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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Noite

Noite. Esse o tema e o nome de um fabuloso livro escrito por A. Alvarez. Há tempos que eu queria ler esse livro e finalmente estou tendo a oportunidade de saboreá-lo com a devida calma e apreço. Embora um tema como esse pareça demasiadamente amplo e inesgotável, A. Alvarez escreve de maneira incrível sobre esse período ignoto do dia que existe fora e dentro de nós, buscando compreender melhor seus significados e suas linguagens. Para analisar melhor a noite, o autor passeia pela história, poesia, pinturas, sonhos, psicanálise, dentre outras tantas ramificações por onde ela  possa se emaranhar.

Para mim o tema sempre foi motivo de fascínio. Com todas suas estrelas, sua escuridão, sua densa infinitude, a noite é uma das vestes mais transparentes e naturais da poesia. Todos os medos e paixões suscitados pela noite não poderiam deixar de ser inspirações constantes para qualquer um que se aventure pelo mundo literário. 

Os grandes romances comprovam através de seus personagens como a noite exerce uma influência avassaladora nos nossos pensamentos e comportamentos. Se tomarmos como exemplo o clássico romance de Charlotte Bronte, podemos ver como junto ao anoitecer todo drama, toda angústia de Jane Eyre (e a nossa) é exacerbada de uma maneira quase insuportável. Os bons autores sabem usar bem o período noturno para acentuarem ainda mais as paixões, medos e dramas em seus romances.
            
Victor Hugo, em Os trabalhadores do mar, faz uma das mais belas reflexões sobre a noite que cobria e abraçava o solitário Gilliatt:
 
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."

Poderíamos seguir aqui com uma lista quase infinita de exemplos de autores (Allan Poe, Robert Frost, Shakespeare...) que vez ou outra ousaram encarar alma à alma esse “inexprimível teto de tênebras”. Mas ao invés disso, deixo a sugestão, para quem se interessar mais pelo assunto, da leitura desse prazeroso e interessantíssimo livro de A. Álvarez: Noite.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha francesa)



As duas mães (Josephin Soulary)

Numa igreja se encontraram
Duas mães, em certo dia;
Uma entrava, e nesse instante,
Toda cheia de alegria,
Orgulhosa e triunfante,
Levava, chegando ao peito,
Um filhinho a baptizar.
Outra, a infeliz que saía,
Levava um filho também...
Oh! mas essa pobre mãe
Levava um filho a enterrar!
 
Cruzararam-se, a poucos passos,
A que trazia nos braços,
Cheio de vida e conforto,
O filho dos seus encantos,
E a triste, lavada em prantos,
Que seguia o filho morto!
 
Trocaram ambas o olhar...
Nisto a mãe afortunada
Foi a que rompeu a chorar;
Enquanto a desventurada
Que o filho tinha perdido,
-Oh maravilhas do amor!-
No meio da sua dor
Sorriu ao recém-nascido!


Poesia XXXI (Victor Hugo)

A campa dizia à rosa:
Que fazes tu, flor viçosa,
Do orvalho da madrugada?
E a rosa diz docemente:
Que fazes de tanta gente
Que jaz em ti sepultada?

Do orvalho que em mim ressume
Eu faço um suave perfume,
A flor falou com vaidade;
Eu faço, a campa falou,
Do corpo que me chegou
Um anjo na imensidade.


Maio (François Coppée)

Há um mês foste-te embora;
E eu sofro de ti distante,
Embalde viceja agora
O lilás fresco e odorante.
 
A sós, fujo ao claro brilho
Deste céu que me exaspera,
Pois aumenta o horror do exílio
O esplendor da primavera.
 
Contra os vidros transparentes
Da alcova de onde não saio,
Batendo as asas trementes
Ouço os insectos de Maio.

Do sol ao rútilo beijo
Cerro os lábios, desgostoso,
E só, do lilás desejo
O húmido ramo cheiroso;
 
Pois em meio às suas dores,
Do lilás, minh'alma em ânsia,
Vê teus olhares — nas flores,
Teu hálito — na fragrância.


