Nesses tempos onde a cada dia somos “surpreendidos” por uma nova notícia de corrupção, um novo caso de total imoralidade e ausência de ética na política brasileira, recordei de um cordel que tenho aqui comigo, escrito em 1987 por Gonçalo Ferreira da Silva, e que gostaria de compartilhar em nossa mesa:
CARTA DE TANCREDO NEVES AOS CONSTITUINTES
(Gonçalo Ferreira da Silva)
Tancredo de Almeida Neves
no colégio eleitoral
venceu com facilidade
seu deslavado rival
mas morreu sem ostentar
a faixa presidencial.
Há línguas envenenadas
que dizem até hoje em dia
que a vice-presidência
Sarney quis porque sabia
que o velho das alterosas
brevemente morreria.
De fato foi tiro e queda,
o velhinho sucumbiu
depois de agonia suprema
que o povo também sentiu;
e Sarney como mandava
o figurino assumiu.
Muitas coisas, por Tancredo
já estavam programadas,
outras foram, pelo próprio
José Sarney inventadas
que se Tancredo vivesse
jamais seriam aprovadas.
Sem que Sarney percebesse
Tancredo ficou atento
no aconchego celeste
vendo todo movimento:
a criação do cruzado
que trouxe o congelamento.
E o descongelamento
matando o plano cruzado,
o longo tempo de inércia
que Sarney acomodado
queria, pelo bigode
ser do governo arrancado.
Tancredo dava muxoxos
de pura indignação,
mas estando entre os eleitos
na celestial mansão
veria o trabalho da
nova constituição.
O resto de paciência
que ainda tinha Tancredo
se colocasse num copo
talvez que não desse um dedo
com tanta burrice junta
ele esgotou logo cedo.
Fortuna gasta em papel
para inoperante estudo
que resulta num trabalho
de tão fraco conteúdo
que eles mesmos se mancam
depois vão repetir tudo.
Centenas de homens in-
pecavelmente vestidos
submetendo uns aos outros
rascunhos tão repetidos
que nos matam de vergonha
no momento em que são lidos.
Mas não entrando no cerne
do problema da Nação
não adianta mudança
de forma ou de redação
para consolidação
desta constituição.
Diante da lentidão
da nova constituinte
Tancredo aos constituintes
se fez de contribuinte
mandando-lhes uma carta
com a redação seguinte:
(Continua...)
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