papel. Nesses papéis de histórias inventadas. Nossos ancestrais são deuses, ninfas, Otelo, Pinóquio, Dorian Gray, Dom Quixote (esse último considero da família) etc. Talvez muitas pessoas duvidem, mas alguns de nossos ancestrais tinham asas. Porém, deu-se a evolução e as perdemos. Agora estamos a pouco de perder o siso.
Por isso, mais uma vez, peço encarecidamente que parem de procurar dinossauros, primatas, ossadas de qualquer espécie, e vão todos procurar suas almas peludas!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Hermenêutica

O texto de Vivaldo Coaracy, servido no último prato, foi retirado de um livro de 1930. Apesar disso, continua bem atual (com exceção de algumas regras ortográficas). Isso me fez lembrar um pequeno pensamento que eu havia passado para o papel há um tempo atrás:

Todo autor deve ser lido e interpretado sob a luz de sua época. É impossível compreender inteiramente um autor e suas obras sem considerar o contexto, o momento histórico em que ele viveu. Bem verdade, como disse Nietzsche, que alguns autores já nascem póstumos e só serão compreendidos em épocas futuras, depois de sua morte. O próprio Nietzsche era um deles. Ah, e é preciso lembrar dos poetas. Esses devem ser lidos sob a luz das estrelas.

domingo, 12 de junho de 2011

Brasileiros, até quando brasileiros? - Final

Continua...

Figuremos, por exemplo, quanto mais clara se tornaria a nossa historia, se na mesma fossem incluidos alguns capitulos como os seguintes: "Formação e evolução dos Brasileiros e dos Brasis", "Desenvolvimento da economia dos Brasis", "Processos politicos e administrativos dos Brasileiros", "Lutas de facções entre os Brasileiros", "Miseria e decadencia dos Brasis", etc.
Sob o ponto de vista social não seriam pequenas as vantagens, antes é provavel que uma grande transformação dahi viesse a resultar. Imagine-se por um momento que fosse possivel realizar-se essa fantasia ociosa que esbocei. É evidente que ninguem quereria ser considerado entre os profissionaes do Brasil. Os mais ferozes "brasileiros" de hoje passariam logo, por simples pudor, ou conveniencia propria, a affirmar que eram legitimos "brasis", que sempre o haviam sido no mais intimo dos seus sentimentos. É provavel que a designação "brasileiro" passasse mesmo a ser considera injuria, passivel de pena, quando a imprensa da opposição a empregasse. E aquelle mecanismo suggestivo das palavras, que ainda ha pouco recordei, paulatinamente uma transformação nas mentalidades se realisaria. Já não seria implantanta na imaginação ductil dos garotos que aprendem a ler a noção irradicavel de que a sua vocação profissional era ser, pelo menos, deputado ou governador de Estado. Só isto seria um benefico incalculavel.
E é possivel que dentro de dois ou tres seculos, por que devemos acreditar na lei da evolução, viesse mesmo a desapparecer a profissão de brasileiro. E os "brasis" investidos na posse e governo desta terra, poderiam então conduzil-a para aquelles "altos destinos" de que falava o Patriarcha.


Fim.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Brasileiros, até quando brasileiros? - Parte II

Continuando...

Quanto á grande maioria, esta enorme população que vive na condição de indigena da colonia, esta ainda não tem nome. É preciso crial-o. É preciso que uma distincção de designações torne manifesta a distincção real que existe entre as duas categorias de habitantes do maior pedaço da America tropical.
Ha tempos, o sr, ministro Helio Lobo empregou o patronymico "brasilianos". O vocabulo está regularmente formado, ao que parece, mas é antipathico. Acharia eu mais attrahentes os adjectivos "brasiliense", ou "brasilez", esse ultimo com um bom sabor de velho vernaculo. Talvez o melhor, porém, fosse adjectivar a forma "brasil". Seriamos nós assim, os pertencentes ao indigenato, os "brasis", o que teria o pico de uma ironia em relação aos outros, os "brasileiros".
Admittamos, pelo momento, esta designação. Aliás, qualquer uma das outras serviria. O essencial é ter vocabulos diversos para indicar coisas distinctas. relacionadas de facto, mas profundamente distinctas. Neste paiz ha "brasileiros" e "brasis", e o estabelecimento de denominações diversas, viria trazer muito maior clareza ao estudo dos nossos problemas e da nossa historia, ao mesmo tempo que acarretaria fatalmente consequencias sociaes de largo alcance.
Parece isto uma questiuncula de lexicologia. Insisto, porém, em affirmar que ella se reveste de importancia capital que á primeira vista não se manifesta.


Continua...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Brasileiros, até quando brasileiros? - Parte I

Gostaria de compartilhar aqui em nossa mesa um texto muito interessante que li há poucos dias. Não sei a data exata em que foi escrito, mas seu autor, Vivaldo Coaracy, viveu de 1882 a 1967. Sirvo-o aqui da maneira em que foi transcrito no livro "Literatura Brasileira", de Paulo de Azevedo & C., de 1930. O texto será servido em três partes.

