quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Retalhos do Pano - II

Mais uns poeminhas do livro "O poeta e o pano"...

PREFÁCIO

(Para a Luja)

Vai passando o longo inverno enfim, pequena!
O frio cede ante ao frêmito do novo,
começa a vida a renovar as suas penas,
despe o mundo do seu vestido de corvo.

Eis que tudo reaprende a ordem inata!
Até meu corpo, acostumado a teu calor,
afasta-se, estica-se e então a ti reata!
Quer agora reaprender o teu frescor.

Mas não careço para alegrar, pequena,
dos espectros das margaridas, dos lírios,
das begônias, das rosas, das açucenas.

Já bem sei o grande jardim que nos espera.
Quando vi, amor, esses seus olhinhos lindos,
vi também um prefácio da primavera.


A MENINA E A FLOR

(Para Ana Clara e Júlia)

De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.


HINO DOS POETAS DO DESERTO

Maldigo esse fado sedutor e traiçoeiro!
Iludido eu canto a minha perdição.
Regastes de versos as minhas mãos,
mas peço, ó deuses, dai-me ouvido:
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Ao cantar o céu, não mais sou sincero.
Os hinos que canto colhi no deserto.
Não vi uma ninfa sem hienas por perto.
De que vale o mel sem o pão prometido?
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Cada vil miragem esculpi com esmero,
sem ver que os oásis eram de areia.
Eu vi seguir-me uma sombra alheia
com mãos amputadas e peito ferido.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Dai-me o castigo que tanto quero!
Tomai-me as palavras, a tinta, o canto!
Tornarei potável meu próprio pranto
e farei poemas juntando gemidos.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Só o amor, só amor faz sentido
a um poeta cansado de rimas,
de metrificar em vão sua sina.
Dai-me! Dai-me o que tanto quero!
Ou arrancarei as penas do Cupido
e matarei à flechada Homero!

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