Nossa cozinha está de volta após esse pequeno recesso! Durante esse curto período em que estive ausente, tive alguns “árduos afazeres”, mas reservei tempo para algumas saborosas leituras que não podem faltar no nosso dia-a-dia. Dentre elas, Dostoievski.
O príncipe Míchkin, de O Idiota, sem dúvida é um dos maiores personagens criados até hoje. Uma das intenções de Dostoievski ao escrever esse fabuloso livro era, como ele mesmo relatou, “retratar um homem perfeitamente belo”, um homem que fosse perfeitamente bom. Para tal façanha, o autor observou que precisaria de muita inspiração, constatando que, em toda história, o único homem que havia satisfeito esse ideal de “perfeitamente belo” foi Cristo (após um longo período na prisão, Dostoievski aderiu firmemente aos valores cristãos). No mundo literário, o personagem que mais se aproximava desse ideal era Dom Quixote, embora para o autor tal personagem parecia, em certas circunstâncias, demasiadamente cômico (Dostoievski estudou ainda personagens como o Sr. Pickwick de Dickens e Jean Valjean de Victor Hugo). E assim nasceu o príncipe Míchkin, uma mistura de Cristo com Dom Quixote.
Entretanto, mais do que características advindas dessa mistura, o humanista príncipe Míchkin era, em muitos momentos, uma representação do próprio autor. O príncipe era epilético assim como Dostoievski e carregava muitas das experiências que o escritor passou em vida. Talvez esse tenha sido um dos personagens mais autobiográficos do autor em questão.
Existe uma famosa frase latina que diz “primo vivere, deinde philosophare”, primeiro há de viver, depois há de filosofar. Assim também é usado na literatura: primeiro há de viver, depois há de escrever. Dostoievski fez isso brilhantemente. Sua vida está quase toda descrita em seus livros.
Por outro lado, ao escrever seus poemas, Sylvia Plath contrariou um pouco essa idéia. Ela propôs talvez uma idéia de que “primeiro há de morrer, depois há de escrever”. Pois é, caros amigos, Plath estava certo! Em muitas ocasiões, para escrever um bom romance, um bom poema, é preciso morrer algumas vezes...
“Morrer
é uma arte, como tudo mais.
Eu, por exemplo, morro excepcionalmente bem.
Morro para me sentir no inferno.
Morro para me sentir real.
Acho que se pode dizer que tenho um dom.”
(Sylvia Plath)
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