Somos o unico povo do mundo (sempre fomos muito originaes!) que adopta por patronymico uma designação profissional. Em bom vernaculo, o sufixo "eiro" não é formador de gentilicos, mas designa o individuo que habitualmente exerce um officio. Ser brasileiro, é pois, como carpinteiro, ferreiro, boiadeiro ou cozinheiro. É um meio de vida. E está certo, em muitos casos, como já se verá.
Sabe-se a origem historica dessa anomalia. Nos tempos coloniaes, quem vinha trabalhar no Brasil, explorar a terra, era naturalmente um "brasileiro". Conserva Portugal esta tradição, assim designando os filhos da lusa terra que, aqui tendo feito fortuna, para lá regressam a gosal-a. É a accepção original. Não nos fazem esta injuria os outros povos. Todos elles indicam os naturaes do Brasil por um patronymico, regularmente formado de accordo com as regras de seu idioma. Nós, não. Não queremos nos designar por uma denominação que nos indique a pátria; apenas queremos ser os que della vivem. Somos "brasileiros".
Ora, isto, positivamente, não está certo. Essa generalisação é excessiva na sua amplitude. E tem inconvenientes muito graves. É um facto inconteste de psychologia que a palavra é o mais podereso elemento de suggestão conhecido. A repetição de um vocabulo é sufficiente para implantar profundamente no inconsciente do individuo a idéa que ella representa. É mesmo este um processo applicado por certos mysticos para criar determinadas attitudes mentaes. É o "mantran" dos theosophistas e dos yogis da India.
Vejamos, pois, o que succede a um pimpolho nascido neste paiz. Elle aprende a chamar os filhos da França, francezes. aos da Italia, italianos; aos da China, chins; aos da Turquia, turcos; aos da Polonia, polacos (agora se diz polonezes, por decencia). Para cada povo, aprende um gentilico apropriado. A si mesmo se designa como brasileiro, analogamente ao carroceiro, ao quintandeiro, ao padeiro. Instinctivamente, implanta-se em seu espirito a noção de que a sua qualidade de brasileiro é profissão. Inconscientemente, resolve-se a fazer como os outros, a adoptar esse meio de vida. E ahi temos no pirralho o germen de um politico, a semente de um futuro deputado!... Muita habilitação mais util é assim impedida de se manifestar.
Isso esta errado.
Em bom portuguez, "brasileiro" é o individuo que vive de explorar o Brasil. Reserve-se, pois, essa designação para aquella pequena minoria dos donos desta vasta colonia, para aquelles que fazem profissão habitual de explorar a terra e as gentes da mesma. Assim ficará certo.


Continua...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Outras cozinhas (andorinhas, avestruz e sapos)

Poeminha sentimental (Mario Quintana)

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


Termos de comparação (Zulmira Ribeiro Tavares)

São lidos por especialistas
um pequeno círculo
ávido.
A avestruz é um bicho-raro.
O poeta uma ávis-trote.
A avestruz engole
tudo: parafusos em princípio.
O poeta não
digere uma
única partícula.
Tudo: fica-lhe atravessado.
no papel, para tanto
estraçalha e regurgita –
ei-la: a Arte!!
Com quantas letras escreve-se “destroço”?
e “pútrido”?
com quantas, “estrutura”?
Para escrevê-las
com quantos dentes mastiga-se?
para romper certas palavras
o que se morde? o que sangra de início,
a língua?
Mas quem morde a língua
é o arrependido,
o que se cala.
Por isso a avestruz
é o bicho cândido.
O poeta, o tão difícil.
Todo o mundo sabe que ela é simples.
Cada enciclopédia a determina.
Ninguém confunde
a localização das plumas
o bico contra o peito: direção na fuga
o parafuso dentro
do estômago.
Vamos devagar com os poetas.
Por que são aves?
Porque regulam o peso de seus braços
e conforme cismam – voam.
Ávis-trotes porque pulam
inesperadamente
e quebram os braços.
Lidos por um grupo ávido.
Por que ávido?
por que de especialistas?
por que lidos?
Porque: –
não engolem
nem recusam
porque atrapalha
o comum espetáculo circence
do parafuso descendo pelo esôfago
o seu engasgo, o seu espasmo.
Porque são
intrusos.
Não se aceitam ávis-trotes
nos circos – Não comem espadas
muito menos fogo.
Porque não se juntam
ao comum dos espectadores
na arquibancada
mansamente digerindo sobras.
Porque não têm país certo
assinalado no mapa
como sói acontecer às avestruzes.
Seu país é
Nenhures.
Terra de difícil acesso
sujeita tanto
aos roedores
quanto à ação
das irradiações atrozes.
Em Nenhures
os acontecimentos desencadeiam-se fatais
ou, ao contrário, lúdicos.
Por exemplo em Nenhures
as unhas crescem
sozinhas do solo
simples para
beliscarem certas
zonas glúteas
É o cúmulo! – dizem todos –
É impensável!
Num país sujeito a irradiações
e à fatalidade
as unhas crescerem
e para isso!
Por isso os especialistas se interessam
Por isso sabem
São especialistas, por isso
poucos.
A ávis-trote
– nome científico, o vulgo a conhece por poeta –
também
é estudada nas escolas
fora do círculo.
Mais escassas fazem-se as respostas
a curiosidade nas crianças amaina-se
acalma-se, o poema: ovo choco muita vez
pois o poeta é fase histórica
não escapa –
raramente põe-se
como objeto de estudos.
De seu autor, pouco provável que se tenha
uma noção menos confusa.
O povo aclama a avestruz!
as plumas! ah!
a esplêndida
aventura audaz do parafuso!


Os sapos (Manuel Bandeira)

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Qual o seu céu?

