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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Caderno da vó Elce - VI


Mais um belo poema retirado do caderno da vó Elce:

Estranhas Lágrimas

(Félix Pacheco)

Lágrimas! Noutras épocas verti-as...
Não tinha o olhar enxuto como agora
Alma! Dizia então comigo, chora
Que o pranto diminui as agonias.

Ah! Quantas vezes pelas faces frias,
Por mal do meu amor, que se ia embora,
Gota a gota, rolando, elas outrora
Marcaram noites e marcaram dias!

Vinham do oceano d'alma, imenso e fundo,
Ondas de angústia, em suspiroso arranco,
Numa desesperança acerba e louca.

Nos olhos, hoje, as lágrimas estanco...
Mas rolam todas, sem que as veja o mundo,
Sob a forma de risos, pela boca...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Caderno da vó Elce - V

Semana Santa em Ervália e, inevitavelmente a bagagem de volta vem carregada daquelas lembranças boas, de um saudosismo infantil, de casa de avós e procissões. Com esse espírito (de boas lembranças), resolvi retomar aqui no blog, o Caderno da vó Elce, que são na verdade poemas retirados de um antigo caderno da minha avó. Grande parte dos poemas não possuem o nome de seus respectivos autores, portanto de alguns, como do poema que sirvo hoje, não consegui descobrir quem foi seu verdadeiro autor. Caso alguém saiba, agradeço imensamente desde já pela informação.


No tribunal cor de rosa

Está aberta a Sessão. Entraste em julgamento,
A Saudade é a defesa, a testemunha o Céu.
O Ciúme o promotor, o crime o Esquecimento,
O juiz é o Coração, e o ofendido, “Eu”!

Levanta-se o Ciúme; acusa: “És Criminosa”!...
E termina pedindo tua punição.
Chega a vez da Saudade, pálida e chorosa
Diz ao juiz que te amo e pede teu perdão.

O juiz que é um apaixonado, tímido, nervoso,
Medita uma sentença ao doce som mavioso
Duma cítara antiga de celestiais arpejos...

E pegando da pena, uma sentença lança
Condenando-te a me dares, divinal criança,
Setecentos abraços e um milhão de beijos.

sábado, 3 de agosto de 2013

Caderno da vó Elce - IV

Sofrer por sofrer... (J. G. de Araujo Jorge)

Parti. Quis te deixar abandonada
às lembranças do amor que nos prendeu.
Trouxe comigo, na alma torturada,
um ciúme atroz ciumentamente meu...

Fugi... fuga cruel, desesperada,
quando supus que nosso amor morreu...
Fuga inútil, se ainda és a minha amada,
se continuo inteiramente seu!

Não, não me livro deste amor nefasto,
nem dessa angústia, dessa luta, desse
ciúme que aumenta quanto mais me afasto...

E hoje concluí, fugindo de meus passos,
que sofrer por sofrer, antes sofresse
como sempre sofri... mas nos teus braços!


O beijo do papai (Eustórgio Wanderley)

Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
e os heróicos nipões, calmos filhos do oriente.
Em torno a Porto Arthur o cerco se apertava
como um cinto de ferro e fogo, que fechava
as portas da cidade a quem, valente, ousasse
por ali penetrar, ou por ali passasse.
Da boca dos canhões a morte, a rir traiçoeira,
partia a cada instante, e na veloz carreira
a vida ia ceifando aos míseros soldados
tão desumanamente assim sacrificados.
Quando, uma tarde, em que cessara num momento
o canhoneio, como a cobrar novo alento,
junto à linha de fogo uma adorável criança,
sem mostras de temor e cheia de confiança
apareceu correndo. O olhar de quem procura,
ansiosa, descobrir naquela massa escura
de uniformes e fumo um rosto conhecido;
o risonho perfil de um semblante querido.
Ao ver a pequenita um japonês, um bravo,
que, como a língua pátria, entendia a do eslavo,
pergunta-lhe, tomando em suas mãos calosas
as mãozinhas da criança, alvas e cetinosas:
– "Que desejas, pequena? Que procuras em meio
da tropa, que aqui vês exposta ao bombardeio?"
Quem és tu, de onde vens, que nome tens, menina?”
– "Meu nome" – ela responde – "eu lhe direi, é Lina.
Procuro o meu papai que há muito foi embora.
Há muito que o não vejo e desejava agora
vê-lo outra vez!" – "P’ra que?" – pergunta novamente
o filho do Japão, dizendo incontinenti:
– "Ele aqui já não está; seguiu mais para diante.
Porém, se algum recado ou coisa semelhante
quiseres que eu lhe dê, breve irei encontrá-lo.
Descreve-me os sinais daquele de quem falo
e eu prometo cumprir teu desejo inocente."
- “É fácil conhece-lo” – informa ela contente
– "É alto o meu papai, é forte e musculoso.
Tem, como eu tenho, os olhos azuis e é formoso
o seu rosto barbado. É claro o seu cabelo,
também da cor do meu como bem pode vê-lo."
E do seio tirando um pequeno retrato
acrescenta a sorrir: – "Façamos um contrato:
eu dou-lhe este papai para que não se esqueça
e, vendo o verdadeiro, em breve o reconheça.
Chama-se Ivan." – "Pois bem," – disse o nobre soldado
que o retrato guardou. "Dá-me agora o recado
que hei de procurar o teu papai... e em breve..."
– "Mas não é um recado que eu peço que lhe leve"
(replica-lhe a pequena) – "Diz-me então o que queres
e eu prometo cumprir o que tu me disseres."
– "Pois bem" – Lina responde – "É este o meu desejo:
chegue junto ao papai e entregue-lhe este beijo..."
E assim dizendo, salta ao colo do soldado
e beija-lhe o semblante em lágrimas banhado.
E um bravo que não chora, ante a horrível matança
chorou ao receber um beijo da criança...
Mas como dos canhões ouvisse a voz bramindo,
Lina foi-se acorrer por onde tinha vindo!
Durante a noite inteira o fogo não cessara
e as tropas do Mikado aos poucos avançara
num assalto feroz contra o inimigo em frente;
cada qual mais revel, cada qual mais valente!
Quando enfim à vitória as trombetas ecoaram
e as bandeiras do sol vermelho tremularam
sobre a trincheira russa à força conquistada,
todo o céu se aclarava à rósea madrugada
e pelo campo afora os mortos e os feridos
eram, sem distinção, por todos recolhidos.
Quando ao ver de um soldado a fronte descorada,
pendida sobre o peito, a blusa ensangüentada,
lembrou-se o japonês das feições da criança.
Olha o retrato e vê a perfeita semelhança.
Era um russo, o ferido, e o japonês o chama:
– "Ivan!" – "Que me quereis?" O moribundo exclama,
surpreso por ver o seu nome proferido
por lábios do inimigo. – "Eu te trago escondido"
– o bravo continua – "um beijo que te envia
tua filhinha Lina... Ela mesma o daria
se pudesse vir cá. Não podendo, guardei-o
para agora o depor de tua fronte em meio.
E ao dizer isso, calmo, o filho do oriente
beijou a fronte do russo e o abraçou ternamente.

sábado, 8 de junho de 2013

Caderno da vó Elce - III

Mais poesia do jardim de letras da vó...

Mágoa (Virgínia Victorino)

Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração,
eu que julgara eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,

sou,- apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
-  um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a, e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis...

Hoje, o que sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser tão desgraçada,
é pena de ter sido tão feliz.



