Do livro "O poeta e o pano"
Poema de açucar
(Para a Luja)
Do céu,
tudo no chão parece formiga.
Do chão,
tudo no céu parece estrela.
Ao teu lado,
tudo – no chão, no céu,
tudo parece estrela.
Somente as estrelas parecem formigas
(formigas
a roubar de ti pedacinhos de luz)...
De astros
(Para Luja)
Saí do teu quarto atônito, mudado.
Como se eu ou o velho mundo fosse outro.
Com a vida condensada num estado
entre sonhos e relâmpagos de ouro.
Senti-me envolto a uma áurea de gigante,
alheio a tudo que não fosse ente celeste.
Já não lembrava como a vida era antes,
se o silêncio foste tu que compuseste.
E se me perguntas para onde eu fui,
por quais caminhos rabisquei meu rastro
de felicidade e passos azuis,
eu mal me lembro dos nomes das ruas.
Só sei que saí de lá falando de astros
e com
um leve sotaque da lua.
Legado
(Para Luja)
Deito ao teu lado, amor, e penso
nos deuses que agora estão
confusos a respeito do tempo,
indagando-se sobre a criação.
Tudo conforme o planejado
até que nos deitamos a dois.
O Infinito não era nosso legado,
era surpresa para depois.
Fundimos a Anímica dos deuses
com a pobre Física dos homens.
Talvez reformulem os meses,
talvez não mais os somem.
Os deuses já aceitam a Eternidade
existir em um tempo e espaço,
só não entendem, é bem verdade,
como
ela coube em teu abraço.
Do livro Pá Virada:
Encontro
(Para Luja)
Guarda logo este sol!
Seca logo estes mares!
Esconde esta lua!
E o céu, de que me vale?
Desbota logo estas flores,
deixa tudo em preto e branco!
Recolhe todas as estrelas
e amontoa em qualquer canto!
As árvores, as pedras, os rios...
Enrola tudo e joga fora!
Agradeço tua intenção,
mas já estou indo embora.
Não meu Deus, não!
Pode jogar fora sem receio.
Que valor tem tudo isso
se o
meu amor não veio?
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