"Mas que céu pode satisfazer o teu sonho de céu?". Esse verso, essa singular pergunta de Manuel Bandeira martelou na minha cabeça durante toda a semana. Como seria o meu céu? Como seria o céu que me satisfaria por completo? Afinal, creio que para a maioria das pessoas o conceito de céu significa isso, satisfação plena dos desejos. O problema é que temos uma certa tendência a nunca nos contentarmos plenamente, sendo provável que haja centros para reclamações no céu também.
Não sei bem como seria meu céu, mas acho que teria um tom de brincadeira, de infância e teria todos os livros de poesia já publicados, alguns guardados por seus respectivos autores. Semelhante a um imenso sebo. Esses famosos céus só de anjos e nuvens parecem monótonos. Brancos demais!
Mas um céu para cada um daria bastante trabalho para Deus. É preciso ser prático! Pelo menos tentar unir pessoas com interesses e necessidades parecidas para arquitetar um céu. Talvez pensando nisso, Ivo Barroso descreveu brilhantemente como seria um provável céu para os idosos.

O CÉU DOS VELHOS (Ivo Barroso)

No céu dos velhos o conforto predomina:
algodões de nuvens doces ou salgadas
que se desfazem no céu da boca já sem dentes
colchões de nimbos que se amoldam à lembrança do corpo
nádegas de cúmulos alimentando a nostalgia do sexo
Os velhos se espreguiçam nas varandas do céu
espiam lá em baixo suas vidas pregressas
a memória é curta e não há rostos conhecidos
ou as faces se transverberam recortadas contra a luz
Mais que em vida o seu tempo desbaratam
na inércia e no abandono dos músculos e da mente
esperam distraídos ou conformados
uma segunda morte que lhes apague para sempre
a sensação de absoluta inutilidade.


E para você? Qual o céu que pode satisfazer seu sonho de céu?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O poeta do mar

Gostaria de aproveitar o tema “mar”, servido no último prato, para falar aqui de um dos grandes nomes da poesia brasileira, Vicente de Carvalho, o Poeta do Mar.
Nascido em Santos, no dia 5 de abril de 1866, o poeta fez parte do movimento parnasianista no Brasil. Como o grande tema em suas obras era o “mar”, Vicente também ficou conhecido como o Poeta do Mar.
Ao longo de sua vida, esse ilustre poeta parnasianista publicou vários livros, dentre eles o chamado “Rosa, rosa de amor” (1902), do qual extraí o belíssimo poema “A fonte e a flor” para servir aqui em nossa mesa.
Vicente faleceu em sua cidade natal, no dia 22 de abril de 1924, mas sua cozinha continua sempre aberta àqueles que quiserem degustar de sua obra. Bom apetite!


A fonte e a flor

"Deixa-me, fonte!", dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte.
Não me leves para o mar".

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!"

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr do sol;

"Carícia das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!"

.........

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Náufragos

Gosto muito de filmes sobre náufragos,histórias de homens que acabam perdidos em alguma ilha deserta. Acho que o que realmente me fascina é aquela liberdade quase que ilimitada, a possibilidade de não se restringir a nada, exceto aos limites do mar. E acho também que não sou o único que possui esse fascínio.
Por outro lado, frusta-me a constatação de que, geralmente, vejo essas histórias acomodado no pequeno sofá da minha casa. É quase que inevitável uma curta reflexão sobre o paradoxo do ser humano e sua liberdade: para termos liberdade, somos obrigados a nos submeter aos aconchegantes limites das quatro paredes de nossas casas. Mas esse é provavelmente o caminho natural das coisas, abrir mão do infinito para saciar o desejo de liberdade.
Mas voltando às histórias dos náufragos, quando criança, não entendia como os navegadores ilhados sentiam sede tendo aquele mar todo aos seus pés. Essa dúvida se prolongou até o primeiro dia em que fui à praia e experimentei daquela água salgada. Desde esse dia também sou fascinado com o mar. Aliás, deveríamos todos aprender mais com o mar, que conserva toda aquela água sem abrir mão da sede...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Outras cozinhas (3 poemas)

Até agora, tenho servido no blog, geralmente, pratos exclusivos de minha cozinha. Mas hoje, resolvi por à mesa pratos de outras cozinhas, o que estou comendo em meus banquetes diários. Selecionei então três saborosos poemas que tive o prazer de degustar nos últimos dias. Bom apetite!

Soneto (Théophile de Viau)

Eu sonhei que Philis do inferno retornava,
Tão bela quanto foi à clara luz do dia;
Que eu lhe fizesse amor seu fantasma queria,
Sentindo como Ixion, que uma nuvem abraçava.

Toda nua em meu leito a sombra se espojava;
“Caro Dâmon, estou de volta” – me dizia;
“Vê como embelezei na triste moradia
Onde, depois que foste, a Sorte me trancava.

Quero outra vez beijar meu amante perfeito;
E de novo morrer no espasmo de teu leito!”
E então, tendo esgotado o meu ardor, em calma,

Me disse: “Volto à Morte. Adeus! Tens-te exibido
Por haveres, em vida o meu corpo fodido:
Vais agora dizer que fodeste a minha alma.”

* Não tenho certeza, mas acho que esta tradução é do grande poeta Ivo Barroso.


Destino (Cecília Meireles)

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina desamparada
que não principia e também não termina,
onde nunca é noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.

(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instáveis das reses dispersas.

(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o indício da sombra que foge...
Eu, não.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono das reses, do dono do prado.
E às vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, não sei por que lado.

(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginação,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.

(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)


A Balada do Desesperado (Henry Murger)

Tradução de Castro Alves.

— Quem bate à porta a tais horas?
— Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

— Abre. — Teu nome? — Há geada,
Abre. Teu nome? — És tardio!
Qual é teu nome? — Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me — Inda não!

