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sábado, 11 de maio de 2013

Outras cozinhas (Cozinha estadunidense)



A flecha e o canto (Longfellow)

Lancei ao ar uma flecha,
Não sei onde foi cair;
Partiu veloz, que a vista
Não pôde o vôo seguir.

Ao ar desferi um canto,
Não sei onde foi cair;
Que vista aguda há que possa
Do canto o vôo seguir?

Tempos depois, num carvalho
A flecha perfeita achei;
E guardado em peito amigo
Inteiro o canto encontrei.


O coração tem bordas estreitas (Emily Dickinson)

O coração tem bordas estreitas
E, feito o mar, se mensura
Por um poderoso baixo contínuo
E monotonia azul

Até que um furacão o seccione
E, enquanto descobre
Seu insuficiente espaço,
Aprende convulsões

Que a calmaria é tão só muralha
De intocada gaze:
A pressão de um instante a destrói,
Um questionamento a esgarça.


Fogo e gelo (Robert Frost)

Uns dizem que o mundo em fogo termina,
Outros, que em gelo se apaga.
E eu já provei de desejo, que é sina
Por isso repito que em fogo termina.
Mas se mais uma vez nosso mundo se estraga,
Só sei que na vida provei tanto ódio voraz
Que posso dizer que, se em gelo se apaga,
Tanto fez como tanto faz,
Posto que tudo se acaba.


Traduções: A flecha e o canto - Lucindo Filho; O coração tem bordas estreitas - Ivo Bender; Fogo e gelo - Dirlen Loyolla

domingo, 18 de novembro de 2012

Outras cozinhas (Emily, Ivo e Quintana)

(Emily Dickinson)

As manhãs estão mais suaves,
Mais sazonadas, as nozes;
Os mirtilos, mais carnudos,
E ausente se encontra a rosa.

O bordo ostenta um lenço mais alegre,
A campina, uma saia escarlate;
Para não estar fora de moda,
Vou tratar de me enfeitar.


Pão nosso
(Ivo Barroso)

Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.

Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.


Ah, sim, a velha poesia...
(Mario Quintana)

Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos

Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.