quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Férias
Pessoal, como já é habitual nessa época do ano, nossa mesa estará de férias durante o mês de dezembro. Espero voltar em janeiro com novos pratos, temperos e sabores para servir aqui. Quero aproveitar também para, desde já, agradecer a todos os que passaram por aqui durante esse ano de 2012 e desejar a vocês um feliz Natal. Que venha 2013 com muito amor, paz e poesia para todos nós. Um grande abraço!
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Coração
Coração,
máquina de pulsar,
máquina de bater,
máquina de encher
e esvaziar.
Máquina de soprar,
máquina de cuspir,
máquina de fluir
e armazenar.
Máquina de fechar,
máquina de abrir,
máquina de servir...
Brinquedo de amar!
máquina de pulsar,
máquina de bater,
máquina de encher
e esvaziar.
Máquina de soprar,
máquina de cuspir,
máquina de fluir
e armazenar.
Máquina de fechar,
máquina de abrir,
máquina de servir...
Brinquedo de amar!
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Nota sobre o amanhecer
Ao amanhecer, o canto dos pássaros é tão importante quanto à luz do sol. Há em nós sentidos que só são despertados com o canto de um passarinho. É com ele que vamos abrindo nossos olhos líricos, esses mesmos que usamos para sonhar. E vamos despertando para um outro mundo, invisível, sobre o qual a noite nos deu algumas pistas. São os primeiros cantos matinais que vão iluminando cada pedacinho do que não existe.
Os que despertam apenas com a luz do sol continuam dormindo, continuam de olhos fechados para esse outro mundo. Porém, os que despertam não só com a luz do sol mas também com o cantar de um bem-te-vi, de um sabiá, acordam por completo, para este e tantos outros mundos, acordam para o visível e o invisível, para o que existe e o que não existe. Acordam para o dia e conseguem levar consigo um pedacinho da noite.
Obs: Vale lembrar que passarinho preso não canta, lamenta.
Os que despertam apenas com a luz do sol continuam dormindo, continuam de olhos fechados para esse outro mundo. Porém, os que despertam não só com a luz do sol mas também com o cantar de um bem-te-vi, de um sabiá, acordam por completo, para este e tantos outros mundos, acordam para o visível e o invisível, para o que existe e o que não existe. Acordam para o dia e conseguem levar consigo um pedacinho da noite.
Obs: Vale lembrar que passarinho preso não canta, lamenta.
domingo, 18 de novembro de 2012
Outras cozinhas (Emily, Ivo e Quintana)
(Emily Dickinson)
As manhãs estão mais suaves,
Mais sazonadas, as nozes;
Os mirtilos, mais carnudos,
E ausente se encontra a rosa.
O bordo ostenta um lenço mais alegre,
A campina, uma saia escarlate;
Para não estar fora de moda,
Vou tratar de me enfeitar.
Pão nosso (Ivo Barroso)
Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.
Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.
Ah, sim, a velha poesia... (Mario Quintana)
Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos
Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.
As manhãs estão mais suaves,
Mais sazonadas, as nozes;
Os mirtilos, mais carnudos,
E ausente se encontra a rosa.
O bordo ostenta um lenço mais alegre,
A campina, uma saia escarlate;
Para não estar fora de moda,
Vou tratar de me enfeitar.
Pão nosso (Ivo Barroso)
Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.
Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.
Ah, sim, a velha poesia... (Mario Quintana)
Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos
Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Deus e o mar
Uns versinhos antigos tirados do fundo do mar, quero dizer, do fundo da gaveta...
Deus sentiu tanto orgulho
quando enfim criou o mar
que quis dar seus mergulhos,
pensou logo em navegar.
Deus pôs-se a contar as ondas
e pôs-se a brincar na areia.
Quis colecionar conchas
e sonhou com belas sereias.
Queria reinventar tudo
sem pernas, sem asas, sem ar,
para que tudo, tudo, tudo
só pudesse nadar.
E Deus sentiu tanto orgulho
que começou a chorar
e decidiu que dos olhos
cairiam gotinhas do mar.
Deus sentiu tanto orgulho
quando enfim criou o mar
que quis dar seus mergulhos,
pensou logo em navegar.
Deus pôs-se a contar as ondas
e pôs-se a brincar na areia.
Quis colecionar conchas
e sonhou com belas sereias.
Queria reinventar tudo
sem pernas, sem asas, sem ar,
para que tudo, tudo, tudo
só pudesse nadar.
E Deus sentiu tanto orgulho
que começou a chorar
e decidiu que dos olhos
cairiam gotinhas do mar.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Carta aos arqueólogos e simpatizantes (repostagem)
Caros arqueólogos e simpatizantes,
parem com essa bobagem de procurar o “elo perdido”! Nunca perdemos o elo com os animais, com os primatas. Somos os mesmos homens de sempre (talvez mais eretos e menos emotivos). O que perdemos foi o elo com o outro mundo, com os sonhos, com as coisas que não existem. Estamos na “era do coração de pedra”.
Inventamos a roda, mas perdemos a direção. Inventamos a lâmpada, mas perdemos as estrelas. Inventamos o telefone, mas perdemos as palavras. Inventamos o avião, mas atropelamos os anjos... Aprendemos a contar, calcular, medir e criamos uma espécie de fita métrica para o céu, para nos certificarmos de que aquele pedaço de azul cabe em nosso poema em redondilha maior. Trocamos cinco palmos de poesia por dois dedos de prosa apressados. Sabemos exatamente quantos copos d’água nossa flor no vaso necessita, mas esquecemos qual a nossa dose diária de flores para sobreviver.
Experimentem um dia escavar livros! Não os seus próprios livros, mas esses livros rasos que algumas crianças guardam como tesouros. Nossa história não está numa ossada enterrada no barro, está manchada à tinta no papel. Nesses papéis de histórias inventadas. Nossos ancestrais são deuses, ninfas, Otelo, Pinóquio, Dorian Gray, Dom Quixote (esse último considero da família) etc. Talvez muitas pessoas duvidem, mas alguns de nossos ancestrais tinham asas. Porém, deu-se a evolução e as perdemos. Agora estamos a pouco de perder o siso.
Por isso, mais uma vez, peço encarecidamente que parem de procurar dinossauros, primatas, ossadas de qualquer espécie e vão todos procurar suas almas peludas!
parem com essa bobagem de procurar o “elo perdido”! Nunca perdemos o elo com os animais, com os primatas. Somos os mesmos homens de sempre (talvez mais eretos e menos emotivos). O que perdemos foi o elo com o outro mundo, com os sonhos, com as coisas que não existem. Estamos na “era do coração de pedra”.
Inventamos a roda, mas perdemos a direção. Inventamos a lâmpada, mas perdemos as estrelas. Inventamos o telefone, mas perdemos as palavras. Inventamos o avião, mas atropelamos os anjos... Aprendemos a contar, calcular, medir e criamos uma espécie de fita métrica para o céu, para nos certificarmos de que aquele pedaço de azul cabe em nosso poema em redondilha maior. Trocamos cinco palmos de poesia por dois dedos de prosa apressados. Sabemos exatamente quantos copos d’água nossa flor no vaso necessita, mas esquecemos qual a nossa dose diária de flores para sobreviver.
Experimentem um dia escavar livros! Não os seus próprios livros, mas esses livros rasos que algumas crianças guardam como tesouros. Nossa história não está numa ossada enterrada no barro, está manchada à tinta no papel. Nesses papéis de histórias inventadas. Nossos ancestrais são deuses, ninfas, Otelo, Pinóquio, Dorian Gray, Dom Quixote (esse último considero da família) etc. Talvez muitas pessoas duvidem, mas alguns de nossos ancestrais tinham asas. Porém, deu-se a evolução e as perdemos. Agora estamos a pouco de perder o siso.
Por isso, mais uma vez, peço encarecidamente que parem de procurar dinossauros, primatas, ossadas de qualquer espécie e vão todos procurar suas almas peludas!
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Outras cozinhas (Guimarães, Adelaide e Drummond)
O sono das águas (Guimarães Rosa)
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
Planta carnívora (Adelaide Petters Lessa)
(voz do diabo)
Aos desafetos serviu alume,
urtigas, urzes, cicuta, estrume.
Tem o desmanche de seu curtume
no inferno onde quem fez assume.
Nada se perca,
nada se esfume.
(voz de amigo)
Aos desafetos
serviu alume,
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
no limbo onde
quem fez assume.
Nada se perca,
tudo se arrume.
(voz de anjo)
Aos desafetos
serviu alume
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
na terra onde
quem fez assume
Nada se perca.
Tudo se emplume.
Memória (Carlos Drummond)
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
Planta carnívora (Adelaide Petters Lessa)
(voz do diabo)
Aos desafetos serviu alume,
urtigas, urzes, cicuta, estrume.
Tem o desmanche de seu curtume
no inferno onde quem fez assume.
Nada se perca,
nada se esfume.
(voz de amigo)
Aos desafetos
serviu alume,
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
no limbo onde
quem fez assume.
Nada se perca,
tudo se arrume.
(voz de anjo)
Aos desafetos
serviu alume
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
na terra onde
quem fez assume
Nada se perca.
Tudo se emplume.
Memória (Carlos Drummond)
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
A sombra de Algemiro
Conta-se que a sombra de Algemiro nunca envelheceu, conservou-se criança. Enquanto Algemiro crescia, ela continuou pequena, cheia de brincadeiras. Ele tornou-se um rapaz alto, robusto, sério. Aos vinte e três anos já era advogado. Andava pela rua sempre de terno, com passos firmes e apressados. A sombra, por sua vez, andava pulando listras, dando cambalhotas, ora correndo ora distraída com outras sombras e, às vezes, parecia estar nua.
Até se formar em direito, Algemiro nunca se incomodou com sua sombra infantil, mas depois que se formou, passou a se sentir desconfortável com aquilo. Preferia dias nublados. Em casa, evitava acender as luzes. Começou a sentir vergonha, raiva, medo de sua sombra.
À medida que ia envelhecendo, só aumentava em Algemiro o repúdio por sua sombra, chegando a ponto de ele viver no escuro e não mais sair de casa. Mesmo assim havia momentos em que, ao menor descuido, lá estava ela sempre sorridente e brincalhona, a sombra de Algemiro.
Quando completou sessenta e dois anos, Algemiro já beirava a loucura, pouco se diferenciava de um bicho solitário. E pressentindo que a morte se aproximava, resolveu dar uma última olhada em sua sombra, queria despedir de seu tormento. Mas quando acendeu a vela, tomou um grande susto: sua sombra envelhecera! Estava velha e curvada como ele, já não corria nem brincava, apenas acompanhava seus passos lentos e doídos.
