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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha alemã)




LIED LV (Heine)

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que havias morrido,
E ao despertar, comovido,
Descendo, as lágrimas acho
Pelo rosto abaixo.

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que não me querias,
E ao despertar, de agonias
Louco, chorei, de repente,
Soluçantemente.

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que me amavas, quando,
De golpe, acordei chorando,
Chorando muito tristonho,
Porque fora um sonho...


A canção do rei de Tule (Goethe)

Era uma vez um bom rei
Em Tule - essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei.

Era um copo de ouro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Pôs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.

Deixava um rico tesouro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de ouro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.

Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágoa,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!


O segredo revelado
(Chamisso)

Nós de noite nos beijámos,
E ninguém nos espreitara;
Só no céu astros luziam,
Quem neles não se fiara.

Mas caiu formosa estrela
E ao mar nos acusou,
Foi dizê-lo o mar ao leme,
Ao piloto este o contou.

O piloto logo em terra
Foi contá-lo à sua amiga;
Já não há rapaz na rua
Que não cante essa cantiga.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Espelho, espelho meu...

Alguns livros, alguns poemas, se pararmos para analisar, revelam os segredos mais íntimos do autor. Seus medos, suas paixões, seus anseios... o papel reflete a alma de quem escreve. E diferentemente do espelho, o papel não reflete somente feixes de luz, ele gosta de refletir também feixes de escuridão, de mistérios, de segredos. Assim, qualquer um que se proponha a encarar um pedaço de papel acaba descobrindo partes de si que nem conhecia ou que não gosta de ver. Reflexos de si estranhos a si mesmo.
Para muitos, é difícil encarar esse espelho que embaraça criador e criatura, que confunde o autor com sua obra, ou até mesmo o leitor e a obra. Às vezes tudo se mistura: autor, obra, leitor. E não é raro esses espelhos se tornarem temidos. Em um de seus ensaios literários, Thomas Mann conta como Goethe temia seu próprio livro, “O sofrimento do jovem Werther”. Em sua velhice, Goethe confessa que só releu tal livro, escrito em sua juventude, uma única vez e evitava ler outras vezes. O autor justificava: “tenho uma sensação estranha, e tenho medo de recair no estado patológico que o fez nascer”.
Não quero entrar aqui na discussão de quais estados seriam sadios e quais seriam patológicos, gostaria apenas de concluir dizendo que somos, em parte, um mistério a ser desvendado. Somos um mistério a ser lido.
Peço licença para citar uns versinhos que escrevi há tempos atrás:

Não conhecerás tua verdadeira
imagem olhando-te no espelho.
A luz que te amolda
não conhece tuas sombras.
És, em parte, mistério...