quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Espelho, espelho meu...

Alguns livros, alguns poemas, se pararmos para analisar, revelam os segredos mais íntimos do autor. Seus medos, suas paixões, seus anseios... o papel reflete a alma de quem escreve. E diferentemente do espelho, o papel não reflete somente feixes de luz, ele gosta de refletir também feixes de escuridão, de mistérios, de segredos. Assim, qualquer um que se proponha a encarar um pedaço de papel acaba descobrindo partes de si que nem conhecia ou que não gosta de ver. Reflexos de si estranhos a si mesmo.
Para muitos, é difícil encarar esse espelho que embaraça criador e criatura, que confunde o autor com sua obra, ou até mesmo o leitor e a obra. Às vezes tudo se mistura: autor, obra, leitor. E não é raro esses espelhos se tornarem temidos. Em um de seus ensaios literários, Thomas Mann conta como Goethe temia seu próprio livro, “O sofrimento do jovem Werther”. Em sua velhice, Goethe confessa que só releu tal livro, escrito em sua juventude, uma única vez e evitava ler outras vezes. O autor justificava: “tenho uma sensação estranha, e tenho medo de recair no estado patológico que o fez nascer”.
Não quero entrar aqui na discussão de quais estados seriam sadios e quais seriam patológicos, gostaria apenas de concluir dizendo que somos, em parte, um mistério a ser desvendado. Somos um mistério a ser lido.
Peço licença para citar uns versinhos que escrevi há tempos atrás:

Não conhecerás tua verdadeira
imagem olhando-te no espelho.
A luz que te amolda
não conhece tuas sombras.
És, em parte, mistério...

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