Diz teu nome... — Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
— Passa fantasma irrisório...
— Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
— Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

— Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! — Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

— Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
— Posso dar-te a tua amante...
— Podes dar-me o seu amor?

— Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! — Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!

— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

— Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Encontro futurístico

O homem depara com aquele objeto estranho.
O que será? Possui vida?
Tem forma e tamanho.
É alvo, é fino, parece leve...
E sua ignota serventia... Que susto!
O objeto se moveu
ou foi o vento?
Valhe-me Deus! Deus e todos os santos!
Que encontro mais tenebroso
entre o homem e uma folha em branco!

Esse pequeno poema foi escrito em certo tom irônico para servir de apelo, ou melhor dizendo, de convite para que todos leiam mais e, principalmente, escrevam mais, criem mais. Uma folha em branco, à primeira vista, pode parecer um pouco ameaçadora, mas aos poucos se percebe que ela não é nada mais do que simples e inofensível porta aberta ao infinito. Escrevam, criem!
Para leitura, deixo aqui uma sugestão: cada um buscar ler o que gosta, mas um gosto que adquiri nos últimos meses, na verdade um vício, é a Literatura de Cordel. Colecionar e ler esses folhetos têm sido extremamente prazeroso para mim, por isso compartilho essa sugestão com todos. Além disso, a Literatura de Cordel ainda é desconhecida para muitos, embora já faça parte de nossa cultura há séculos, principalmente da região nordeste.
Leia, escreva, crie! (Perdão pelo tom imperativo, tome esses verbos como conjugados no modo "sugestivo amigável"). Grande abraço!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Tropeço

Caminhava pela rua Saudade
E num verso, tropecei distraído.
Ah se fosse um versinho de amor...
Como, meu Deus, como teria doído!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mais pra lá do que pra cá

Há pouco tempo, uma amiga minha pediu para que eu escrevesse algo sobre a educação brasileira. Não é preciso conhecer muito para saber que a nossa educação vai mal das pernas. Acatei o pedido dela, mas de antemão já deixei avisado que a minha posição, de certa forma, seria em defesa da atual educação. Creio que minha querida amiga ficou um pouco desapontada.
Mas o que eu queria dizer a ela é que a educação brasileira é bem sucedida, objetiva, pelo menos ao que se propõe.
Há uma personagem de Vitor Hugo, do livro “Os trabalhadores do mar”, chamada Deruchette. Ela foi criada por Mess Lethierry, seu tio. Esse, por sua vez, educou a sobrinha dando-lhe ocupações elegantes como música, livros e um pouco de costura. Lethierry queria preservar suas mãos delicadas, sua ternura, sua áurea de menina, sem nunca privá-la da cultura, é claro. Como escreveu o próprio Vitor Hugo, o tio “educou-a mais para ser flor do que para ser mulher”. Ao ler o livro, pode-se dizer que Lethierry foi bem sucedido.
Na educação do Brasil, acontece algo semelhante. Como já disse, ela é até bem feita, eficiente. A diferença é que o povo brasileiro é educado mais para pedra do que para homem...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Quadrúpede Peculiar

Mais um pequeno poema para degustação...

O poeta tem trejeito estranho,
parece andar sempre distraído.
Mas basta encontrar outro estranho,
para perceber que seu passo é desmedido.

Se continua a caminhar em tal compasso,
chega em uma irresolúvel questão:
Se perdeu a medida dos seus passos
ou se trocou os pés pelas mãos.

É provável que siga sempre questionando,
Pois poeta é um quadrúpede peculiar:
Ora usa as mãos para ir andando,
ora usa os pés para voar.


Queria aproveitar a oportunidade para divulgar aqui um grande espetáculo que ocorrerá neste fim de semana em BH, dia 16 e 17 de abril. O espetáculo é "O Auto da Catingueira", de Elomar Figueira Mello, grande violeiro e poeta do sertão. O espetáculo será realizado no Palácio das Artes e "comemora os 40 anos de escrita do auto e terá ainda a gravação de um DVD. Junto de Elomar sobem ao palco Saulo Laranjeira, Xangai, Dercio Marques, Luciana Monteiro e os músicos João Omar, Marcelo Bernardes e Ocelo Mendonça, além da participação dos bonecos do Grupo Giramundo.
Escrito em cinco atos, O Auto da Catingueira é construído em linguagem dialetal, que é mescla da expressão regional nordestina com a preservação ibérica, no sertão baiano. Narra a saga de Dassanta, pastora de cabras, de seu mundo real e mítico, e das paixões que inspirou, com sua beleza que “matava mais qui cobra de lagêdo”." (Trecho transcrito do site do Palácio das Artes). Vale a pena conferir! Grande abraço!

domingo, 10 de abril de 2011

Festa Brasileira (Completa)

Para nosso prato dominical, ponho à mesa a versão integral de "Festa Brasileira", que já havia sido servida no blog, mas em 4 partes. Grande abraço!

Chegou por aqui Cabral,
Por volta de mil e quinhentos,
Em três caravelas de pau,
Pau-Brasil era outros quinhentos.
Trazia consigo a coroa
Do primeiro João da Bahia.
Os daqui estavam na boa,
Eram só Josés e Marias.
Ainda não tinham Jesus
E sabe lá se tiveram!
Só conheceram a cruz
E os pecados dos que vieram.
O encontro foi cordial,
Abraço pra lá, laço pra cá.
“Bem-vindo, seu Portugal,
Faça o favor, queira entrar!”
Após muito ter navegado,
Cabral aceitou o convite:
“Meus marujos estão bem cansados,
E já que o senhor insiste!”
Foi todo mundo pra rede,
Dormir e comer mamão,
Mas os homens também tinham sede.
Tinham fome, sede e tesão.
E assim ficaram por dias,
Aos cuidados do anfitrião.
Como eram belas as Índias!
Pobre Vasco sem direção!

