Entrei no estreito corredor do Purgatório.
Anjos cegos adornavam a balança.
De um lado, o ranger de mil demônios.
Do outro, o sorrir de uma criança.
Sobre todos, uma abóboda espelhada
refletindo nossas almas já desnudas.
Fui andando sob mil almas trincadas,
pisando em corpos que agora nada ocupa.
E vi minha alma divida em metades,
sendo pesada como um boi no matadouro.
Num prato, tinha o valor de mil quilates.
No outro, nem um só grama de ouro.
Ao longe, meu novo corpo-espantalho.
Era feito de nuvens e algodão.
No bojo, mil gotículas de orvalho
e a lembrança do pulsar de um coração.
O veredicto celeste não foi unânime,
mas enfim, minha alma absolvida.
Sob o protesto de mil seres pusilâmines,
novo corpo, velha alma, eterna vida!
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