Algemiro morreu naquela mesma noite. E há gente que conta que, em seu velório, sua sombra não estava junto ao corpo e que, no caminho para o cemitério, sob um sol ameno de fim de tarde, muitos viram um passarinho voando com duas sombras.
Até se formar em direito, Algemiro nunca se incomodou com sua sombra infantil, mas depois que se formou, passou a se sentir desconfortável com aquilo. Preferia dias nublados. Em casa, evitava acender as luzes. Começou a sentir vergonha, raiva, medo de sua sombra.
À medida que ia envelhecendo, só aumentava em Algemiro o repúdio por sua sombra, chegando a ponto de ele viver no escuro e não mais sair de casa. Mesmo assim havia momentos em que, ao menor descuido, lá estava ela sempre sorridente e brincalhona, a sombra de Algemiro.
Quando completou sessenta e dois anos, Algemiro já beirava a loucura, pouco se diferenciava de um bicho solitário. E pressentindo que a morte se aproximava, resolveu dar uma última olhada em sua sombra, queria despedir de seu tormento. Mas quando acendeu a vela, tomou um grande susto: sua sombra envelhecera! Estava velha e curvada como ele, já não corria nem brincava, apenas acompanhava seus passos lentos e doídos.
Algemiro morreu naquela mesma noite. E há gente que conta que, em seu velório, sua sombra não estava junto ao corpo e que, no caminho para o cemitério, sob um sol ameno de fim de tarde, muitos viram um passarinho voando com duas sombras.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
A brisa
A brisa vinha com cheiro de tinta. Algo fora pintado, colorido. Algo era novo em algum lugar. A casa ao lado, a faixa de pedestre, a linha do horizonte? Acho que a própria brisa. E ela vinha manchando de frescor tudo em seu caminho.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Outras cozinhas (O Corvo)
Hoje resolvi fazer uma visita à cozinha de Edgar Allan Poe para servir aqui sua obra-prima, o maravilhoso "O Corvo":
O Corvo (Tradução de Milton Amado)
Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
"É alguém - fiquei a murmurar - que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais."
Ah! Claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
e o fogo agônico animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já não tem mais.
A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a beber e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais."
Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora esperais;
mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta." Escancarei então a porta:
- escuridão, e nada mais.
Sondei a noite erma e tranqüila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia), e foi: "Lenora!"
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"
Depois, silêncio e nada mais.
Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
"É na janela" - penso então. - "Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais."
Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto
- é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto, e, sem notar sequer meu susto,
adeja e pousa sobre o busto - uma escultura de Minerva,
bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.
Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
"Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular" - então lhe digo -
"não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo,
qual é o teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!"
E o Corvo disse: "Nunca mais".
Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chame "Nunca mais".
Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: "Amigos... sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora".
E disse o Corvo: "Nunca mais".
Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
julgo: "É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
e a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
de seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: - o ritornelo
de "Nunca, nunca, nunca mais".
Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
e, mergulhando no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo
grasnava sempre: "Nunca mais".
Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cai suavemente,
já não repousa, ah!, nunca mais...
O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
"Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
"Profeta! - brado. - Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
EXISTE um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!"
E o Corvo disse: "Nunca mais".
"Profeta! exclamo. Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!"
E o corvo disse: "Nunca mais".
"Seja isso a nossa despedida! - ergo-me e grito, alma incendida. -
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixe- me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"
E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
não há de erguer-se, ai!, nunca mais!
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Poema de algodão
(Para André e Inácio)
Eu acreditava que as nuvens
Eram feitas de algodão
Carneiros de alvas penugens
Que traziam no bojo o trovão.
Eu acreditava que a lua
Era toda feita de queijo
E que os ratinhos na rua
Olhavam o céu com desejo.
Eu acreditava que um dia
Deitaria naquele algodão
E à noite eu comeria
Um pedaço da lua com pão.
Eu acreditava que as nuvens
Eram feitas de algodão
Carneiros de alvas penugens
Que traziam no bojo o trovão.
Eu acreditava que a lua
Era toda feita de queijo
E que os ratinhos na rua
Olhavam o céu com desejo.
Eu acreditava que um dia
Deitaria naquele algodão
E à noite eu comeria
Um pedaço da lua com pão.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Às margens plácidas...
Às margens plácidas do Ipiranga, gritou Dom Pedro: Independência ou morte! E fez-se o feriado. Mas quando ele gritou isso, ainda tinha muito trabalho pela frente, ainda não era feriado. Não pôde aproveitar nada. Prova disso é que Dom Pedro não ficou ali pescando. Eu ficaria! Mas acho que eu proclamaria a independência às margens do São Francisco ou do rio das Velhas.
Difícil encontrar uma melhor forma de passar um feriado do que pescando às margens calmas e belas de um rio como o Velho Chico. Ali, junto àquelas águas, a todo aquele verde, a todo aquele silêncio, ali sim sentimos a liberdade! A independência é proclamada a todo instante pelos pássaros, pelos seus cantos de vida! Dom “garça”, dom “inhambu”, dom “saracura”, dom “papagaio”, dom “tucano”...
Penso que Dom Pedro perdeu uma ótima oportunidade. Que Portugal levasse nosso ouro (parece-me até mais honesto do que ocorre hoje, com tudo indo para os cofres de alguns poucos que dizem “governarem” nosso país)! O importante era defender nossos dourados, nossos surubins, nossos mandis, etc... Mas também vai saber se Dom Pedro gostava, se ele tinha paciência para passar o dia pescando! Porque pescar exige paciência. Uma boa pescaria é feita de distraídas conversas, alguma bebida, lindas paisagens em volta e, na hora certa, o peixe! Duas situações impedem uma boa pescaria: a primeira é quando o pescador é impaciente. A segunda, quando o impaciente é o peixe.
Difícil encontrar uma melhor forma de passar um feriado do que pescando às margens calmas e belas de um rio como o Velho Chico. Ali, junto àquelas águas, a todo aquele verde, a todo aquele silêncio, ali sim sentimos a liberdade! A independência é proclamada a todo instante pelos pássaros, pelos seus cantos de vida! Dom “garça”, dom “inhambu”, dom “saracura”, dom “papagaio”, dom “tucano”...
Penso que Dom Pedro perdeu uma ótima oportunidade. Que Portugal levasse nosso ouro (parece-me até mais honesto do que ocorre hoje, com tudo indo para os cofres de alguns poucos que dizem “governarem” nosso país)! O importante era defender nossos dourados, nossos surubins, nossos mandis, etc... Mas também vai saber se Dom Pedro gostava, se ele tinha paciência para passar o dia pescando! Porque pescar exige paciência. Uma boa pescaria é feita de distraídas conversas, alguma bebida, lindas paisagens em volta e, na hora certa, o peixe! Duas situações impedem uma boa pescaria: a primeira é quando o pescador é impaciente. A segunda, quando o impaciente é o peixe.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Um dia um homem se feriu
Um dia um homem se feriu,
havia sofrido um corte.
E viu que o corte sangrava.
E viu que o corte fechava.
Um dia outro homem se feriu,
havia sofrido um corte.
E viu que o corte sangrava.
E viu que o corte fechava.
Um dia outro homem se feriu,
não sofreu nenhum corte.
E viu que ali não sangrava.
E viu que ali não fechava.
O primeiro homem morreu.
O segundo sobreviveu.
O terceiro sofreu, chorou, sonhou, cantou, viveu, enlouqueceu e morreu...
E como morreu bem com a sua ferida de amor!
havia sofrido um corte.
E viu que o corte sangrava.
E viu que o corte fechava.
Um dia outro homem se feriu,
havia sofrido um corte.
E viu que o corte sangrava.
E viu que o corte fechava.
Um dia outro homem se feriu,
não sofreu nenhum corte.
E viu que ali não sangrava.
E viu que ali não fechava.
O primeiro homem morreu.
O segundo sobreviveu.
O terceiro sofreu, chorou, sonhou, cantou, viveu, enlouqueceu e morreu...
E como morreu bem com a sua ferida de amor!
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Outra cozinhas (Muralha, Schmidt, Florbela)
Roteiro (Sidónio Muralha)
Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.
Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.
Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.
E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.
Vazio (Augusto Frederico Schmidt)
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.
Ambiciosa (Florbela Espanca)
Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar...
Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!
Minh'alma é como uma pedra funerária
Erguida na montanha solitária,
Interrogando a vibração dos céus!
O amor dum homem? - Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum Deus!...
Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.
Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.
Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.
E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.
Vazio (Augusto Frederico Schmidt)
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.
Ambiciosa (Florbela Espanca)
Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar...
Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!
Minh'alma é como uma pedra funerária
Erguida na montanha solitária,
Interrogando a vibração dos céus!
O amor dum homem? - Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum Deus!...
domingo, 26 de agosto de 2012
Mais pra lá do que pra cá (repostagem)
Há pouco tempo, uma amiga minha pediu para que eu escrevesse algo sobre a educação brasileira. Não é preciso conhecer muito para saber que a nossa educação vai mal das pernas. Acatei o pedido dela, mas de antemão já deixei avisado que a minha posição, de certa forma, seria em defesa da atual educação. Creio que minha amiga ficou um pouco desapontada.
Mas o que eu queria dizer a ela é que a educação brasileira é bem sucedida, objetiva, pelo menos ao que se propõe. Explico:
Há uma personagem de Vitor Hugo, do livro “Os trabalhadores do mar”, chamada Deruchette. Ela foi criada por Mess Lethierry, seu tio. Esse, por sua vez, educou a sobrinha dando-lhe ocupações elegantes como música, livros e um pouco de costura. Lethierry queria preservar suas mãos delicadas, sua ternura, sua áurea de menina, sem nunca privá-la da cultura, é claro. Como escreveu o próprio Vitor Hugo, o tio “educou-a mais para ser flor do que para ser mulher”. Ao ler o livro, pode-se dizer que Lethierry foi bem sucedido.
Na educação do Brasil, acontece algo semelhante. Como já disse, ela é até bem feita, eficiente. A diferença é que nós, o povo brasileiro, somos educados mais para pedra do que para homem.
Mas o que eu queria dizer a ela é que a educação brasileira é bem sucedida, objetiva, pelo menos ao que se propõe. Explico:
Há uma personagem de Vitor Hugo, do livro “Os trabalhadores do mar”, chamada Deruchette. Ela foi criada por Mess Lethierry, seu tio. Esse, por sua vez, educou a sobrinha dando-lhe ocupações elegantes como música, livros e um pouco de costura. Lethierry queria preservar suas mãos delicadas, sua ternura, sua áurea de menina, sem nunca privá-la da cultura, é claro. Como escreveu o próprio Vitor Hugo, o tio “educou-a mais para ser flor do que para ser mulher”. Ao ler o livro, pode-se dizer que Lethierry foi bem sucedido.
