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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Caderno da vó Elce - V

Semana Santa em Ervália e, inevitavelmente a bagagem de volta vem carregada daquelas lembranças boas, de um saudosismo infantil, de casa de avós e procissões. Com esse espírito (de boas lembranças), resolvi retomar aqui no blog, o Caderno da vó Elce, que são na verdade poemas retirados de um antigo caderno da minha avó. Grande parte dos poemas não possuem o nome de seus respectivos autores, portanto de alguns, como do poema que sirvo hoje, não consegui descobrir quem foi seu verdadeiro autor. Caso alguém saiba, agradeço imensamente desde já pela informação.


No tribunal cor de rosa

Está aberta a Sessão. Entraste em julgamento,
A Saudade é a defesa, a testemunha o Céu.
O Ciúme o promotor, o crime o Esquecimento,
O juiz é o Coração, e o ofendido, “Eu”!

Levanta-se o Ciúme; acusa: “És Criminosa”!...
E termina pedindo tua punição.
Chega a vez da Saudade, pálida e chorosa
Diz ao juiz que te amo e pede teu perdão.

O juiz que é um apaixonado, tímido, nervoso,
Medita uma sentença ao doce som mavioso
Duma cítara antiga de celestiais arpejos...

E pegando da pena, uma sentença lança
Condenando-te a me dares, divinal criança,
Setecentos abraços e um milhão de beijos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ariano Suassuna

Lápide

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alanceado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.
Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.
Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido
que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

                                                      Ariano Suassuna (16/06/1927 - 23/07/2014)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

4 anos!

Pessoal, no próximo dia 1 de junho, o blog Sobra ou Sobremesa completará 4 anos de existência. Por isso, nos próximos dias estarei servindo em nossa mesa pratos que já foram servidos antes, estarei postando aqui poemas e prosas que de alguma forma contam um pouco da história desta cozinha. Os pratos serão escolhidos aleatoriamente, talvez por algum sabor especial, por comentários amigos... Enfim, agradeço a todos que visitaram esta cozinha e ajudaram a manter o fogo aceso! Como primeiro prato, sirvo novamente o poema ... (Reticências), o primeiro poema do primeiro livro (Pá Virada)! O poema que representa talvez o primeiro passo desse meu passeio em meio às palavras. Mais uma vez, obrigado a todos! E bom apetite!

...

O que mais admiro na vida,
No poema, são as reticências.
Esses três pontinhos ordenados
E descompromissados com
As conseqüências.
O continuar sem rumo e sem final,
Um eterno ir em frente.
O verdadeiro ponto de partida
Da mente.
A trilha de pão que nos leva de volta
Aonde ainda não chegamos,
Ao nosso lar, a eternidade!
Sim, as reticências contêm a eternidade,
Contêm a liberdade inata aos sonhos.
Proponho que de hoje em diante
Jamais se termine um texto,
Um poema, uma conversa
Com ponto final.
Que tudo termine (...) com reticências.
Interrogue, exclame, faça pausas,
Mas no fim, reticências!
Como são mágicos esses três pontinhos
Que nos permitem ser feliz para sempre!...

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Abril

Para celebrarmos o começo de Abril, alguns versos...

...

Ganhar uma cor de Abril
Dando voltas na praça.
Aconselhando o inverno
Para quem passa.

Buscando atentamente
Qualquer estrela escassa
Para saber se a noite caiu
Fora ou dentro de casa.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Compasso

Se a vida ante os olhos é fugaz
E o tempo ante o amor é eterno,
Há de supor que o tempo dure mais
Se medido ante os olhos encobertos.

Se o amor ante os olhos é pequeno
E os olhos ante a vida, inda menor,
Há de supor (entretanto já sabemos)
Que a vida com amor é bem maior.

Ante o tempo então, olhos fechados!
Que tudo passe nessa hora desmedida!
E só aos olhos seja o tempo compassado!

Mas se ao eterno o compasso ainda clama,
Coloquemos o tempo ante a vida
E a vida ante os olhos de quem ama!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para Luja...

O que seria dos poetas sem à pessoa amada, sem a musa que inspira seus sonhos e sua vida?... Seus versos. Eis quatro poemas dedicados inteiramente àquela que amo:

Do livro "O poeta e o pano"

Poema de açucar

(Para a Luja)

Do céu,
tudo no chão parece formiga.

Do chão,
tudo no céu parece estrela.

Ao teu lado,
tudo – no chão, no céu,
tudo parece estrela.
Somente as estrelas parecem formigas
(formigas a roubar de ti pedacinhos de luz)...


De astros

(Para Luja)

Saí do teu quarto atônito, mudado.
Como se eu ou o velho mundo fosse outro.
Com a vida condensada num estado
entre sonhos e relâmpagos de ouro.

Senti-me envolto a uma áurea de gigante,
alheio a tudo que não fosse ente celeste.
Já não lembrava como a vida era antes,
se o silêncio foste tu que compuseste.

E se me perguntas para onde eu fui,
por quais caminhos rabisquei meu rastro
de felicidade e passos azuis,

eu mal me lembro dos nomes das ruas.
Só sei que saí de lá falando de astros
e com um leve sotaque da lua.


Legado

(Para Luja)

Deito ao teu lado, amor, e penso
nos deuses que agora estão
confusos a respeito do tempo,
indagando-se sobre a criação.

Tudo conforme o planejado
até que nos deitamos a dois.
O Infinito não era nosso legado,
era surpresa para depois.

Fundimos a Anímica dos deuses
com a pobre Física dos homens.
Talvez reformulem os meses,
talvez não mais os somem.

Os deuses já aceitam a Eternidade
existir em um tempo e espaço,
só não entendem, é bem verdade,
como ela coube em teu abraço.


Do livro Pá Virada:

Encontro

(Para Luja)

Guarda logo este sol!
Seca logo estes mares!
Esconde esta lua!
E o céu, de que me vale?

Desbota logo estas flores,
deixa tudo em preto e branco!
Recolhe todas as estrelas
e amontoa em qualquer canto!

As árvores, as pedras, os rios...
Enrola tudo e joga fora!
Agradeço tua intenção,
mas já estou indo embora.

Não meu Deus, não!
Pode jogar fora sem receio.
Que valor tem tudo isso
se o meu amor não veio?