Uns versinhos antigos tirados do fundo do mar, quero dizer, do fundo da gaveta...
Deus sentiu tanto orgulho
quando enfim criou o mar
que quis dar seus mergulhos,
pensou logo em navegar.
Deus pôs-se a contar as ondas
e pôs-se a brincar na areia.
Quis colecionar conchas
e sonhou com belas sereias.
Queria reinventar tudo
sem pernas, sem asas, sem ar,
para que tudo, tudo, tudo
só pudesse nadar.
E Deus sentiu tanto orgulho
que começou a chorar
e decidiu que dos olhos
cairiam gotinhas do mar.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
Outras cozinhas (sobre o mar)
O Homem e o Mar (Baudelaire - Tradução: Ivo Barroso)
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.
Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.
Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.
Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
Mar português (Fernando Pessoa)
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Cantigas Praianas: I- Ouves acaso quando entardece (Vicente de Carvalho)
Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?
Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas; choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão...
Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.
Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.
Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.
Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
Mar português (Fernando Pessoa)
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Cantigas Praianas: I- Ouves acaso quando entardece (Vicente de Carvalho)
Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?
Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas; choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão...
Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
O poeta do mar
Gostaria de aproveitar o tema “mar”, servido no último prato, para falar aqui de um dos grandes nomes da poesia brasileira, Vicente de Carvalho, o Poeta do Mar.
Nascido em Santos, no dia 5 de abril de 1866, o poeta fez parte do movimento parnasianista no Brasil. Como o grande tema em suas obras era o “mar”, Vicente também ficou conhecido como o Poeta do Mar.
Ao longo de sua vida, esse ilustre poeta parnasianista publicou vários livros, dentre eles o chamado “Rosa, rosa de amor” (1902), do qual extraí o belíssimo poema “A fonte e a flor” para servir aqui em nossa mesa.
Vicente faleceu em sua cidade natal, no dia 22 de abril de 1924, mas sua cozinha continua sempre aberta àqueles que quiserem degustar de sua obra. Bom apetite!
A fonte e a flor
"Deixa-me, fonte!", dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.
"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte.
Não me leves para o mar".
E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.
"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!"
Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.
"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr do sol;
"Carícia das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!"
.........
As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.
Nascido em Santos, no dia 5 de abril de 1866, o poeta fez parte do movimento parnasianista no Brasil. Como o grande tema em suas obras era o “mar”, Vicente também ficou conhecido como o Poeta do Mar.
Ao longo de sua vida, esse ilustre poeta parnasianista publicou vários livros, dentre eles o chamado “Rosa, rosa de amor” (1902), do qual extraí o belíssimo poema “A fonte e a flor” para servir aqui em nossa mesa.
Vicente faleceu em sua cidade natal, no dia 22 de abril de 1924, mas sua cozinha continua sempre aberta àqueles que quiserem degustar de sua obra. Bom apetite!
A fonte e a flor
"Deixa-me, fonte!", dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.
"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte.
Não me leves para o mar".
E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.
"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!"
Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.
"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr do sol;
"Carícia das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!"
.........
As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Náufragos
Gosto muito de filmes sobre náufragos,histórias de homens que acabam perdidos em alguma ilha deserta. Acho que o que realmente me fascina é aquela liberdade quase que ilimitada, a possibilidade de não se restringir a nada, exceto aos limites do mar. E acho também que não sou o único que possui esse fascínio.
Por outro lado, frusta-me a constatação de que, geralmente, vejo essas histórias acomodado no pequeno sofá da minha casa. É quase que inevitável uma curta reflexão sobre o paradoxo do ser humano e sua liberdade: para termos liberdade, somos obrigados a nos submeter aos aconchegantes limites das quatro paredes de nossas casas. Mas esse é provavelmente o caminho natural das coisas, abrir mão do infinito para saciar o desejo de liberdade.
Mas voltando às histórias dos náufragos, quando criança, não entendia como os navegadores ilhados sentiam sede tendo aquele mar todo aos seus pés. Essa dúvida se prolongou até o primeiro dia em que fui à praia e experimentei daquela água salgada. Desde esse dia também sou fascinado com o mar. Aliás, deveríamos todos aprender mais com o mar, que conserva toda aquela água sem abrir mão da sede...
Por outro lado, frusta-me a constatação de que, geralmente, vejo essas histórias acomodado no pequeno sofá da minha casa. É quase que inevitável uma curta reflexão sobre o paradoxo do ser humano e sua liberdade: para termos liberdade, somos obrigados a nos submeter aos aconchegantes limites das quatro paredes de nossas casas. Mas esse é provavelmente o caminho natural das coisas, abrir mão do infinito para saciar o desejo de liberdade.
Mas voltando às histórias dos náufragos, quando criança, não entendia como os navegadores ilhados sentiam sede tendo aquele mar todo aos seus pés. Essa dúvida se prolongou até o primeiro dia em que fui à praia e experimentei daquela água salgada. Desde esse dia também sou fascinado com o mar. Aliás, deveríamos todos aprender mais com o mar, que conserva toda aquela água sem abrir mão da sede...
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