Na educação do Brasil, acontece algo semelhante. Como já disse, ela é até bem feita, eficiente. A diferença é que nós, o povo brasileiro, somos educados mais para pedra do que para homem.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Cebolão
Uma pena! Uma verdadeira lástima os vampiros serem intolerantes ao alho! Já não podem tomar um bom banho de sol e sofrem também dessa lamentável intolerância. A essa altura o amigo leitor já deve ter concluído que estou falando dos vampiros mais antigos, conservadores, como o Conde Drácula, não desses vampiros modernos que vão até a pizzarias.
Pois bem, digo que deve ser mesmo muito triste não poder provar dessa inigualável especiaria culinária. Não sei se essas pobres criaturas da noite toleram cebola, creio que não, o que é outra pena!
Felizes devem ser o Saci, o Curupira, os lobisomens, pois até onde eu sei, não compartilham do mesmo infortúnio de seus amigos vampiros e não têm nenhuma restrição alimentar. Comem de tudo!
Mas o Saci merecia! Não desejo mal a ninguém, mas o Saci bem que merecia ter uma intolerância como esta! E querem saber o motivo? Esse moleque não se contenta em poder comer de tudo, ele tem que fazer suas maldades, tem que desafinar as violas que encontra pelo caminho. Pois é, dizem que o Saci gosta de sair pela noite desafinando violas. E bem suspeito de que ele passou por aqui esses dias e desafinou a minha.
Sempre deixo minha viola com a afinação “cebolão”. Dizem que ela tem esse nome porque é a afinação em que, quando a viola é tocada, faz as mulheres chorarem como se estivessem descascando cebola. Desconfio que os roteiristas de telenovelas conhecem e estudam há muito essa afinação... Enfim, acho muito bonita a “cebolão” e afinarei novamente minha viola assim. Mas para ser sincero, não foi pela beleza que escolhi essa afinação, é que eu tinha a esperança de o Saci também ter uma certa intolerância, como os vampiros.
Pois bem, digo que deve ser mesmo muito triste não poder provar dessa inigualável especiaria culinária. Não sei se essas pobres criaturas da noite toleram cebola, creio que não, o que é outra pena!
Felizes devem ser o Saci, o Curupira, os lobisomens, pois até onde eu sei, não compartilham do mesmo infortúnio de seus amigos vampiros e não têm nenhuma restrição alimentar. Comem de tudo!
Mas o Saci merecia! Não desejo mal a ninguém, mas o Saci bem que merecia ter uma intolerância como esta! E querem saber o motivo? Esse moleque não se contenta em poder comer de tudo, ele tem que fazer suas maldades, tem que desafinar as violas que encontra pelo caminho. Pois é, dizem que o Saci gosta de sair pela noite desafinando violas. E bem suspeito de que ele passou por aqui esses dias e desafinou a minha.
Sempre deixo minha viola com a afinação “cebolão”. Dizem que ela tem esse nome porque é a afinação em que, quando a viola é tocada, faz as mulheres chorarem como se estivessem descascando cebola. Desconfio que os roteiristas de telenovelas conhecem e estudam há muito essa afinação... Enfim, acho muito bonita a “cebolão” e afinarei novamente minha viola assim. Mas para ser sincero, não foi pela beleza que escolhi essa afinação, é que eu tinha a esperança de o Saci também ter uma certa intolerância, como os vampiros.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Despertar
Eram cinco e meia da manhã e um pequeno aglomerado de senhoras já se formava em frente à entrada da igreja. Começavam a demonstrar sinais de impaciência. Por que seu Zé do Rosário ainda não havia aberto as portas da igrejinha? Será que se esquecera de que hoje era dia do “terço da aurora”? O frio estava de matar e nenhum sinal de seu Zé.
Cinco e quarenta. O aglomerado já contava agora com cerca de quinze senhoras e a irritação só aumentava. Mesmo do outro lado da praça era possível ouvir o pequeno coral de resmungos que, se não fosse pela falta de sincronia e algumas poucas exclamações de “porcaria!”, podia se supor que a reza estava sendo feita ali mesmo, do lado de fora da igreja.
Cinco e quarenta e cinco. Estava decidido, iriam reclamar com o padre Clemente. Era um absurdo a igreja fechada até àquela hora! E não era a primeira vez que seu Zé do Rosário se atrasava!
As geladas e enfurecidas senhoras esperaram dar cinco e cinquenta para se dirigirem à casa do padre. Já caminham naquela direção quando ouviram o conhecido rangido das portas da igreja se abrindo...
- Até que enfim, seu Zé! O senhor está muito atrasado! Isso é falta de compromisso!
- Ainda sim vou reclamar com o padre!
- Porcaria!
E ouvindo tantas reclamações, ainda sonolento, seu Zé do Rosário argumentou:
- Mas minhas senhoras, por que rezar tão cedo nesse frio? Nem Deus deve estar acordado uma hora dessas!
- Ô homem besta! Deus não dorme, seu Zé!
- Por isso mesmo! – retrucou o pobre homem – Por que rezar uma hora dessas? Deus vai estar acordado mais tarde também!
- Hoje é o “terço da aurora”! E além do mais, Deus ajuda quem cedo madruga!
A discussão se encerrou por ali mesmo. As (agora dezessete) senhoras iniciaram logo o terço, com um misto de alegria, frio, raiva e sono. As ave-marias eram como um mantra para o grupo, já no pai-nosso demoravam um pouco a sincronizar. Às seis e dezoito a oração se encerrou.
Seis e vinte. Um pequeno aglomerado de senhoras começou a se formar na porta da padaria. Por que o padeiro estava demorando tanto para abrir as portas? Será que se esquecera de preparar a massa do pão?...
- Porcaria!
Cinco e quarenta. O aglomerado já contava agora com cerca de quinze senhoras e a irritação só aumentava. Mesmo do outro lado da praça era possível ouvir o pequeno coral de resmungos que, se não fosse pela falta de sincronia e algumas poucas exclamações de “porcaria!”, podia se supor que a reza estava sendo feita ali mesmo, do lado de fora da igreja.
Cinco e quarenta e cinco. Estava decidido, iriam reclamar com o padre Clemente. Era um absurdo a igreja fechada até àquela hora! E não era a primeira vez que seu Zé do Rosário se atrasava!
As geladas e enfurecidas senhoras esperaram dar cinco e cinquenta para se dirigirem à casa do padre. Já caminham naquela direção quando ouviram o conhecido rangido das portas da igreja se abrindo...
- Até que enfim, seu Zé! O senhor está muito atrasado! Isso é falta de compromisso!
- Ainda sim vou reclamar com o padre!
- Porcaria!
E ouvindo tantas reclamações, ainda sonolento, seu Zé do Rosário argumentou:
- Mas minhas senhoras, por que rezar tão cedo nesse frio? Nem Deus deve estar acordado uma hora dessas!
- Ô homem besta! Deus não dorme, seu Zé!
- Por isso mesmo! – retrucou o pobre homem – Por que rezar uma hora dessas? Deus vai estar acordado mais tarde também!
- Hoje é o “terço da aurora”! E além do mais, Deus ajuda quem cedo madruga!
A discussão se encerrou por ali mesmo. As (agora dezessete) senhoras iniciaram logo o terço, com um misto de alegria, frio, raiva e sono. As ave-marias eram como um mantra para o grupo, já no pai-nosso demoravam um pouco a sincronizar. Às seis e dezoito a oração se encerrou.
Seis e vinte. Um pequeno aglomerado de senhoras começou a se formar na porta da padaria. Por que o padeiro estava demorando tanto para abrir as portas? Será que se esquecera de preparar a massa do pão?...
- Porcaria!
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Outras cozinhas (Gustavo Corção)
Pessoal, hoje faço uma visita à cozinha de Gustavo Corção, mais especificamente ao seu extraordinário livro "lições de abismo". Ponho à mesa três pequenos trechos que selecionei. A vontade que tenho é de compartilhar o livro todo, pois realmente é complicado selecionar três pedacinhos de uma prato tão saboroso. Que sirvam então de apetivos... Grande abraço!
"O homem-que-não-pensa vai ao cinema três vezes por semana. No celulóide ele encontra um pequenino empréstimo de grandeza: é heróico com o herói, amoroso com o apaixonado, magnânimo com o forte. Depois volta para casa, de braço dado com a sua morte. Por quê? Por quê? Por quê?"
"Espetáculos sem espectador. Imagina, ó minh’alma esse imenso teatro sem platéia, esse palco escuro, essa infinita beleza escondida. Imagina, em lugares ermos, as encostas dos montes pelas madrugadas, o concerto dos pássaros que as flores não ouvem, e o concerto dos pássaros que as flores não vêem; imagina a joalheria de orvalho que a noite enfia colares sem conta, e que o sol desfaz, sem que ninguém pelos vales diga à noite, ao pássaro, à flor: que beleza! obrigado! E o crescimento das plantas, da menor das folhas de grama, miniatura de gládio tenro, até as árvores poderosa que crescem em dois sentidos, movem-se em dois sentidos, dançando no ar o bailado leve das ninfas, e na terra úmida e obscura o tenebroso sabat das raízes coleantes – sem que ninguém diga à grama e ao cedro: que beleza! obrigado, grama! obrigado, cedro! E as estrelas, as rosas do céu, que também nascem, e crescem, e morrem, que também são várias e personalíssimas, desde a lívida até a rubra, e que lá nos confins se incendeiam, sem que ninguém assista, não digo à cintilação que nos cai como esquírola de luz, mas à totalidade excessiva desse incêndio excessivo, e sem ninguém que lhes diga, que lhes grite dentro mesmo da combustão: que beleza! obrigado, Betelgeuse! obrigado, Ríjel! obrigado, Belatriz!"
"Tu que gostas de levantar muros e traçar limites, ó coração do homem, vê se consegues achar ainda um diluído aconchego nesta galáxia que é tua, e que encerra cem bilhões de sóis. Vê se consegues pensar na bandeira deste rincão do universo."
terça-feira, 31 de julho de 2012
Só de vista
Nunca fui para a guerra.
Sempre andei pela rua como quem espera chuva.
Já me deparei com o diabo algumas vezes.
Um porre! Não temos assunto.
Não tenho muitos conhecidos.
