domingo, 10 de abril de 2011

Festa Brasileira (Completa)

Para nosso prato dominical, ponho à mesa a versão integral de "Festa Brasileira", que já havia sido servida no blog, mas em 4 partes. Grande abraço!

Chegou por aqui Cabral,
Por volta de mil e quinhentos,
Em três caravelas de pau,
Pau-Brasil era outros quinhentos.
Trazia consigo a coroa
Do primeiro João da Bahia.
Os daqui estavam na boa,
Eram só Josés e Marias.
Ainda não tinham Jesus
E sabe lá se tiveram!
Só conheceram a cruz
E os pecados dos que vieram.
O encontro foi cordial,
Abraço pra lá, laço pra cá.
“Bem-vindo, seu Portugal,
Faça o favor, queira entrar!”
Após muito ter navegado,
Cabral aceitou o convite:
“Meus marujos estão bem cansados,
E já que o senhor insiste!”
Foi todo mundo pra rede,
Dormir e comer mamão,
Mas os homens também tinham sede.
Tinham fome, sede e tesão.
E assim ficaram por dias,
Aos cuidados do anfitrião.
Como eram belas as Índias!
Pobre Vasco sem direção!

Mas deu-se um dia qualquer,
Que Cabral acordou arretado.
E erguendo sua colher,
Gritou p’rum sujeito pelado:
“Vai chamar logo o povo!
Vamos acabar com a preguiça!
Se Colombo brinca com ovo,
Nós rezamos uma missa!”
O padre veio apressado,
Com sua cruz e sua viola:
“Deixemos a missa de lado,
Um boa moda consola!”
A idéia de fato servira.
Todos ao redor da fogueira
Cantando e dançando catira,
Como um Fado à brasileira.
Outra vez se mordeu a maçã,
Como Adão fez no início.
Aos poucos esqueceram Tupã:
“Três vivas para Dionísio!”
Mas o belo luar de prata
Foi se tornando de ouro
E a moda que consolava,
Passou a arrancar o couro.
Tupã se escondeu na floresta,
Vendo sua família aos pedaços,
Esperando pelo fim da festa
Com alguns de seus filhos no braço.

Mas a festa se arrastou por anos,
Com muito mais convidados:
Holandeses, alemães, africanos...
Foliões de todos os lados.
Aí começou a mistura.
“Ninguém é de ninguém!”
Exceto os de pele escura.
Esses eram sempre de alguém.
Até Dom Pedro que mal chegara,
Também entrou no clima.
Subiu num pau-de-arara
E então bradou lá de cima:
“Portugal marcou meu horário,
Ameaçou me pôr de castigo.
Mas desta festa eu não saio,
Digam ao velho que fico!”
E vendo o povo empolgado,
Continuou o seu discurso
Num tom ainda mais alto,
Com um sotaque bem luso:
“Já me enjoei desse vinho!
Quero algo mais forte!
Ouça bem Portugal:
Caipirinha ou Morte!”

Então veio dona Isabel,
Numa ginga bem brasileira,
E assinou um papel
Para o povo dançar capoeira.
Formou-se uma grande roda
Para todo mundo dançar,
Mas uns queriam a moda:
“A viola não pode parar!”
Foi quando um sujeito alterado
Gritou, já com as pernas bambas:
“Aqui está tudo errado,
O negócio é fazer samba!”
E já com a cuíca na mão,
Mandou improvisar o batuque.
Era para ser no latão,
Mas saiu tapa, murro e chute.
E o Brasil foi se construindo
De viola, berimbau e cuíca.
E a festa sempre seguindo...
Se pára, não tem um que fica!

(Fim)

(... mas a festa continua)

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