quarta-feira, 8 de junho de 2011

Brasileiros, até quando brasileiros? - Parte I

Gostaria de compartilhar aqui em nossa mesa um texto muito interessante que li há poucos dias. Não sei a data exata em que foi escrito, mas seu autor, Vivaldo Coaracy, viveu de 1882 a 1967. Sirvo-o aqui da maneira em que foi transcrito no livro "Literatura Brasileira", de Paulo de Azevedo & C., de 1930. O texto será servido em três partes.

Somos o unico povo do mundo (sempre fomos muito originaes!) que adopta por patronymico uma designação profissional. Em bom vernaculo, o sufixo "eiro" não é formador de gentilicos, mas designa o individuo que habitualmente exerce um officio. Ser brasileiro, é pois, como carpinteiro, ferreiro, boiadeiro ou cozinheiro. É um meio de vida. E está certo, em muitos casos, como já se verá.
Sabe-se a origem historica dessa anomalia. Nos tempos coloniaes, quem vinha trabalhar no Brasil, explorar a terra, era naturalmente um "brasileiro". Conserva Portugal esta tradição, assim designando os filhos da lusa terra que, aqui tendo feito fortuna, para lá regressam a gosal-a. É a accepção original. Não nos fazem esta injuria os outros povos. Todos elles indicam os naturaes do Brasil por um patronymico, regularmente formado de accordo com as regras de seu idioma. Nós, não. Não queremos nos designar por uma denominação que nos indique a pátria; apenas queremos ser os que della vivem. Somos "brasileiros".
Ora, isto, positivamente, não está certo. Essa generalisação é excessiva na sua amplitude. E tem inconvenientes muito graves. É um facto inconteste de psychologia que a palavra é o mais podereso elemento de suggestão conhecido. A repetição de um vocabulo é sufficiente para implantar profundamente no inconsciente do individuo a idéa que ella representa. É mesmo este um processo applicado por certos mysticos para criar determinadas attitudes mentaes. É o "mantran" dos theosophistas e dos yogis da India.
Vejamos, pois, o que succede a um pimpolho nascido neste paiz. Elle aprende a chamar os filhos da França, francezes. aos da Italia, italianos; aos da China, chins; aos da Turquia, turcos; aos da Polonia, polacos (agora se diz polonezes, por decencia). Para cada povo, aprende um gentilico apropriado. A si mesmo se designa como brasileiro, analogamente ao carroceiro, ao quintandeiro, ao padeiro. Instinctivamente, implanta-se em seu espirito a noção de que a sua qualidade de brasileiro é profissão. Inconscientemente, resolve-se a fazer como os outros, a adoptar esse meio de vida. E ahi temos no pirralho o germen de um politico, a semente de um futuro deputado!... Muita habilitação mais util é assim impedida de se manifestar.
Isso esta errado.
Em bom portuguez, "brasileiro" é o individuo que vive de explorar o Brasil. Reserve-se, pois, essa designação para aquella pequena minoria dos donos desta vasta colonia, para aquelles que fazem profissão habitual de explorar a terra e as gentes da mesma. Assim ficará certo.


Continua...

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