Conheço Deus só de vista.
Tem gente que não acredita em Deus
ou acha Ele um pouco antissocial.
Pois é como falei para o diabo outro dia:
Essa gente não dá nem “bom dia”
e depois quer ter intimidade!
Sempre andei pela rua como quem espera chuva.
Já me deparei com o diabo algumas vezes.
Um porre! Não temos assunto.
Não tenho muitos conhecidos.
Conheço Deus só de vista.
Tem gente que não acredita em Deus
ou acha Ele um pouco antissocial.
Pois é como falei para o diabo outro dia:
Essa gente não dá nem “bom dia”
e depois quer ter intimidade!
terça-feira, 24 de julho de 2012
O ritmo das flores
Duas semanas em Ervália, longe do ritmo acelerado de Belo Horizonte, fez-me lembrar de como a vida pede lentidão, vagareza. Na realidade, acho que as coisas até andam bem aceleradas em Ervália, meu coração é que tem essa sede de calmaria toda vez que chega por aqui. E resolvi saciá-lo.
Antes que me interpretem mal, não estou por aí andando feito uma tartaruga. Não é isso. São meus olhos que estão mais lentos, minha alma que abriu mão da pressa. Talvez só em outro ritmo seja possível apreciar os detalhes, os pequenos e grandes “espetáculos sem espectadores” dos quais nos fala Gustavo Corção. “O ritmo da flor está fora do nosso ritmo”, escreveu esse grande espectador. Aliás, foi preciso um ritmo mais lento, mais brando, para que eu pudesse apreciar devidamente e degustar cada palavrinha do seu belíssimo livro “lições de abismo” e, em especial, a parte em que o autor nos conta sobre a sutil e lenta dança das suas rosas.
Mas mesmo com toda calma, com toda lentidão, sinto que ainda estou fora do ritmo. Meu coração ainda sente sede. A dança das flores ainda é mais lenta do que meus olhos... Tudo bem! Não vou me desesperar por isso, meu coração sobreviverá. Por enquanto contento-me em observar e aprender os passos de dança que Ana Clara, com toda pressa dos seus 4 aninhos, ensinou-me para sua festa junina. Por enquanto, matarei essa sede com risadas e quentão.
Antes que me interpretem mal, não estou por aí andando feito uma tartaruga. Não é isso. São meus olhos que estão mais lentos, minha alma que abriu mão da pressa. Talvez só em outro ritmo seja possível apreciar os detalhes, os pequenos e grandes “espetáculos sem espectadores” dos quais nos fala Gustavo Corção. “O ritmo da flor está fora do nosso ritmo”, escreveu esse grande espectador. Aliás, foi preciso um ritmo mais lento, mais brando, para que eu pudesse apreciar devidamente e degustar cada palavrinha do seu belíssimo livro “lições de abismo” e, em especial, a parte em que o autor nos conta sobre a sutil e lenta dança das suas rosas.
Mas mesmo com toda calma, com toda lentidão, sinto que ainda estou fora do ritmo. Meu coração ainda sente sede. A dança das flores ainda é mais lenta do que meus olhos... Tudo bem! Não vou me desesperar por isso, meu coração sobreviverá. Por enquanto contento-me em observar e aprender os passos de dança que Ana Clara, com toda pressa dos seus 4 aninhos, ensinou-me para sua festa junina. Por enquanto, matarei essa sede com risadas e quentão.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Outras cozinhas (Florbela, Adélia e Cecília)
Vaidade (Florbela Espanca)
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
Ensinamento (Adélia Prado)
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Conveniência (Cecília Meireles)
Convém que o sonho tenha margem de nuvens rápidas
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio.
Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais...
E por esse motivo aqui vou, como os papéis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente...
Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo.
E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva...)
E eu pensarei:"Que bom! nem é preciso respirar!..."
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
Ensinamento (Adélia Prado)
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Conveniência (Cecília Meireles)
Convém que o sonho tenha margem de nuvens rápidas
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio.
Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais...
E por esse motivo aqui vou, como os papéis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente...
Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo.
E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva...)
E eu pensarei:"Que bom! nem é preciso respirar!..."
terça-feira, 10 de julho de 2012
Versos soltos
...............
(Para Luja)
Essa doçura que seus olhos defendem
como incansáveis sentinelas de mel...
Tenho a impressão de que quando se fecham,
fecham-se também os portões do céu.
(Para Luja)
Essa doçura que seus olhos defendem
como incansáveis sentinelas de mel...
Tenho a impressão de que quando se fecham,
fecham-se também os portões do céu.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Na mesa do bar
Este é o primeiro texto que escrevo sentado na mesa de um bar. Na verdade não estou escrevendo o texto, só anotando algumas observações para depois serem devidamente trabalhadas. Sinto-me como um membro do Clube Pickwick, com meu caderninho de anotações.
Henrique de Campos, ao escrever um prefácio para um livro de contos de Tchecov, diz que um dos motivos que fez desse contista um dos maiores escritores russos foi o fato de o mesmo ser médico. Segundo Henrique, um médico tem em seu trabalho contato com milhares de histórias, a história de vida de cada paciente, de cada pessoa que ele se propõe a atender e a escutar. A prática da medicina seria assim um campo fértil para literatura. Concordo, mas sou obrigado a acrescentar que a mesa de um bar é tão fértil quanto a mesa de um consultório, no que diz respeito a histórias de vidas.
Não faz uma hora que estou no bar e já pude ouvir algumas histórias bem interessantes das pessoas que estão a minha volta (confesso que pareço aqui um pouco intrometido). São histórias do cotidiano dessas pessoas, do dia-a-dia, histórias comuns, mas que bem contadas, dariam belos livros e profundas reflexões. Tchecov era mestre nisso. Seus contos são, em geral, situações corriqueiras de sua época, recortes da vida cotidiana. E poucos souberam fazer isso tão bem como Tchecov. Como o próprio Henrique ressalta, seus contos terminam quase sempre em reticências, não têm um final “impactante”, um desfecho certo. Seus personagens são pessoas comuns da sociedade russa da época. A maioria dos contos desse grande literato russo é um “flagrante da existência”, um mergulho no rio da vida que está sempre a correr.
Logicamente é preciso passar essas observações corriqueiras, esses casos do dia-a-dia, pelo filtro da arte. A mera descrição, sem qualquer enfeite, sem qualquer poesia, não seria muito atrativa para se ler. É preciso cozinhar devidamente as palavras. Tchecov era extremamente preocupado com esse preparo de seus contos. Preocupava-se com a musicalidade, o ritmo das frases. Um bom autor sabe que é necessário enfeitar suas narrativas, inclusive com coisas que não existem. Transformar o cru em algo comestível e agradável.
Sugiro para o leitor que queria prolongar essa nossa prosa, que leia os contos de Tchecov, em particular “O beijo”. É impressionante como o autor consegue transformar o que seria “um simples beijo” em algo tão intrigante, em um conto tão atrativo e repleto de sonhos e reflexões... E quanto às minhas observações de bar, já tenho o bastante. Vou agora para casa tentar torná-las comestíveis... Garçom, por favor, um conto! Digo, a conta!
domingo, 1 de julho de 2012
Com outros olhos...
Aproveitando a tarde de domingo para reler alguns rabiscos antigos, encontrei um texto que escrevi faz tempo. Na época não dei a ele muita importância, ficou esquecido, mas hoje o li com outros olhos (caramujos, peixes, cegos). Compartilho esse velho novo texto agora com vocês:
Quando fores contemplar a beleza de quem amas...
Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla lentamente. Passeia sobre ela com teus olhos-caramujos, passando por cada detalhe daquela imensidão e deixando sempre um rastro para que teus sonhos e lembranças não percam o caminho.
Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla fundo. Mergulha com teus olhos-peixes no raso e no fundo, sabendo que ali há mais tesouros e mistérios do que os olhos podem encontrar.
Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla tudo. Mira a beleza com teus olhos-cegos e a toque não só com tuas mãos, mas com cada pedacinho de teu ser que puder aparar uma gotícula de alma.
E por fim, não passeia, não mergulha, não mira. Vive ali! Planta ali teus olhos como duas sementes, como duas mudas de esperança. E não tenhas dúvida, o olhos que germinam na beleza de um amor trazem consigo cores que a primavera ainda desconhece.
Quando fores contemplar a beleza de quem amas...
Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla lentamente. Passeia sobre ela com teus olhos-caramujos, passando por cada detalhe daquela imensidão e deixando sempre um rastro para que teus sonhos e lembranças não percam o caminho.
Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla fundo. Mergulha com teus olhos-peixes no raso e no fundo, sabendo que ali há mais tesouros e mistérios do que os olhos podem encontrar.
Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla tudo. Mira a beleza com teus olhos-cegos e a toque não só com tuas mãos, mas com cada pedacinho de teu ser que puder aparar uma gotícula de alma.
E por fim, não passeia, não mergulha, não mira. Vive ali! Planta ali teus olhos como duas sementes, como duas mudas de esperança. E não tenhas dúvida, o olhos que germinam na beleza de um amor trazem consigo cores que a primavera ainda desconhece.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Outras cozinhas (Henriqueta, Machado e Adelaide)
Calendário (Henriqueta Lisboa)
Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias
Círculo vicioso (Machado de Assis)
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"...
Mas a lua, fitando o sol com azedume:
"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...
Evolução (Adelaide Petters Lessa)
Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.
Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.
Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias
Círculo vicioso (Machado de Assis)
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"...
Mas a lua, fitando o sol com azedume:
"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...
Evolução (Adelaide Petters Lessa)
Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.
Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Eu poderia...
quarta-feira, 13 de junho de 2012
O que (não) dizem os astros
Quem visita Belo Horizonte não pode deixar de ir à Praça do Papa e apreciar a vista de lá. É sem dúvida uma das vistas mais bonitas que se pode ter da cidade (principalmente à noite, quando está toda iluminada). Pode-se dizer que a vista de lá é uma compensação aos moradores da capital por perderem as estrelas. Pois é fato que, não só na capital mineira como em outras grandes cidades, é bem difícil ver estrelas. As luzes da cidade atrapalham e o que se vê são apenas poucos pontinhos brilhantes no céu.
Quando eu morava em Ervália, numa casa na roça, era bem diferente. Lá era fácil ver estrelas. Constelações inteiras. Estrelas cadentes. Um céu verdadeiramente iluminado. Costumava pegar meu violão, uma cerveja e ir para varanda sentar-me acompanhado das estrelas. A lua também era companheira em certas ocasiões.
