terça-feira, 23 de outubro de 2012

Outras cozinhas (Guimarães, Adelaide e Drummond)

O sono das águas (Guimarães Rosa)

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…


Planta carnívora (Adelaide Petters Lessa)

(voz do diabo)

Aos desafetos serviu alume,
urtigas, urzes, cicuta, estrume.

Tem o desmanche de seu curtume
no inferno onde quem fez assume.

Nada se perca,
nada se esfume.

(voz de amigo)

Aos desafetos
serviu alume,
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.

Curte o desmanche
de seu curtume
no limbo onde
quem fez assume.

Nada se perca,
tudo se arrume.

(voz de anjo)

Aos desafetos
serviu alume
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.

Curte o desmanche
de seu curtume
na terra onde
quem fez assume

Nada se perca.
Tudo se emplume.


Memória (Carlos Drummond)

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

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