Gostaria de pedir ajuda aos leitores para descobrir de quem é este poema abaixo também retirado do caderno da vó Elce. Dei uma pesquisada na internet e uma das possibilidades é de que seja de Antônio Tomáz, mas não posso afirmar. Pois bem, eis o poema:

A filha do bandido

Vai em busca do pai esta criança
Pálida e triste, anêmica e franzina
Que lembra, tão despida de esperança,
A rosa emurchecida da campina
 
Vai só, a estrada é solitária e escura
Há um atalho onde o terror habita,
De repente ela pára, treme e grita,
Que mãos estranhas o pulso lhe segura.
 
A bolsa ou a vida, alguém lhe brada
Erguendo o punhal assassino,
Ela, tremendo de susto, quase morta, espavorida
 
responde, reconhecendo a fala
A bolsa, sou pobre, não a tenho
Mas a vida, tu me deste, meu pai, podes tirá-la.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Caderno da vó Elce - II

Mais um belo soneto retirado do carderno de poesia da vó Elce...

Adeus!... (Guilherme de Almeida)

Adeus!... Eu vou partir! Agora é vindo
O momento da nossa despedida.
Suportemos a dor que nos trucida
Sem prantos, sem soluços, mas... sorrindo!

De que vale chorar, minha querida,
Pelo céu deste amor que agora é findo?
De que vale chorar se o olhar curtido
Não abranda o amargor desta partida?

Amanhã é saudade, mas que importa?
A saudade do amor é como um laço
Que de longe nos prende e nos conforta.

Numa ausência, querida, o amor não morre!
Se ele vive de um beijo e de um abraço,
Viverá de uma lágrima que corre.


Pessoal, gostaria de aproveitar que hoje, dia 23 de abril, é dia internacional do livro, para refazer o convite que já fiz outras vezes aqui no blog: Vamos transformar o mundo numa grande biblioteca! Para entender melhor, conheçam o projeto "perca um livro". Já acontece em vários países do mundo e aqui no Brasil muita gente também já participa. É uma forma interessante de ler e contribuir para que outras pessoas também tenham acesso à leitura. Para entender melhor e participar, acessem o site: http://www.livr.us/. Diariamente há pessoas “perdendo” e encontrando livros através desse divertido projeto. Quem participa pode comentar, acompanhar o livro que “perdeu”... Enfim, vale a pena conhecer! E quanto mais pessoas participarem e divulgarem, melhor! Vamos transformar o mundo em uma imensa biblioteca! Feliz dia do livro para todos! Grande abraço!

sábado, 23 de março de 2013

O caderno da vó Elce

Há pouco mais de uma semana passei a ter em mãos um caderno muito especial, o caderno em que minha avó Elce, em sua juventude, copiava as poesias que gostava. Quase todas estão datadas do ano de 1954.

Além da imensa alegria de encontrar um objeto tão significativo (pelo menos para mim) e ter mais uma bela recordação de minha avó, alegrei-me também em constatar naquelas páginas o quanto a vó gostava de poesia, o quanto sua alma era sensível à beleza das palavras. E que belos poemas a vó Elce escolhia! Uma bela seleção de poemas que me mostrou um pouco mais daquela alma que sempre regou de carinho seus familiares e amigos.

Gostaria de compartilhar com todos um pouco da minha alegria e da delicadeza que minha vó plantou nesse caderno. Uso o termo “plantou” porque poucos tinham tanto cuidado e dedicação com as plantas, com as flores, como tinha a vó. E todo esse cuidado com as flores ela levou para as palavras. E isso é fácil de constatar ao observar o capricho de seu caderno, os contornos suaves e belos de suas letras. Gostaria muito de poder compartilhar os poemas com as próprias letras da vó, mas infelizmente não tenho como escanear o caderno, pois o mesmo já está bastante fragilizado pelo tempo. Então compartilharei os poemas tal como é possível na internet. Mas que fique a certeza que tais poemas foram colhidos num belo e bem cuidado jardim!

Hoje escolhi o poema “Os cisnes” de Júlio Salusse, aos poucos compartilharei mais:


Os Cisnes (Júlio Salusse)

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!