Tenho certeza de que o que acabei de relatar acima não é de forma alguma um gosto exclusivamente meu. Estou convicto de que muitos dos que leram ou estão a ler esse texto também compartilham desse gosto pelas estrelas, pela lua, pelos astros. Espero que estejam gostando também da leitura. Tem gente que gosta de misturar esses dois gostos, astros e leitura. Essa gente gosta de ler os astros. Gosta de ler seu destino neles. Mas, caros astrólogos, porque achar um destino nos astros? Os astros estão lá para nos falar do infinito e não do destino. Por que tentar achar um só caminho no infinito do universo? Desculpem-me os leitores (de astros), mas creio que as estrelas, a lua, os planetas não foram feitos para serem lidos. Talvez escutados, como Kepler há muito tentou fazer. Kepler, um dos maiores observadores de noites estreladas que já existiu, sonhava um dia escutar a canção tocada pelos astros. Mas não era uma canção que falasse de destino, era a canção sobre o infinito, o universo, os sonhos.
Quando me sentava na varanda para ver estrelas eu não ficava procurando um destino, um caminho escrito, pelo contrário, eu gostava de me ver perdido naquela imensidão. Confesso que talvez tivesse sido melhor, em todas as vezes que fui à varanda, ter deixado de lado o violão e ter feito como Kepler, tentado ouvir a canção dos astros ao invés de fazer serenata para eles. Apesar de meu imenso gosto pela leitura, não misturo as coisas. Não leio estrelas. E pretendo continuar assim. Não quero um alfabeto para os meus sonhos. O único destino escrito nos astros é o do infinito.
Pois bem, aos que visitarem Belo Horizonte, repito: vão à Praça do Papa ao anoitecer! Observem a cidade de lá! Mas não procurem por ruas, avenidas, rodovias... Apenas observem e se percam! Ah, sugiro o mesmo para os que forem observar estrelas.
Quando eu morava em Ervália, numa casa na roça, era bem diferente. Lá era fácil ver estrelas. Constelações inteiras. Estrelas cadentes. Um céu verdadeiramente iluminado. Costumava pegar meu violão, uma cerveja e ir para varanda sentar-me acompanhado das estrelas. A lua também era companheira em certas ocasiões.
Tenho certeza de que o que acabei de relatar acima não é de forma alguma um gosto exclusivamente meu. Estou convicto de que muitos dos que leram ou estão a ler esse texto também compartilham desse gosto pelas estrelas, pela lua, pelos astros. Espero que estejam gostando também da leitura. Tem gente que gosta de misturar esses dois gostos, astros e leitura. Essa gente gosta de ler os astros. Gosta de ler seu destino neles. Mas, caros astrólogos, porque achar um destino nos astros? Os astros estão lá para nos falar do infinito e não do destino. Por que tentar achar um só caminho no infinito do universo? Desculpem-me os leitores (de astros), mas creio que as estrelas, a lua, os planetas não foram feitos para serem lidos. Talvez escutados, como Kepler há muito tentou fazer. Kepler, um dos maiores observadores de noites estreladas que já existiu, sonhava um dia escutar a canção tocada pelos astros. Mas não era uma canção que falasse de destino, era a canção sobre o infinito, o universo, os sonhos.
Quando me sentava na varanda para ver estrelas eu não ficava procurando um destino, um caminho escrito, pelo contrário, eu gostava de me ver perdido naquela imensidão. Confesso que talvez tivesse sido melhor, em todas as vezes que fui à varanda, ter deixado de lado o violão e ter feito como Kepler, tentado ouvir a canção dos astros ao invés de fazer serenata para eles. Apesar de meu imenso gosto pela leitura, não misturo as coisas. Não leio estrelas. E pretendo continuar assim. Não quero um alfabeto para os meus sonhos. O único destino escrito nos astros é o do infinito.
Pois bem, aos que visitarem Belo Horizonte, repito: vão à Praça do Papa ao anoitecer! Observem a cidade de lá! Mas não procurem por ruas, avenidas, rodovias... Apenas observem e se percam! Ah, sugiro o mesmo para os que forem observar estrelas.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Outra cozinhas (Cecília, Neruda e Manuel)
Leveza (Cecília Meireles)
Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
Se cada dia cai (Pablo Neruda)
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Velha chácara (Manuel Bandeira)
A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos…)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…
- Mas o menino ainda existe.
Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
Se cada dia cai (Pablo Neruda)
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Velha chácara (Manuel Bandeira)
A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos…)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…
- Mas o menino ainda existe.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Era uma vez... (aniversário do blog!)
Pessoal, exatamente hoje, 1º de junho, o Sobra ou Sobremesa? está completando 2 anos (como passou rápido)! Parabéns e obrigado a todos que têm incentivado, visitado e divulgado o blog! Espero que nossa cozinha continue a todo vapor, colocando à mesa pratos e mais pratos por muitos e muitos anos! Que venham mais 1, 2, 3 anos...! Pois era uma vez um blog...
Que passe o tempo! Que passe!
Um ano, dois ou três...
Meu tempo sempre renasce
No tempo do “Era uma vez...”
Grande abraço!
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Para se ler à luz de velas
Há pouco passou a procissão. Logo atrás, a banda. Não havia muita gente na procissão, mas a banda estava bem animada. Por onde seguiram eu não vi, sei apenas que desceram a rua e aos poucos a música foi diminuindo, diminuindo até que não pude mais ouvi-la. Ficou o silêncio...
Esse silêncio trouxe consigo um rio de lembranças de quando eu também costumava acompanhar as procissões. Eu devia ter lá meus 6 ou 7 anos e não perdia uma. Gostava de ouvir a banda, mas o que eu gostava mesmo era das velas que carregávamos. A tia Adail sempre pegava e acendia uma vela para mim e outra para ela. Enquanto a vela estivesse acessa, eu poderia caminhar pelo mundo inteiro. A sua chama fascinava.
Nunca perdi esse fascínio pela chama da vela. Mas muito antes de eu me dar por gente, existiu um homem que também era fascinado por essa chama: Gaston Bachelard. Ele, porém, foi bem mais longe do que eu. Bachelard escreveu um livro sobre o assunto, dedicou-se a “descrever” esse poder que a chama da vela tem de nos fazer sonhar, de alimentar nossas fantasias. O livro não poderia ter outro nome: “A chama de uma vela”.
Eu jamais deixei de sonhar diante da chama de uma vela. Nas procissões ou em casa, quando a luz vai embora, sempre alimentei meus sonhos ali, naquela pequena luz. A alma de quem sonha vive à meia-luz, vive à luz de velas. Nas palavras de Bachelard, “parece que existe em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante.” É por esses cantos que minha alma passeia.
... A procissão e a banda já estão voltando. O silêncio está partindo. As velas já estão se apagando. Lá se vão minhas lembranças. De certa forma também tomei a procissão, mas tomei um rumo para outro mundo. O mundo das minhas lembranças, das minhas fantasias, da saudade. “A chama é um mundo para o homem só.” (Bachelard)
Aniversário
O “Sobra ou Sobremesa”, nesta semana, mais precisamente no dia 1 de junho, estará completando dois anos de existência. Agradeço a todos que têm visitado nossa cozinha e experimentado os mais diversos pratos servidos aqui. Espero continuar cozinhando e servindo em nossa mesa por muitos e muitos anos. Quanto às velinhas do bolo, o leitor bem entenderá se eu me recusar a soprá-las. Que a chama da vela continue acessa para todos nós!
terça-feira, 22 de maio de 2012
Incêndio
"Palavras poéticas tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria." (Manoel de Barros)
Sendo assim, resolvi brincar um pouco com as palavras. Mas brinquei com as palavras como quem brinca com fogo. Deu nisso:
Incêndio
Fogo!
Foge! Foge! Foge!
Fogo! Foge! Foge!
Fogo! Fogo! Foge!
Fogo! Fogo! Fogo!
Fugiu! (Ufa...)
Sendo assim, resolvi brincar um pouco com as palavras. Mas brinquei com as palavras como quem brinca com fogo. Deu nisso:
Incêndio
Fogo!
Foge! Foge! Foge!
Fogo! Foge! Foge!
Fogo! Fogo! Foge!
Fogo! Fogo! Fogo!
Fugiu! (Ufa...)
terça-feira, 15 de maio de 2012
Outras cozinhas (Rimbaud)
Hoje faço uma visita na cozinha de Rimbaud. Todos os três pratos servidos aqui foram traduzidos por Ivo Barroso.
BAILE DOS ENFORCADOS
Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.
Compadre Belzebu puxa pela gravata
Seus fantoches que aos céus fazem negra careta,
E açoitando-os na cara a golpes de sapata,
Fá-los dançar ao som de velhas cançonetas!
Enlaçam-se na dança os braços e as canelas,
Órgãos negros ao vento, os seus furos expondo,
Esses peitos que outrora abraçaram donzelas
Se embatem lentamente em seu amor hediondo.
Já não gasta sandália o duro calcanhar!
A camisa de pele a maioria arranca;
O resto vê-se bem sem muito se acanhar.
Sobre as calvas, a neve aplica a touca branca;
Serve o corvo de pluma ao crânio a que se entrega;
De um magro queixo pende a carne nunca farta.
Dir-se-iam, a voltear em lúgubre refrega,
Campeões, hirtos, chocando armaduras de carta.
Hurra! o vento a assoviar no baile de esqueletos!
A negra forca muge – é um férreo órgão de uivos!
Lobos respondem, longe, em seus bosques de abetos
E o céu tem, no horizonte, a cor de infernos ruivos...
Vamos lá, balançai meus fúnebres farsantes
Que desfiam, fingindo, em dedos desconjuntos
Um rosário de amor nas vértebras hiantes:
Não estais num mosteiro, ó restos de defuntos!
Nessa dança macabra, eis que então, repentino,
Um esqueleto salta aos céus em alvoroço
Levado em seu afã, como um cavalo a pino;
E, sentindo inda a corda esticar-lhe o pescoço,
Crispa seus dedos sobre o fêmur que se solta
Com gritos que são mais chacotas e risadas,
E assim como o bufão que ao picadeiro volta,
Chocalha-se no baile ao canto das ossadas.
Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.
CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA
Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha.
Eu me disse: cessa
Que ninguém te veja,
E sem a promessa
De algum bem que seja,
A ti só aspiro,
Augusto retiro.
Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.
Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.
Ah! viuvez selvagem
Desta alma que chora
Tendo só a imagem
De Nossa Senhora!
Mas quem rezaria
À Virgem Maria?
Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha!