Mas deu-se um dia qualquer,
Que Cabral acordou arretado.
E erguendo sua colher,
Gritou p’rum sujeito pelado:
“Vai chamar logo o povo!
Vamos acabar com a preguiça!
Se Colombo brinca com ovo,
Nós rezamos uma missa!”
O padre veio apressado,
Com sua cruz e sua viola:
“Deixemos a missa de lado,
Um boa moda consola!”
A idéia de fato servira.
Todos ao redor da fogueira
Cantando e dançando catira,
Como um Fado à brasileira.
Outra vez se mordeu a maçã,
Como Adão fez no início.
Aos poucos esqueceram Tupã:
“Três vivas para Dionísio!”
Mas o belo luar de prata
Foi se tornando de ouro
E a moda que consolava,
Passou a arrancar o couro.
Tupã se escondeu na floresta,
Vendo sua família aos pedaços,
Esperando pelo fim da festa
Com alguns de seus filhos no braço.

Mas a festa se arrastou por anos,
Com muito mais convidados:
Holandeses, alemães, africanos...
Foliões de todos os lados.
Aí começou a mistura.
“Ninguém é de ninguém!”
Exceto os de pele escura.
Esses eram sempre de alguém.
Até Dom Pedro que mal chegara,
Também entrou no clima.
Subiu num pau-de-arara
E então bradou lá de cima:
“Portugal marcou meu horário,
Ameaçou me pôr de castigo.
Mas desta festa eu não saio,
Digam ao velho que fico!”
E vendo o povo empolgado,
Continuou o seu discurso
Num tom ainda mais alto,
Com um sotaque bem luso:
“Já me enjoei desse vinho!
Quero algo mais forte!
Ouça bem Portugal:
Caipirinha ou Morte!”

Então veio dona Isabel,
Numa ginga bem brasileira,
E assinou um papel
Para o povo dançar capoeira.
Formou-se uma grande roda
Para todo mundo dançar,
Mas uns queriam a moda:
“A viola não pode parar!”
Foi quando um sujeito alterado
Gritou, já com as pernas bambas:
“Aqui está tudo errado,
O negócio é fazer samba!”
E já com a cuíca na mão,
Mandou improvisar o batuque.
Era para ser no latão,
Mas saiu tapa, murro e chute.
E o Brasil foi se construindo
De viola, berimbau e cuíca.
E a festa sempre seguindo...
Se pára, não tem um que fica!

(Fim)

(... mas a festa continua)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O encontro de Abraão com Zeus (Parte 2 de 2)

Conforme o prometido, ponho à mesa a segunda parte desse inusitado encontro.
Grande abraço!

(...)
- Há controvérsias. Nossos mitos dizem outra coisa. Aliás, esse é outro ponto. Nossos mitos já estão bem feitos, bem estruturados. Já temos descrita e explicada toda a história da humanidade, a história de Zeus, o Senhor do Olimpo! (Cabuuum! Caiu outro raio ao lado da casa).
- Por acaso é o senhor que está jogando esses raios aí fora? É o senhor que está fazendo isso? Porque se for, poderia fazer a gentileza de parar? Está me assustando e atrapalhando a pensar.
- Desculpe, mas é inevitável quando empolgo.
- Tudo bem. Continuando... Está certo que ainda não estruturei bem as coisas, está faltando esquematizar tudo. Mas já estou pensando nisso. Inclusive já preparei uns slides mostrando a genealogia desde Adão até os dias atuais. E no mais, isso vai sendo feito aos poucos, Deus ajudará a divulgar a Sua própria palavra.
- Sei...
- Mas afinal, o que o senhor quer mesmo?
- Quero... digo, queremos que você pare de pregar sobre um só Deus!
- Não posso, iria contra minha fé, contra a vontade de Deus.
- Então, pelo menos, fale de nós, deuses gregos. Fale de Zeus, o Senhor do Olimpo! (Cabuuum! Outro raio).
- Mas que mania de raio!
- Desculpe. Mas enfim, deixe o povo escolher seu próprio deus, seja democrático.
- Esse negócio de democracia é com seus filósofos lá! Aqui não tem muito disso não, estamos mais para plutocracia ou uma teocracia mesmo.
- Você terá direito a ninfas, a cavalgar com Apolo e a passear no Olimpo.
- Isso já é suborno. É pecado.
- Você não está me dando outra alternativa além da punição.
- É isso que o senhor quer que eu pregue? Um deus punitivo, ameaçador... Meu Deus é amor, é perdão...
- Tudo bem, Abraão. Vou deixar que pregue sobre o deus que quiser. Mas não me responsabilizo pelas conseqüências... eu avise...
Zeus desapareceu... (em seguida, outro raio: Cabuuum!).
Na manhã seguinte, Abraão acordou animado para sua pregação:
- Hoje falarei de Deus. Um único Deus! Meu Deus!
E assim o fez!
Um só Deus foi pregado. O problema é que os homens fizeram desse Deus várias crenças, dessas crenças várias religiões, dessas religiões várias guerras...
Abraão, ao ver isso, sentiu-se triste. Lembrou daquela noite, das palavras de Zeus e pensou consigo: “E se eu tivesse pregado apenas sobre monólogos russos?”

domingo, 3 de abril de 2011

Versinhos Refratados

No mundo onde tudo é cristalino:
As pessoas, as pedras, os jardins...
A luz só reflete o que não existe.

