sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Outras cozinhas (prosas poéticas)

Camus

"...Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados."

Miguel de Unamuno

"A neve havia coberto todos os cumes rochosos da alma... Estava esta, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de pureza total, mas debaixo dele a alma tiritava de frio. Porque a pureza é fria, muito fria! Assim como o pôr do sol, ao entardecer, as coisas não fazem sombra umas às outras, e como se abraçam e se tornam irmãs na santa unidade do crepúsculo e mais tarde na negrura unificadora da noite, assim também na brancura da neve. A brancura desta e a negrura da noite são dois mantos de união, de fusão, quase de irmanação. A nevada silenciosa estende um manto de brancura, de nivelação, de aplainamento. É como a alma da criança e do ancião, planas e silenciosas. Os grande silêncios da alma da criança! Os grandes silêncios da alma do ancião!"

Victor Hugo

"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."

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