O ARMÁRIO
Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,
Muito antigo, adquiriu esse ar bom dos idosos;
E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,
Como um jorro de vinho, odores capitosos;
Repleto, é uma babel de velhas velharias,
Recendentes lençóis encardidos, fustões
De infante ou feminis, as rendas alvadias
E os xales das avós pintados de dragões;
- Em ti podem-se achar os medalhões, as mechas,
Os retratos, a flor ressequida que fechas,
Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.
- Ó armário de outrora, as histórias que exortas
E amarias contar, com teus roucos gemidos,
Quando se abrem de leve as tuas negras portas.
BAILE DOS ENFORCADOS
Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.
Compadre Belzebu puxa pela gravata
Seus fantoches que aos céus fazem negra careta,
E açoitando-os na cara a golpes de sapata,
Fá-los dançar ao som de velhas cançonetas!
Enlaçam-se na dança os braços e as canelas,
Órgãos negros ao vento, os seus furos expondo,
Esses peitos que outrora abraçaram donzelas
Se embatem lentamente em seu amor hediondo.
Já não gasta sandália o duro calcanhar!
A camisa de pele a maioria arranca;
O resto vê-se bem sem muito se acanhar.
Sobre as calvas, a neve aplica a touca branca;
Serve o corvo de pluma ao crânio a que se entrega;
De um magro queixo pende a carne nunca farta.
Dir-se-iam, a voltear em lúgubre refrega,
Campeões, hirtos, chocando armaduras de carta.
Hurra! o vento a assoviar no baile de esqueletos!
A negra forca muge – é um férreo órgão de uivos!
Lobos respondem, longe, em seus bosques de abetos
E o céu tem, no horizonte, a cor de infernos ruivos...
Vamos lá, balançai meus fúnebres farsantes
Que desfiam, fingindo, em dedos desconjuntos
Um rosário de amor nas vértebras hiantes:
Não estais num mosteiro, ó restos de defuntos!
Nessa dança macabra, eis que então, repentino,
Um esqueleto salta aos céus em alvoroço
Levado em seu afã, como um cavalo a pino;
E, sentindo inda a corda esticar-lhe o pescoço,
Crispa seus dedos sobre o fêmur que se solta
Com gritos que são mais chacotas e risadas,
E assim como o bufão que ao picadeiro volta,
Chocalha-se no baile ao canto das ossadas.
Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.
CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA
Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha.
Eu me disse: cessa
Que ninguém te veja,
E sem a promessa
De algum bem que seja,
A ti só aspiro,
Augusto retiro.
Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.
Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.
Ah! viuvez selvagem
Desta alma que chora
Tendo só a imagem
De Nossa Senhora!
Mas quem rezaria
À Virgem Maria?
Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha!
O ARMÁRIO
Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,
Muito antigo, adquiriu esse ar bom dos idosos;
E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,
Como um jorro de vinho, odores capitosos;
Repleto, é uma babel de velhas velharias,
Recendentes lençóis encardidos, fustões
De infante ou feminis, as rendas alvadias
E os xales das avós pintados de dragões;
- Em ti podem-se achar os medalhões, as mechas,
Os retratos, a flor ressequida que fechas,
Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.
- Ó armário de outrora, as histórias que exortas
E amarias contar, com teus roucos gemidos,
Quando se abrem de leve as tuas negras portas.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Distração
Era um desses velhinhos de praça, distraído jogador de Damas. Certo dia, confundiu as coisas: deu milho ao tombo e foi para o céu culpando os pombos.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Súplica
Não me conta da lua, do fundo, do inverno
e nem das cantigas das ondas,
do mar em seu choro eterno,
não me conta!
Não me conta nada sobre o infinito
nem me pergunta das horas.
Beija-me agora, eu suplico!
Sim! Agora!
Deixa em segredo minha solidão.
Que os vergéis só conheçam flores!
O céu, só estrelas! Meu coração,
só amores!
e nem das cantigas das ondas,
do mar em seu choro eterno,
não me conta!
Não me conta nada sobre o infinito
nem me pergunta das horas.
Beija-me agora, eu suplico!
Sim! Agora!
Deixa em segredo minha solidão.
Que os vergéis só conheçam flores!
O céu, só estrelas! Meu coração,
só amores!
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Livros
Pessoal, compartilho aqui com vocês mais uma vez os links para download dos meus livros. Os livros estão hospedados no 4shared. Há algum tempo o site começou a pedir que se faça um login para download, mas quem não tem conta no 4shared pode fazer o login com a conta do gmail ou facebook mesmo. Grande abraço e boa leitura!
Pá Virada
Monólogo de uma vida: a trágica rapsódia de uma platéia sem assento.
O poeta e o pano
Aproveito também para divulgar mais uma vez a campanha perca um livro. Para quem não conhece, acesse o site e dê uma olhada, vale muito a pena participar e levar essa idéia adiante.
Site:www.livr.us/
Pá Virada
Monólogo de uma vida: a trágica rapsódia de uma platéia sem assento.
O poeta e o pano
Aproveito também para divulgar mais uma vez a campanha perca um livro. Para quem não conhece, acesse o site e dê uma olhada, vale muito a pena participar e levar essa idéia adiante.
Site:www.livr.us/
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Outras cozinhas (Alphonsus, Laurindo e Cecília)
Ismália (Alphonsus de Guimaraens)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Conta e tempo (Laurindo Rabelo)
Deus pede estrita a conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas como dar, em tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não fiz conta.
Não quis sobrando tempo, fazer conta;
Quero hoje fazer conta e falta tempo.
Ó vós que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis êsse tempo em passa-tempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.
Mas oh! Se os que contam com seu tempo
Fizessem dêsse tempo alguma conta,
Não choravam como eu, o não ter tempo.
Murmúrio (Cecílcia Meireles)
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Conta e tempo (Laurindo Rabelo)
Deus pede estrita a conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas como dar, em tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não fiz conta.
Não quis sobrando tempo, fazer conta;
Quero hoje fazer conta e falta tempo.
Ó vós que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis êsse tempo em passa-tempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.
Mas oh! Se os que contam com seu tempo
Fizessem dêsse tempo alguma conta,
Não choravam como eu, o não ter tempo.
Murmúrio (Cecílcia Meireles)
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
terça-feira, 10 de abril de 2012
Tosse e poesia
Estive limpando e lendo alguns livros antigos de poesia que encontrei na casa de meu avô. Mas foi preciso parar, pois em pouco tempo eu já estava tossindo incessantemente. O cheiro, a poeira que vinha dos livros era quase insuportável e poderia me causar uma doença respiratória mais grave.
E nessa mistura de tosse e poesia, acabei lembrando-me de nossos inúmeros poetas que foram mortos pela tuberculose. Muitos deles, antes mesmo de completarem trinta anos. A lista é imensa: Álvarez de Azevedo (1831-1852), Castro Alves (1847-1871), Cruz e Souza (1864-1898), Augusto dos Anjos (1884-1914), e tantos outros.
Havia, em épocas passadas, quem acreditasse que a poesia era uma das causas da tuberculose, ou pelo menos, um de seus sintomas. Mas hoje os tempos são outros. Tuberculose e poesia tomaram caminhos diferentes. A tuberculose já tem tratamento e não mata mais em níveis tão alarmantes. Os nossos poetas estão vivendo mais. Quanto à poesia, ainda não tem tratamento, continua incurável e contagiosa. Eis aqui uma belíssima forma de contágio:
Ilusões da vida (Francisco Otaviano)
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.
E nessa mistura de tosse e poesia, acabei lembrando-me de nossos inúmeros poetas que foram mortos pela tuberculose. Muitos deles, antes mesmo de completarem trinta anos. A lista é imensa: Álvarez de Azevedo (1831-1852), Castro Alves (1847-1871), Cruz e Souza (1864-1898), Augusto dos Anjos (1884-1914), e tantos outros.
Havia, em épocas passadas, quem acreditasse que a poesia era uma das causas da tuberculose, ou pelo menos, um de seus sintomas. Mas hoje os tempos são outros. Tuberculose e poesia tomaram caminhos diferentes. A tuberculose já tem tratamento e não mata mais em níveis tão alarmantes. Os nossos poetas estão vivendo mais. Quanto à poesia, ainda não tem tratamento, continua incurável e contagiosa. Eis aqui uma belíssima forma de contágio:
Ilusões da vida (Francisco Otaviano)
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Quem ama sopra
Meu estômago está queimando. Não costumo sentir azias ou coisas do tipo, mas acho que essa queimação é consequência de uma pequena aventura pela culinária baiana.
O estômago é o órgão incendiário. Deixando de lado alguns pratos “arretados”, quem nunca sentiu o estômago queimar, arder por uma paixão? O fogo da paixão também arde no estômago. Por uma questão talvez poética, preferiu-se considerar o coração o órgão da paixão, símbolo dos apaixonados. Porém, quem realmente se inflama com uma boa paixão é o estômago. Mas vá lá, que considerem mesmo como símbolo o coração! Afinal, seria bastante estranho um casal apaixonado cravar numa árvore um estômago com seus nomes no meio.
Fato é que, tanto para acarajés ou para paixões, o estômago pede sopro. Cabe a nós distinguirmos a sutil diferença entre os sopros pedidos: o estômago que queima por azia pede um sopro que apague de vez o fogo. O estômago apaixonado pede um sopro mais brando, que deixe a brasa sempre acesa. Pede o sopro de quem ama. E eu afirmo aos estômagos apaixonados: o amor sabe soprar como um bom churrasqueiro...
O estômago é o órgão incendiário. Deixando de lado alguns pratos “arretados”, quem nunca sentiu o estômago queimar, arder por uma paixão? O fogo da paixão também arde no estômago. Por uma questão talvez poética, preferiu-se considerar o coração o órgão da paixão, símbolo dos apaixonados. Porém, quem realmente se inflama com uma boa paixão é o estômago. Mas vá lá, que considerem mesmo como símbolo o coração! Afinal, seria bastante estranho um casal apaixonado cravar numa árvore um estômago com seus nomes no meio.
Fato é que, tanto para acarajés ou para paixões, o estômago pede sopro. Cabe a nós distinguirmos a sutil diferença entre os sopros pedidos: o estômago que queima por azia pede um sopro que apague de vez o fogo. O estômago apaixonado pede um sopro mais brando, que deixe a brasa sempre acesa. Pede o sopro de quem ama. E eu afirmo aos estômagos apaixonados: o amor sabe soprar como um bom churrasqueiro...
sexta-feira, 2 de março de 2012
Outras cozinhas (sobre o mar)
O Homem e o Mar (Baudelaire - Tradução: Ivo Barroso)
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.
Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.
Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.
Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
Mar português (Fernando Pessoa)
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Cantigas Praianas: I- Ouves acaso quando entardece (Vicente de Carvalho)
Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?
Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas; choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão...
Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.
Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.
Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.
Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
Mar português (Fernando Pessoa)
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Cantigas Praianas: I- Ouves acaso quando entardece (Vicente de Carvalho)
Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?
Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas; choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão...
Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
O cinema dos anjos
No céu, os anjos são fascinados pela sétima arte. Adoram cinema e tudo que o envolve. Além dos já conhecidos anjos da guarda, há também os anjos roteiristas, os editores, os diretores, os câmeras e até alguns que se arriscam a dar uma de ator. É essa turma de anjos adoradores de cinema a responsável por criar e passar aquele filmezinho de nossa vida, que é rodado rapidinho diante de nossos olhos, quando estamos à beira da morte. Eles sabem muito bem quais cenas pôr no filme. Mas mesmo confiando muito no gosto dos anjos, gostaria de dar algumas sugestões para quando forem passar o meu filme:
Queria que meu filme fosse rodado ao estilo cinema antigo, nesses rolos que arrebentam toda hora. Nada de efeitos especiais. Podem passar a minha vida em preto e branco, com muitos chuviscos na tela. Sem falas, cinema mudo. Até porque acho que minha vida sempre será mais silêncios do que falas e, pelo menos para mim, as cenas não precisam de traduções ou legendas, acho que darei conta de entender as imagens por si só. Ah, uma coisa importante é a trilha sonora. Apesar do filme ser mudo, podem pôr uma música mais para o fim do filme, algo do tipo moda de viola. E já que estamos falando do fim do filme, façam como escrevi em versos há um tempo, deixem as últimas cenas mostrando apenas o céu. Após as clássicas cenas em família, terminem com cenas do céu cheio de nuvens e com os versos em letras garrafais:
“Sua vida não valeu a pena,
sua vida valeu a pena e o papel.”
Imagino mais ou menos assim o meu filme. Mas é só uma sugestão e, que fique bem claro, não estou ansioso para a estréia.
Queria aproveitar a oportunidade para compartilhar com vocês uma nova cozinha. Nesse carnaval tive o prazer de conhecer e conversar um pouco com o escritor Wellington Coelho. Wellington escreve contos e poemas extremamente interessantes e que valem muito a pena conferir. Para tal, compartilho com vocês o site desse grande escritor: www.wellingtoncoelho.com
Bom apetite!
Queria que meu filme fosse rodado ao estilo cinema antigo, nesses rolos que arrebentam toda hora. Nada de efeitos especiais. Podem passar a minha vida em preto e branco, com muitos chuviscos na tela. Sem falas, cinema mudo. Até porque acho que minha vida sempre será mais silêncios do que falas e, pelo menos para mim, as cenas não precisam de traduções ou legendas, acho que darei conta de entender as imagens por si só. Ah, uma coisa importante é a trilha sonora. Apesar do filme ser mudo, podem pôr uma música mais para o fim do filme, algo do tipo moda de viola. E já que estamos falando do fim do filme, façam como escrevi em versos há um tempo, deixem as últimas cenas mostrando apenas o céu. Após as clássicas cenas em família, terminem com cenas do céu cheio de nuvens e com os versos em letras garrafais:
“Sua vida não valeu a pena,
sua vida valeu a pena e o papel.”
Imagino mais ou menos assim o meu filme. Mas é só uma sugestão e, que fique bem claro, não estou ansioso para a estréia.
Queria aproveitar a oportunidade para compartilhar com vocês uma nova cozinha. Nesse carnaval tive o prazer de conhecer e conversar um pouco com o escritor Wellington Coelho. Wellington escreve contos e poemas extremamente interessantes e que valem muito a pena conferir. Para tal, compartilho com vocês o site desse grande escritor: www.wellingtoncoelho.com
Bom apetite!
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Poeminha de Carnaval
Pessoal, gostaria de desejar a todos um ótimo Carnaval! Aproveito a oportunidade para compartilhar com vocês o meu "Poeminha de Carnaval". Grande abraço!
Poeminha de Carnaval
Minha alma tem fantasias
para mais de mil carnavais.
Mas neste eu vou de alegria
e, se eu gostar, uso mais.
Poeminha de Carnaval
Minha alma tem fantasias
para mais de mil carnavais.
Mas neste eu vou de alegria
e, se eu gostar, uso mais.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Metade da laranja
Coincidência o sol ter nascido
juntamente com o dia! É de se espantar...
Muitos dirão que é assim todos os dias,
são leis naturais, a física do universo.
Dirão que não é coincidência.
Pois eu digo que é!
Assim como coincide
das estrelas aparecerem com a noite,
das flores surgirem com a primavera,
da dor caminhar com o tempo,
dos sonhos virem com o vôo.
Não são pares, não são casais...
Pode ser até que um dia se separem,
cada um para o seu lado.
(Tudo bem! Vou admitir:
é meu coração que quer acreditar assim).
É ciúme,
tolices de um apaixonado.
Não dêem muita bola,
mas é que desde que ele nasceu,
desde que deu sua primeira batida,
ele crê que é
a outra metade da laranja da Vida.
juntamente com o dia! É de se espantar...
Muitos dirão que é assim todos os dias,
são leis naturais, a física do universo.
Dirão que não é coincidência.
Pois eu digo que é!
Assim como coincide
das estrelas aparecerem com a noite,
das flores surgirem com a primavera,
da dor caminhar com o tempo,
dos sonhos virem com o vôo.
Não são pares, não são casais...
Pode ser até que um dia se separem,
cada um para o seu lado.
(Tudo bem! Vou admitir:
é meu coração que quer acreditar assim).
É ciúme,
tolices de um apaixonado.
Não dêem muita bola,
mas é que desde que ele nasceu,
desde que deu sua primeira batida,
ele crê que é
a outra metade da laranja da Vida.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Espelho, espelho meu...
Alguns livros, alguns poemas, se pararmos para analisar, revelam os segredos mais íntimos do autor. Seus medos, suas paixões, seus anseios... o papel reflete a alma de quem escreve. E diferentemente do espelho, o papel não reflete somente feixes de luz, ele gosta de refletir também feixes de escuridão, de mistérios, de segredos. Assim, qualquer um que se proponha a encarar um pedaço de papel acaba descobrindo partes de si que nem conhecia ou que não gosta de ver. Reflexos de si estranhos a si mesmo.
Para muitos, é difícil encarar esse espelho que embaraça criador e criatura, que confunde o autor com sua obra, ou até mesmo o leitor e a obra. Às vezes tudo se mistura: autor, obra, leitor. E não é raro esses espelhos se tornarem temidos. Em um de seus ensaios literários, Thomas Mann conta como Goethe temia seu próprio livro, “O sofrimento do jovem Werther”. Em sua velhice, Goethe confessa que só releu tal livro, escrito em sua juventude, uma única vez e evitava ler outras vezes. O autor justificava: “tenho uma sensação estranha, e tenho medo de recair no estado patológico que o fez nascer”.
Não quero entrar aqui na discussão de quais estados seriam sadios e quais seriam patológicos, gostaria apenas de concluir dizendo que somos, em parte, um mistério a ser desvendado. Somos um mistério a ser lido.
Peço licença para citar uns versinhos que escrevi há tempos atrás:
Não conhecerás tua verdadeira
imagem olhando-te no espelho.
A luz que te amolda
não conhece tuas sombras.
És, em parte, mistério...
Para muitos, é difícil encarar esse espelho que embaraça criador e criatura, que confunde o autor com sua obra, ou até mesmo o leitor e a obra. Às vezes tudo se mistura: autor, obra, leitor. E não é raro esses espelhos se tornarem temidos. Em um de seus ensaios literários, Thomas Mann conta como Goethe temia seu próprio livro, “O sofrimento do jovem Werther”. Em sua velhice, Goethe confessa que só releu tal livro, escrito em sua juventude, uma única vez e evitava ler outras vezes. O autor justificava: “tenho uma sensação estranha, e tenho medo de recair no estado patológico que o fez nascer”.
Não quero entrar aqui na discussão de quais estados seriam sadios e quais seriam patológicos, gostaria apenas de concluir dizendo que somos, em parte, um mistério a ser desvendado. Somos um mistério a ser lido.
Peço licença para citar uns versinhos que escrevi há tempos atrás:
Não conhecerás tua verdadeira
imagem olhando-te no espelho.
A luz que te amolda
não conhece tuas sombras.
És, em parte, mistério...
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Outras Cozinhas (Quintana, Adélia e Vinícius)
O colegial (Mario Quintana)
O vento passa lá fora
e eu, no quadro negro, imóvel
- ó muro de fuzilamento!
Morro sem dizer palavra.
O professor parece triste,
talvez por outros motivos.
Manda sentar-me
e eu carrego
ó almazinha assustada,
um zero, como uma auréola...
Rezai, rezai pelas alminhas
dos meninos fuzilados!
Por que é que nos ensinam
tanta coisa?
Eu queria saber contar
só com os dedos da mão!
O resto é complicação,
um nunca mais acabar.
Eu queria mesmo era poder estudar
teu corpo todo com a mão
até sabê-lo de cor
como um ceguinho.
E o vento passa lá fora
com a sua memória em branco.
O que ele viu, nem recorda...
e eu nada vi: só adivinho!
Grande desejo (Adélia Prado)
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
Dialética (Vinícius de Moraes)
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
O vento passa lá fora
e eu, no quadro negro, imóvel
- ó muro de fuzilamento!
Morro sem dizer palavra.
O professor parece triste,
talvez por outros motivos.
Manda sentar-me
e eu carrego
ó almazinha assustada,
um zero, como uma auréola...
Rezai, rezai pelas alminhas
dos meninos fuzilados!
Por que é que nos ensinam
tanta coisa?
Eu queria saber contar
só com os dedos da mão!
O resto é complicação,
um nunca mais acabar.
Eu queria mesmo era poder estudar
teu corpo todo com a mão
até sabê-lo de cor
como um ceguinho.
E o vento passa lá fora
com a sua memória em branco.
O que ele viu, nem recorda...
e eu nada vi: só adivinho!