E como é lindo! Como é lindo
ver, meu amor, brilharem assim,
esses seus dois olhinhos tristes.

quinta-feira, 31 de março de 2011

O encontro de Abraão com Zeus (Parte1 de 2)

Pessoal, gostaria de pôr à mesa um pequeno texto que escrevi em tom de brincadeira, imaginando como seria um possível encontro entre Abrãao, que pregou o monoteísmo do qual surgiu posteriormente o judaismo, o cristianismo e o islamismo, com o deus grego Zeus. Esse texto foi escrito nos últimos dois dias, na tentativa de aliviar um pouco a ansiedade para saber se meu computador voltaria à vida ou não. Felizmente ele está de volta e todos meus arquivos sobreviveram bravamente. Sirvo então a primeira parte do encontro, que será divido em dois. A segunda parte, sirvo na próxima semana. Grande abraço!

Certa noite, Abraão preparava-se para deitar e dormir tranqüilamente, após um longo dia de pregação do monoteísmo. Estava contente com seus próprios discursos, já pensava em outras áreas para abordar na pregação, tais como o monopólio das grandes empresas, monólogos russos e o hábito dos mono-carvoeiros. Já apagava a última vela de seu quarto quando um forte clarão iluminou toda sua casa, fazendo surgir em sua frente um alto senhor de barba branca.
- Meu senhor!...Deus?
- Sou deus, mas não o seu. Não esse aí que você anda pregando. Sou Zeus, o Senhor do Olimpo! (Cabuuum! Estourou um raio ao lado da casa)
- Acho que já ouvi falar do senhor. O senhor é lá das banda da Grécia, né? O que venho fazer aqui? Como posso ajudá-lo?
- Estou muito descontente com você Abraão. Aliás, estamos. Há outros vários deuses, uns mais poderosos, outros nem tanto, lá do Olimpo que estão furiosos com você, com o que você anda fazendo.
- Mas o que eu ando fazendo, meu Deus?
- Isso que acabou de fazer! Ficar falando por aí de um só Deus! Dizendo para o povo que só existe um Deus! Seu Deus!
- Mas não é verdade?
- Não! E nós deuses gregos? Por acaso somos só um? Não existimos?
- Que eu conheço até agora, só o senhor.
- Mas está enganado. Além de mim existe Posídon, Hera, Dionísio, Apolo, Atena e mais um tanto... sem mencionar os semideuses, esses eu já perdi a conta!
- Deve dar uma trabalheira cultuar tantos deuses... e haja bicho para tantos sacrifícios!
- E você não acha que vai dar uma trabalheira para Deus se todo mundo passar a fazer pedidos, orações, só para Ele?
- É, isso é verdade! Não tinha pensado por esse lado... mas o Deus que prego dá conta. É onisciente, onipresente e onipotente... só um minuto, senhor Zeus. Vou anotar aqui na pauta dos meus próximos discursos: “falar sobre o ornitorrinco”... pronto! Pode continuar!
- Pois bem... seu Deus pode ser isso, mas nós somos mais práticos, mais organizados... mais avançados. Já estamos no Taylorismo, divisão de tarefas. Cada um faz um pouco... Bem capaz do seu Deus utilizar só uma pessoa para construir uma arca se, por exemplo, houver um dilúvio.
- É... já ouvi falar de um caso parecido. Mas se Ele pede é porque o sujeito dá conta, até porque foi Ele quem criou tudo e todos. Ele conhece bem os funcionários que tem.

(continua...)

domingo, 27 de março de 2011

Interior

Mantendo o hábito do prato dominical, ponho à mesa mais um poema do "Pá Virada". Vale lembrar que, para os que ainda não conhecem, o livro está disponível para download aqui no blog. Bom apetite! E grande abraço!!!

(Em homenagem a Ervália - MG)

É tarde, após o almoço.
O sol ocupou todos os lugares da praça.
De quando em quando alguém passa,
num passo mais pra prosa que pra pressa.
E assim, o dia arremessa seu anzol
nas ruas da cidadezinha.
Uns beliscam, outros nem vêem a isca.
Eita calma! Ah preguiça...
O dia também vai se deitar à sombra....

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pequena crônica de um prisioneiro

Certa vez, fui para o meu quarto e me enclausurei lá dentro a fim de passar toda a tarde lendo e escrevendo. Não queria barulhos, distrações, incômodos. O sol também não era bem-vindo, bastava-me a luz elétrica do meu pequeno abajur.
Tranquei a porta e fechei todas as janelas, nem mesmo uma pequena greta me passou despercebido. Certifiquei-me que não havia nenhuma mosca ao redor que pudesse, consequentemente, zumbir mais alto do que minha silenciosa leitura. Possivelmente eu era o único ser vivo naquele quarto. Estava como um animal enjaulado ou um desses prisioneiros confinados em uma inescapável masmorra. A diferença é que eu estava assim por vontade própria e, de certa forma, o mundo lá fora é que me parecia uma irremediável e caótica cela.
Pois bem, passado algumas horas, lia eu atentamente um antigo exemplar de “Entre quatro paredes” de Jean P. Sartre, que tive a felicidade de encontrar baratinho num sebo ao lado de minha casa, quando meu celular tocou. Ah, o maldito celular! Como pude esquecer de desligá-lo?! Naquele momento então, tive a nítida impressão de que eu havia cavado acidentalmente, na minha estreita e retangular liberdade, um buraco para minha prisão.

domingo, 20 de março de 2011

Conversa Fiada

Ponho à mesa, mais um poema do livro "Pá virada". Bom apetite!

