Ismália (Alphonsus de Guimaraens)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Conta e tempo (Laurindo Rabelo)
Deus pede estrita a conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas como dar, em tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não fiz conta.
Não quis sobrando tempo, fazer conta;
Quero hoje fazer conta e falta tempo.
Ó vós que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis êsse tempo em passa-tempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.
Mas oh! Se os que contam com seu tempo
Fizessem dêsse tempo alguma conta,
Não choravam como eu, o não ter tempo.
Murmúrio (Cecílcia Meireles)
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
Mostrando postagens com marcador Alphonsus de Guimaraens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alphonsus de Guimaraens. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 18 de abril de 2012
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Outras cozinhas (dos amores perdidos)
Essa que hei de amar perdidamente um dia (Guilherme de Almeida)
Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.
E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…
E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"
Hão de chorar por ela os cinamomos (Alphonsus de Guimaraens)
Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"
Perdoa-me, visão dos meus amores (Álvares de Azevedo)
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores…
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…
Sem que última esperança me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.
E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…
E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"
Hão de chorar por ela os cinamomos (Alphonsus de Guimaraens)
Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"
Perdoa-me, visão dos meus amores (Álvares de Azevedo)
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores…
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…
Sem que última esperança me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Sonhos de Infância
Lembro-me que certa vez, no jardim de infância, minha professora pediu para que cada um da turma dissesse o que queria ser quando fosse adulto. Criança tem mesmo uma capacidade incrível de se unir por um ideal. Assim, quase todas as meninas responderam "professora", e eu, como quase todos os meninos, "jogador de futebol". A marcha harmônica de respostas fluía normalmente, até que um de meus colegas, não me recordo exatamente quem, respondeu "astronauta". Pronto! Estava desfeita a marcha. Eu pensei comigo: Quero ser astronauta também! Imagina poder voar no espaço, andar na lua! Queria mudar minha resposta.
Mas o tempo passa e os gostos mudam. Hoje já não quero ser jogador de futebol nem astronauta. Formei em Psicologia e tenho dado meus primeiros passos como poeta. Jamais sonharia com isso lá na minha infância.
Há uma trova de Alphonsus de Guimaraens, mineiro de Ouro Preto, que diz:
"Tu não sabes por que a lua
é triste nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas moram ali!"
De certa maneira, acho que estou realizando aquele sonho de infância de andar na lua. E quanto ao sonho de jogador de futebol, peço licença a Alphonsus:
Tu não sabes por que a lua
é redonda em sua forma...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas também jogam bola!
Mas o tempo passa e os gostos mudam. Hoje já não quero ser jogador de futebol nem astronauta. Formei em Psicologia e tenho dado meus primeiros passos como poeta. Jamais sonharia com isso lá na minha infância.
Há uma trova de Alphonsus de Guimaraens, mineiro de Ouro Preto, que diz:
"Tu não sabes por que a lua
é triste nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas moram ali!"
De certa maneira, acho que estou realizando aquele sonho de infância de andar na lua. E quanto ao sonho de jogador de futebol, peço licença a Alphonsus:
Tu não sabes por que a lua
é redonda em sua forma...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas também jogam bola!
Assinar:
Postagens (Atom)