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terça-feira, 7 de agosto de 2012
Outras cozinhas (Gustavo Corção)
Pessoal, hoje faço uma visita à cozinha de Gustavo Corção, mais especificamente ao seu extraordinário livro "lições de abismo". Ponho à mesa três pequenos trechos que selecionei. A vontade que tenho é de compartilhar o livro todo, pois realmente é complicado selecionar três pedacinhos de uma prato tão saboroso. Que sirvam então de apetivos... Grande abraço!
"O homem-que-não-pensa vai ao cinema três vezes por semana. No celulóide ele encontra um pequenino empréstimo de grandeza: é heróico com o herói, amoroso com o apaixonado, magnânimo com o forte. Depois volta para casa, de braço dado com a sua morte. Por quê? Por quê? Por quê?"
"Espetáculos sem espectador. Imagina, ó minh’alma esse imenso teatro sem platéia, esse palco escuro, essa infinita beleza escondida. Imagina, em lugares ermos, as encostas dos montes pelas madrugadas, o concerto dos pássaros que as flores não ouvem, e o concerto dos pássaros que as flores não vêem; imagina a joalheria de orvalho que a noite enfia colares sem conta, e que o sol desfaz, sem que ninguém pelos vales diga à noite, ao pássaro, à flor: que beleza! obrigado! E o crescimento das plantas, da menor das folhas de grama, miniatura de gládio tenro, até as árvores poderosa que crescem em dois sentidos, movem-se em dois sentidos, dançando no ar o bailado leve das ninfas, e na terra úmida e obscura o tenebroso sabat das raízes coleantes – sem que ninguém diga à grama e ao cedro: que beleza! obrigado, grama! obrigado, cedro! E as estrelas, as rosas do céu, que também nascem, e crescem, e morrem, que também são várias e personalíssimas, desde a lívida até a rubra, e que lá nos confins se incendeiam, sem que ninguém assista, não digo à cintilação que nos cai como esquírola de luz, mas à totalidade excessiva desse incêndio excessivo, e sem ninguém que lhes diga, que lhes grite dentro mesmo da combustão: que beleza! obrigado, Betelgeuse! obrigado, Ríjel! obrigado, Belatriz!"
"Tu que gostas de levantar muros e traçar limites, ó coração do homem, vê se consegues achar ainda um diluído aconchego nesta galáxia que é tua, e que encerra cem bilhões de sóis. Vê se consegues pensar na bandeira deste rincão do universo."
terça-feira, 24 de julho de 2012
O ritmo das flores
Duas semanas em Ervália, longe do ritmo acelerado de Belo Horizonte, fez-me lembrar de como a vida pede lentidão, vagareza. Na realidade, acho que as coisas até andam bem aceleradas em Ervália, meu coração é que tem essa sede de calmaria toda vez que chega por aqui. E resolvi saciá-lo.
Antes que me interpretem mal, não estou por aí andando feito uma tartaruga. Não é isso. São meus olhos que estão mais lentos, minha alma que abriu mão da pressa. Talvez só em outro ritmo seja possível apreciar os detalhes, os pequenos e grandes “espetáculos sem espectadores” dos quais nos fala Gustavo Corção. “O ritmo da flor está fora do nosso ritmo”, escreveu esse grande espectador. Aliás, foi preciso um ritmo mais lento, mais brando, para que eu pudesse apreciar devidamente e degustar cada palavrinha do seu belíssimo livro “lições de abismo” e, em especial, a parte em que o autor nos conta sobre a sutil e lenta dança das suas rosas.
Mas mesmo com toda calma, com toda lentidão, sinto que ainda estou fora do ritmo. Meu coração ainda sente sede. A dança das flores ainda é mais lenta do que meus olhos... Tudo bem! Não vou me desesperar por isso, meu coração sobreviverá. Por enquanto contento-me em observar e aprender os passos de dança que Ana Clara, com toda pressa dos seus 4 aninhos, ensinou-me para sua festa junina. Por enquanto, matarei essa sede com risadas e quentão.
Antes que me interpretem mal, não estou por aí andando feito uma tartaruga. Não é isso. São meus olhos que estão mais lentos, minha alma que abriu mão da pressa. Talvez só em outro ritmo seja possível apreciar os detalhes, os pequenos e grandes “espetáculos sem espectadores” dos quais nos fala Gustavo Corção. “O ritmo da flor está fora do nosso ritmo”, escreveu esse grande espectador. Aliás, foi preciso um ritmo mais lento, mais brando, para que eu pudesse apreciar devidamente e degustar cada palavrinha do seu belíssimo livro “lições de abismo” e, em especial, a parte em que o autor nos conta sobre a sutil e lenta dança das suas rosas.
Mas mesmo com toda calma, com toda lentidão, sinto que ainda estou fora do ritmo. Meu coração ainda sente sede. A dança das flores ainda é mais lenta do que meus olhos... Tudo bem! Não vou me desesperar por isso, meu coração sobreviverá. Por enquanto contento-me em observar e aprender os passos de dança que Ana Clara, com toda pressa dos seus 4 aninhos, ensinou-me para sua festa junina. Por enquanto, matarei essa sede com risadas e quentão.
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