segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A sombra de Algemiro

Conta-se que a sombra de Algemiro nunca envelheceu, conservou-se criança. Enquanto Algemiro crescia, ela continuou pequena, cheia de brincadeiras. Ele tornou-se um rapaz alto, robusto, sério. Aos vinte e três anos já era advogado. Andava pela rua sempre de terno, com passos firmes e apressados. A sombra, por sua vez, andava pulando listras, dando cambalhotas, ora correndo ora distraída com outras sombras e, às vezes, parecia estar nua.

Até se formar em direito, Algemiro nunca se incomodou com sua sombra infantil, mas depois que se formou, passou a se sentir desconfortável com aquilo. Preferia dias nublados. Em casa, evitava acender as luzes. Começou a sentir vergonha, raiva, medo de sua sombra.

À medida que ia envelhecendo, só aumentava em Algemiro o repúdio por sua sombra, chegando a ponto de ele viver no escuro e não mais sair de casa. Mesmo assim havia momentos em que, ao menor descuido, lá estava ela sempre sorridente e brincalhona, a sombra de Algemiro.

Quando completou sessenta e dois anos, Algemiro já beirava a loucura, pouco se diferenciava de um bicho solitário. E pressentindo que a morte se aproximava, resolveu dar uma última olhada em sua sombra, queria despedir de seu tormento. Mas quando acendeu a vela, tomou um grande susto: sua sombra envelhecera! Estava velha e curvada como ele, já não corria nem brincava, apenas acompanhava seus passos lentos e doídos.

Algemiro morreu naquela mesma noite. E há gente que conta que, em seu velório, sua sombra não estava junto ao corpo e que, no caminho para o cemitério, sob um sol ameno de fim de tarde, muitos viram um passarinho voando com duas sombras.

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