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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O cinema dos anjos

No céu, os anjos são fascinados pela sétima arte. Adoram cinema e tudo que o envolve. Além dos já conhecidos anjos da guarda, há também os anjos roteiristas, os editores, os diretores, os câmeras e até alguns que se arriscam a dar uma de ator. É essa turma de anjos adoradores de cinema a responsável por criar e passar aquele filmezinho de nossa vida, que é rodado rapidinho diante de nossos olhos, quando estamos à beira da morte. Eles sabem muito bem quais cenas pôr no filme. Mas mesmo confiando muito no gosto dos anjos, gostaria de dar algumas sugestões para quando forem passar o meu filme:
Queria que meu filme fosse rodado ao estilo cinema antigo, nesses rolos que arrebentam toda hora. Nada de efeitos especiais. Podem passar a minha vida em preto e branco, com muitos chuviscos na tela. Sem falas, cinema mudo. Até porque acho que minha vida sempre será mais silêncios do que falas e, pelo menos para mim, as cenas não precisam de traduções ou legendas, acho que darei conta de entender as imagens por si só. Ah, uma coisa importante é a trilha sonora. Apesar do filme ser mudo, podem pôr uma música mais para o fim do filme, algo do tipo moda de viola. E já que estamos falando do fim do filme, façam como escrevi em versos há um tempo, deixem as últimas cenas mostrando apenas o céu. Após as clássicas cenas em família, terminem com cenas do céu cheio de nuvens e com os versos em letras garrafais:

“Sua vida não valeu a pena,
sua vida valeu a pena e o papel.”

Imagino mais ou menos assim o meu filme. Mas é só uma sugestão e, que fique bem claro, não estou ansioso para a estréia.


Queria aproveitar a oportunidade para compartilhar com vocês uma nova cozinha. Nesse carnaval tive o prazer de conhecer e conversar um pouco com o escritor Wellington Coelho. Wellington escreve contos e poemas extremamente interessantes e que valem muito a pena conferir. Para tal, compartilho com vocês o site desse grande escritor: www.wellingtoncoelho.com
Bom apetite!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Qual o seu céu?

"Mas que céu pode satisfazer o teu sonho de céu?". Esse verso, essa singular pergunta de Manuel Bandeira martelou na minha cabeça durante toda a semana. Como seria o meu céu? Como seria o céu que me satisfaria por completo? Afinal, creio que para a maioria das pessoas o conceito de céu significa isso, satisfação plena dos desejos. O problema é que temos uma certa tendência a nunca nos contentarmos plenamente, sendo provável que haja centros para reclamações no céu também.
Não sei bem como seria meu céu, mas acho que teria um tom de brincadeira, de infância e teria todos os livros de poesia já publicados, alguns guardados por seus respectivos autores. Semelhante a um imenso sebo. Esses famosos céus só de anjos e nuvens parecem monótonos. Brancos demais!
Mas um céu para cada um daria bastante trabalho para Deus. É preciso ser prático! Pelo menos tentar unir pessoas com interesses e necessidades parecidas para arquitetar um céu. Talvez pensando nisso, Ivo Barroso descreveu brilhantemente como seria um provável céu para os idosos.

O CÉU DOS VELHOS (Ivo Barroso)

No céu dos velhos o conforto predomina:
algodões de nuvens doces ou salgadas
que se desfazem no céu da boca já sem dentes
colchões de nimbos que se amoldam à lembrança do corpo
nádegas de cúmulos alimentando a nostalgia do sexo
Os velhos se espreguiçam nas varandas do céu
espiam lá em baixo suas vidas pregressas
a memória é curta e não há rostos conhecidos
ou as faces se transverberam recortadas contra a luz
Mais que em vida o seu tempo desbaratam
na inércia e no abandono dos músculos e da mente
esperam distraídos ou conformados
uma segunda morte que lhes apague para sempre
a sensação de absoluta inutilidade.


E para você? Qual o céu que pode satisfazer seu sonho de céu?