O poema se sentia por cima,
Estava todo prosa:
Não preciso de rimas,
Bastam-me as rosas!

O texto não encontrava pretexto
Para por fim na conversa:
Chega de rimas e rosas,
Basta-me a reza!

A oração quis saber que horas eram
E fez logo um resumo:
Chega de rimas, rosas e rezas,
Cada um toma seu rumo!

E o conto no seu canto,
Ao ouvir aquele aviso,
Também tomou seu rumo
Em meio a rimas, rosas, rezas e risos...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Rubem Alves

Olá pessoal. Estou passando aqui para informar que, no dia 23 de março, o escritor Rubem Alves estará em Belo Horiozonte-MG. Ele é o convidado do "Sempre um Papo" para debate e lançamento de seu livro "Variações Sobre o Prazer" (Ed. Planeta). O debate ocorrerá, como já foi dito, no dia 23 de março, às 19:30, no Grande Teatro do Palácio das Artes. Vale a pena conferir!
Grande abraço!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Festa Brasileira (Parte IV)

Então veio dona Isabel,
Numa ginga bem brasileira,
E assinou um papel
Para o povo dançar capoeira.
Formou-se uma grande roda
Para todo mundo dançar,
Mas uns queriam a moda:
“A viola não pode parar!”
Foi quando um sujeito alterado
Gritou, já com as pernas bambas:
“Aqui está tudo errado,
O negócio é fazer samba!”
E já com a cuíca na mão,
Mandou improvisar o batuque.
Era para ser no latão,
Mas saiu tapa, murro e chute.
E o Brasil foi se construindo
De viola, berimbau e cuíca.
E a festa sempre seguindo...
Se pára, não tem um que fica!

(Fim)

(... mas a festa continua)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Urbanização

Em Belo Horizonte, ao anoitecer, é possível ouvir o peculiar canto das cigarras nos mais diferentes pontos da cidade. E dependendo do local, com um ouvido mais atento, pode-se ouvir outros tantos seres noturnos como os morcegos, as corujas, os relógios de ponteiro... e os grilos? Para onde foram os grilos? Creio que esses estão naturalmente desaparecendo dos ambientes urbanos. É a ordem natural das coisas, a evolução: os grilos já não podem contra os alarmes de carro.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Aperitivos

Ponho à mesa trechos do meu segundo livro, "Monólogo de uma vida - a trágica rapsódia de uma platéia sem assento". Para os que já conhecem, fica aí uma recordação. Para os que não conhecem, fica aí um gostinho, um convite para conhecer o livro inteiro.

...
A platéia nomeia o ator:
- É menino!
- Não, é menina!
- É João!
- É José!
- É Marina!...
- Vai ser alguém?!

A vida é no ventre!
Que entre o ator,
Com seus atos e sua dor, sua mórula de sonhos!
O mundo está à espreita,
O coração ainda rejeita apanhar,
Então bate!!!
Bate acelerado, o olhar ainda é invertebrado, desconfia de todos e de tudo.
Mas um dia estará estagnado, para baixo...
Um dia o olhar estará mudo...

..................................................

...
João segue o roteiro normalmente. Ele está começando a gostar de sua própria atuação, mas algo chama sua atenção: um buraco. Sim, há um imenso buraco no palco.

Há um imenso buraco no palco.
Um buraco do tamanho do mundo.
O buraco parece tão fundo,
Faz o céu parecer tão alto.

Há um imenso buraco no mundo.
Um buraco do tamanho do palco.
O buraco parece tão alto,
Faz o céu parecer tão fundo.

Há um imenso buraco no céu.
Um buraco bem lá no alto.
O mundo parece um palco,
Cada qual no seu papel.

Sempre haverá o vazio.
No alto, no fundo, do lado.
Sempre haverá o buraco,
O vão a ser preenchido.

Até então, o buraco não era um problema. Mas aos poucos, pequenos e brancos ratinhos começam a entrar e sair dali. João, apreensivo, continua encenando. Ele não sabe qual será a reação da platéia ao ver os ratos...

...................................................

...
A peça continua normalmente, num ritmo sonolento e constante. Sem sal, sem açúcar. Platéia e ator conformados. Uma máquina perfeita. O ator fala, a platéia se cala. Café-com-pão, biscoito-não. Uma atmosfera mecânica. Estímulo e resposta. Uma peça de peças encaixadas. Até o silêncio se encaixa. Monotonia. Sem surpresas, sem improviso. Isso é igual a isso. Sem enguiço. Sempre adiante. Ontem, hoje e antes. Nada além. Dia-a-dia. Sem noites, sem sonhos. Sem poesia!

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac…

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Purgatório

Entrei no estreito corredor do Purgatório.
Anjos cegos adornavam a balança.
De um lado, o ranger de mil demônios.
Do outro, o sorrir de uma criança.

Sobre todos, uma abóboda espelhada
refletindo nossas almas já desnudas.
Fui andando sob mil almas trincadas,
pisando em corpos que agora nada ocupa.

E vi minha alma divida em metades,
sendo pesada como um boi no matadouro.
Num prato, tinha o valor de mil quilates.
No outro, nem um só grama de ouro.

Ao longe, meu novo corpo-espantalho.
Era feito de nuvens e algodão.
No bojo, mil gotículas de orvalho
e a lembrança do pulsar de um coração.