Traduções: As duas mães - Bulhão Pato; Poesia XXXI - Ary de Mesquita; Maio - Raimundo Corrêa

domingo, 26 de agosto de 2012

Mais pra lá do que pra cá (repostagem)

Há pouco tempo, uma amiga minha pediu para que eu escrevesse algo sobre a educação brasileira. Não é preciso conhecer muito para saber que a nossa educação vai mal das pernas. Acatei o pedido dela, mas de antemão já deixei avisado que a minha posição, de certa forma, seria em defesa da atual educação. Creio que minha amiga ficou um pouco desapontada.

Mas o que eu queria dizer a ela é que a educação brasileira é bem sucedida, objetiva, pelo menos ao que se propõe. Explico:

Há uma personagem de Vitor Hugo, do livro “Os trabalhadores do mar”, chamada Deruchette. Ela foi criada por Mess Lethierry, seu tio. Esse, por sua vez, educou a sobrinha dando-lhe ocupações elegantes como música, livros e um pouco de costura. Lethierry queria preservar suas mãos delicadas, sua ternura, sua áurea de menina, sem nunca privá-la da cultura, é claro. Como escreveu o próprio Vitor Hugo, o tio “educou-a mais para ser flor do que para ser mulher”. Ao ler o livro, pode-se dizer que Lethierry foi bem sucedido.

Na educação do Brasil, acontece algo semelhante. Como já disse, ela é até bem feita, eficiente. A diferença é que nós, o povo brasileiro, somos educados mais para pedra do que para homem.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Outras cozinhas (prosas poéticas)

Camus

"...Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados."

Miguel de Unamuno

"A neve havia coberto todos os cumes rochosos da alma... Estava esta, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de pureza total, mas debaixo dele a alma tiritava de frio. Porque a pureza é fria, muito fria! Assim como o pôr do sol, ao entardecer, as coisas não fazem sombra umas às outras, e como se abraçam e se tornam irmãs na santa unidade do crepúsculo e mais tarde na negrura unificadora da noite, assim também na brancura da neve. A brancura desta e a negrura da noite são dois mantos de união, de fusão, quase de irmanação. A nevada silenciosa estende um manto de brancura, de nivelação, de aplainamento. É como a alma da criança e do ancião, planas e silenciosas. Os grande silêncios da alma da criança! Os grandes silêncios da alma do ancião!"

Victor Hugo

"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mais pra lá do que pra cá

Há pouco tempo, uma amiga minha pediu para que eu escrevesse algo sobre a educação brasileira. Não é preciso conhecer muito para saber que a nossa educação vai mal das pernas. Acatei o pedido dela, mas de antemão já deixei avisado que a minha posição, de certa forma, seria em defesa da atual educação. Creio que minha querida amiga ficou um pouco desapontada.
Mas o que eu queria dizer a ela é que a educação brasileira é bem sucedida, objetiva, pelo menos ao que se propõe.
Há uma personagem de Vitor Hugo, do livro “Os trabalhadores do mar”, chamada Deruchette. Ela foi criada por Mess Lethierry, seu tio. Esse, por sua vez, educou a sobrinha dando-lhe ocupações elegantes como música, livros e um pouco de costura. Lethierry queria preservar suas mãos delicadas, sua ternura, sua áurea de menina, sem nunca privá-la da cultura, é claro. Como escreveu o próprio Vitor Hugo, o tio “educou-a mais para ser flor do que para ser mulher”. Ao ler o livro, pode-se dizer que Lethierry foi bem sucedido.
Na educação do Brasil, acontece algo semelhante. Como já disse, ela é até bem feita, eficiente. A diferença é que o povo brasileiro é educado mais para pedra do que para homem...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Victor Hugo

Peço licença para pôr à mesa um trecho de mais uma obra clássica da literatura mundial, "Os trabalhadores do mar" de Victor Hugo, retirada de uma edição de 1958 com tradução de Machado de Assis:

"A morte da mãe acrabunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas, é um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturando-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamaou cada vez mais aquela alma e solidão."

Um prato belo e amargo...

Aproveito a oportunidade para convidar mais uma vez todos para participarem da campanha Perca um Livro. Vamos transformar o mundo numa imensa biblioteca!
Grande abraço!