Grande desejo (Adélia Prado)
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
Dialética (Vinícius de Moraes)
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
O brilho no olhar
Após um longo período de estudos e pesquisas, apresento a todos a conclusão dos meus esforços, uma fria e detalhada explicação fisiológica do "brilho no olhar":
É quase irresistível a delicadeza com que a esperança nos toca os sentidos. Começa mansamente a sussurrar em nossos ouvidos palavras colhidas na última primavera, promessas de futuros jardins. Inalamos então o seu hálito morno do qual as nossas sementinhas silenciosas necessitam para começar a germinar. Sentimos o gosto dos nossos anseios, dos nossos medos, das nossas incertezas a se misturarem e, aos poucos, se dissolverem. Salivamos pelo futuro. Nossos olhos são tomados por claras visões dos horizontes envergando-se até as pontas dos nossos pés. Abrem-se os caminhos. E nosso corpo é o próprio tato da alma, tocado agora por milhões de raios de sol, conduzidos por um sistema nervoso, espelhado e convexo, a tudo o que é vivo, a tudo que deseja luz. É a sinapse da Vida, que faz nascer assim, senhores, a chamada luz da esperança!... ou o popularmente conhecido "brilho no olhar".
É quase irresistível a delicadeza com que a esperança nos toca os sentidos. Começa mansamente a sussurrar em nossos ouvidos palavras colhidas na última primavera, promessas de futuros jardins. Inalamos então o seu hálito morno do qual as nossas sementinhas silenciosas necessitam para começar a germinar. Sentimos o gosto dos nossos anseios, dos nossos medos, das nossas incertezas a se misturarem e, aos poucos, se dissolverem. Salivamos pelo futuro. Nossos olhos são tomados por claras visões dos horizontes envergando-se até as pontas dos nossos pés. Abrem-se os caminhos. E nosso corpo é o próprio tato da alma, tocado agora por milhões de raios de sol, conduzidos por um sistema nervoso, espelhado e convexo, a tudo o que é vivo, a tudo que deseja luz. É a sinapse da Vida, que faz nascer assim, senhores, a chamada luz da esperança!... ou o popularmente conhecido "brilho no olhar".
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Aperitivos - II
Sirvo aqui um pedacinho de cada um dos 3 livros já publicados no blog e deixo também o convite para quem quiser degustá-los por inteiro... Grande abraço!
PÁ VIRADA - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE UM CAVALHEIRO
Ai amor meu, por que choras tanto?
Não era eu, toda a cura de teus males?
Agora sou razão de teu infindável pranto,
o desencanto que turvou teus olhos-mares?
Não chores, amor, não chores!
Olha bem para os fatos e entende.
Nunca fui rude e nem mesmo infiel.
Então, finda o choro e compreende!
Queria te dar todo o amor do mundo.
Sou cavalheiro, romântico, não cafajeste.
Mas seria, no mínimo, indelicado
devolver o que um dia tu me deste.
MONÓLOGO DE UMA VIDA - Para baixá-lo clique aqui.
(...)Entretanto, parte da platéia continua inquieta, com medo da peça. Ao perceber tanto temor, o ator resolve contar uma história, que ouvira ainda no Segundo Ato, para acalmálos de vez.
"Era uma vez um cego, surdo e mudo,
Que olhava para dentro.
Não sabia a diferença entre
Tapa e alento, mordida e beijo...
Teria que aprender a textura dos desejos.
Então, passou a apalpar as almas das pessoas.
Sentiu sonhos, paixões, medos,
Raiva e alegria escorriam entre os dedos.
Mas onde estava o amor?
Não o encontrava...
Chegou a rir por confundir com
Tantas outras texturas:
Paixão, piedade, ternura...
Até com a dor o confundira...
Com a dor, quem diria?!
Mas não, não achara o amor!
Então, num ato um tanto narcisista,
Resolveu apalpar a própria alma.
Mas não era isso, era curiosidade, teimosia,
Um ato de valentia:
Encontrar o amor, em sua forma pura e adocicada.
Apalpou, apalpou... e nada!
Entrou em pânico, em desespero,
Achava que iria morrer!
O pânico foi tanto, que como
Por milagre, por encanto,
Começou a ouvir, a falar, a ver!
Entretanto, não pôde acreditar
No que viu (emudeceu):
Todos eram cegos, surdos e mudos como ele!
Pela primeira vez na vida,
Amou...
Ninguém da platéia compreendeu nada da história, mas todos adormeceram como
crianças. João apaga a luz e sai sem fazer barulho.(...)
O POETA E O PANO - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE AÇUCAR
(Para a Luja)
Do céu,
tudo no chão parece formiga.
Do chão,
tudo no céu parece estrela.
Ao teu lado,
tudo – no chão, no céu,
tudo parece estrela.
Somente as estrelas parecem formigas
(formigas a roubar de ti pedacinhos de luz)...
PÁ VIRADA - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE UM CAVALHEIRO
Ai amor meu, por que choras tanto?
Não era eu, toda a cura de teus males?
Agora sou razão de teu infindável pranto,
o desencanto que turvou teus olhos-mares?
Não chores, amor, não chores!
Olha bem para os fatos e entende.
Nunca fui rude e nem mesmo infiel.
Então, finda o choro e compreende!
Queria te dar todo o amor do mundo.
Sou cavalheiro, romântico, não cafajeste.
Mas seria, no mínimo, indelicado
devolver o que um dia tu me deste.
MONÓLOGO DE UMA VIDA - Para baixá-lo clique aqui.
(...)Entretanto, parte da platéia continua inquieta, com medo da peça. Ao perceber tanto temor, o ator resolve contar uma história, que ouvira ainda no Segundo Ato, para acalmálos de vez.
"Era uma vez um cego, surdo e mudo,
Que olhava para dentro.
Não sabia a diferença entre
Tapa e alento, mordida e beijo...
Teria que aprender a textura dos desejos.
Então, passou a apalpar as almas das pessoas.
Sentiu sonhos, paixões, medos,
Raiva e alegria escorriam entre os dedos.
Mas onde estava o amor?
Não o encontrava...
Chegou a rir por confundir com
Tantas outras texturas:
Paixão, piedade, ternura...
Até com a dor o confundira...
Com a dor, quem diria?!
Mas não, não achara o amor!
Então, num ato um tanto narcisista,
Resolveu apalpar a própria alma.
Mas não era isso, era curiosidade, teimosia,
Um ato de valentia:
Encontrar o amor, em sua forma pura e adocicada.
Apalpou, apalpou... e nada!
Entrou em pânico, em desespero,
Achava que iria morrer!
O pânico foi tanto, que como
Por milagre, por encanto,
Começou a ouvir, a falar, a ver!
Entretanto, não pôde acreditar
No que viu (emudeceu):
Todos eram cegos, surdos e mudos como ele!
Pela primeira vez na vida,
Amou...
Ninguém da platéia compreendeu nada da história, mas todos adormeceram como
crianças. João apaga a luz e sai sem fazer barulho.(...)
O POETA E O PANO - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE AÇUCAR
(Para a Luja)
Do céu,
tudo no chão parece formiga.
Do chão,
tudo no céu parece estrela.
Ao teu lado,
tudo – no chão, no céu,
tudo parece estrela.
Somente as estrelas parecem formigas
(formigas a roubar de ti pedacinhos de luz)...
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
TOC e novo design
Após um breve período de recesso, nossa cozinha está de volta com novos pratos para serem postos à mesa. Durante esse recesso, no qual se passaram o natal e o reveillon, tive a felicidade de reencontrar vários amigos. Nesses (re)encontros ouvi muitas sugestões sobre temas para o blog, idéias para novos pratos. Uma dessas sugestões foi abordar em meu textos alguns temas da Psicologia. Pois bem, resolvi começar o ano servindo algo relacionado ao tema. Sirvam-se à vontade!
Alguns dos comportamentos mais interessantes do ser humano, para não dizer estranhos, são os gerados pelo chamado TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Uma espécie de ritual para ordenação cósmica.
Existem TOCs dos mais variados tipos para os mais variados gostos. Pessoas que só tocam em alguns objetos por determinado número de vezes, ou as que, contrariamente, evitam tocar em alguns objetos. Algumas que só deixam o chinelo do pé direito na frente ao do pé esquerdo. Outras saem ordenando tudo o que vêem pela frente, (quem dirá Darwin, seu TOC foi tão intenso que marcou a história e, de certa maneira, contagiou a todos). Certos tipos são mais complexos, mais elaborados. Como exemplos, essas pessoas que só saem do banheiro após piscarem a luz cinco vezes e olharem-se três vezes no espelho, sem mencionar a necessidade da torneira aberta.
A verdade é que ninguém está a salvo de desenvolver um ou outro tipo de TOC. Eu, por exemplo, não consigo escrever sem antes passar por um pequeno procedimento: primeiro, tenho que tentar abrir o caderno exatamente na última página escrita; segundo, só posso pegar o lápis com a mão direita, depois passo-o para mão esquerda e novamente para a direita (se for caneta, executo o processo duas vezes); por último, faço um rabisco no canto direito inferior da folha. E pronto! Posso começar... Ah, mas se é noite, após todo esse procedimento, ainda tenho que tocar em sete estrelas e dar três beijos na lua.
Pessoal, como puderam ver, nossa mesa está com cara nova. Peço encarecidamente que dêem suas opniões na enquete ao lado sobre o novo desing. Grande abraço!!!
Alguns dos comportamentos mais interessantes do ser humano, para não dizer estranhos, são os gerados pelo chamado TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Uma espécie de ritual para ordenação cósmica.
Existem TOCs dos mais variados tipos para os mais variados gostos. Pessoas que só tocam em alguns objetos por determinado número de vezes, ou as que, contrariamente, evitam tocar em alguns objetos. Algumas que só deixam o chinelo do pé direito na frente ao do pé esquerdo. Outras saem ordenando tudo o que vêem pela frente, (quem dirá Darwin, seu TOC foi tão intenso que marcou a história e, de certa maneira, contagiou a todos). Certos tipos são mais complexos, mais elaborados. Como exemplos, essas pessoas que só saem do banheiro após piscarem a luz cinco vezes e olharem-se três vezes no espelho, sem mencionar a necessidade da torneira aberta.
A verdade é que ninguém está a salvo de desenvolver um ou outro tipo de TOC. Eu, por exemplo, não consigo escrever sem antes passar por um pequeno procedimento: primeiro, tenho que tentar abrir o caderno exatamente na última página escrita; segundo, só posso pegar o lápis com a mão direita, depois passo-o para mão esquerda e novamente para a direita (se for caneta, executo o processo duas vezes); por último, faço um rabisco no canto direito inferior da folha. E pronto! Posso começar... Ah, mas se é noite, após todo esse procedimento, ainda tenho que tocar em sete estrelas e dar três beijos na lua.
Pessoal, como puderam ver, nossa mesa está com cara nova. Peço encarecidamente que dêem suas opniões na enquete ao lado sobre o novo desing. Grande abraço!!!
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