O veredicto celeste não foi unânime,
mas enfim, minha alma absolvida.
Sob o protesto de mil seres pusilâmines,
novo corpo, velha alma, eterna vida!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sonhos de Infância

Lembro-me que certa vez, no jardim de infância, minha professora pediu para que cada um da turma dissesse o que queria ser quando fosse adulto. Criança tem mesmo uma capacidade incrível de se unir por um ideal. Assim, quase todas as meninas responderam "professora", e eu, como quase todos os meninos, "jogador de futebol". A marcha harmônica de respostas fluía normalmente, até que um de meus colegas, não me recordo exatamente quem, respondeu "astronauta". Pronto! Estava desfeita a marcha. Eu pensei comigo: Quero ser astronauta também! Imagina poder voar no espaço, andar na lua! Queria mudar minha resposta.
Mas o tempo passa e os gostos mudam. Hoje já não quero ser jogador de futebol nem astronauta. Formei em Psicologia e tenho dado meus primeiros passos como poeta. Jamais sonharia com isso lá na minha infância.
Há uma trova de Alphonsus de Guimaraens, mineiro de Ouro Preto, que diz:

"Tu não sabes por que a lua
é triste nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas moram ali!"

De certa maneira, acho que estou realizando aquele sonho de infância de andar na lua. E quanto ao sonho de jogador de futebol, peço licença a Alphonsus:

Tu não sabes por que a lua
é redonda em sua forma...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas também jogam bola!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Favônio

Um pequeno poema para abrir o apetite...

O que traz o vento,
Em seu ritmo lento,
Escondido nas mãos?
Já se ouve os gritos
De outro ser aflito
Será teu irmão?
Não!

O que traz o vento
Para teu desalento,
Para afagar teu afã?
Parece tão leve
Que andar não lhe serve
Será tua irmã?
Não!

O que traz o vento
Para soprar teu tormento
E calar os teus ais?
Talvez seguro porto,
Teu eterno conforto
Será teu pai?
Não!

O que traz o vento,
Que neste momento,
Afugenta teus cães?
Talvez seja ela,
Que teu nome revela
Será tua mãe?
Não!

Então, o que traz o vento,
Este eterno vento
Que tanto te acalma?
Outra coisa, suponho.
Mas indago medonho,
Será tua alma?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Victor Hugo

Peço licença para pôr à mesa um trecho de mais uma obra clássica da literatura mundial, "Os trabalhadores do mar" de Victor Hugo, retirada de uma edição de 1958 com tradução de Machado de Assis:

"A morte da mãe acrabunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas, é um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturando-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamaou cada vez mais aquela alma e solidão."

Um prato belo e amargo...

Aproveito a oportunidade para convidar mais uma vez todos para participarem da campanha Perca um Livro. Vamos transformar o mundo numa imensa biblioteca!
Grande abraço!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Festa Brasileira (Parte III)

Mas a festa se arrastou por anos
Com muito mais convidados
Holandeses, alemães, africanos
Foliões de todos os lados
Aí começou a mistura
“Ninguém é de ninguém!”
Exceto os de pele escura
Esses eram sempre de alguém
Até Dom Pedro que mal chegara
Também entrou no clima
Subiu num pau-de-arara
E então bradou lá de cima:
“Portugal marcou meu horário
Ameaçou me pôr de castigo
Mas desta festa eu não saio
Digam ao velho que fico!”
E vendo o povo empolgado
Continuou o seu discurso
Num tom ainda mais alto
Com um sotaque bem luso:
“Já me enjoei desse vinho!
Quero algo mais forte!
Ouça bem Portugal:
Caipirinha ou Morte!”

(Continua...)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Feijão com Arroz

Caros amigos, além das "dificuldades" que não me permitiram atualizar o blog nos últimos dias, confesso também que hesitei algumas vezes, pois queria que o primeiro prato de 2011 fosse especial, saboroso, de encher a alma d'água.
Inicialmente pensei em servir um trecho amargo e belo da cozinha de Victor Hugo, no seu clássico "Os trabalhadores do mar". Hesitei. Queria um prato mais requintado de poesia, talvez mais exótico. Logo me veio à cabeça começar o ano com um poema de Fernando Pessoa, numa cozinha bem portuguesa. Hesitei. O prato devia ser nacional, tipicamente brasileiro. Vixe! O que não faltou foram idéias, ou melhor, cozinhas. Quintana, Drummond, Cecília, Vinícius, Coralina... Mas por fim, hesitei com tantas opções . Queria servir um feijão com arroz, simples, saboroso e que mata a fome. O que seria o feijão com arroz, na poesia? Pensei... deixei as idéias em banho-maria. O feijão com arroz na poesia talvez seja um prato raro, que se vê pouco por aí. Quase um sonho. É aquela poesia que brota por si só, leve e completa, simples e saborosa, feita em qualquer cozinha, comida por muitos, apreciada por poucos. Escrevê-la é quase uma gafe… Hesitei.
Não tenho esse feijão com arroz para por à nossa mesa. Perdão! Resta-me servir a fome... de palavras, de versos, de poesias. É assim que vou começar o ano, servindo muita, muita fome a todos!
Tenho que confessar outra coisa: isto acaba de ser escrito em terras uruguaias e talvez seja apenas um desabafo de um mineiro longe de sua cozinha natal. Tenho comido muito bem (chivitos, pastas, helados), mas quanta vontade de ler, digo, comer um bom feijão com arroz!