sábado, 23 de março de 2013

O caderno da vó Elce

Há pouco mais de uma semana passei a ter em mãos um caderno muito especial, o caderno em que minha avó Elce, em sua juventude, copiava as poesias que gostava. Quase todas estão datadas do ano de 1954.

Além da imensa alegria de encontrar um objeto tão significativo (pelo menos para mim) e ter mais uma bela recordação de minha avó, alegrei-me também em constatar naquelas páginas o quanto a vó gostava de poesia, o quanto sua alma era sensível à beleza das palavras. E que belos poemas a vó Elce escolhia! Uma bela seleção de poemas que me mostrou um pouco mais daquela alma que sempre regou de carinho seus familiares e amigos.

Gostaria de compartilhar com todos um pouco da minha alegria e da delicadeza que minha vó plantou nesse caderno. Uso o termo “plantou” porque poucos tinham tanto cuidado e dedicação com as plantas, com as flores, como tinha a vó. E todo esse cuidado com as flores ela levou para as palavras. E isso é fácil de constatar ao observar o capricho de seu caderno, os contornos suaves e belos de suas letras. Gostaria muito de poder compartilhar os poemas com as próprias letras da vó, mas infelizmente não tenho como escanear o caderno, pois o mesmo já está bastante fragilizado pelo tempo. Então compartilharei os poemas tal como é possível na internet. Mas que fique a certeza que tais poemas foram colhidos num belo e bem cuidado jardim!

Hoje escolhi o poema “Os cisnes” de Júlio Salusse, aos poucos compartilharei mais:


Os Cisnes (Júlio Salusse)

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

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