O sono das águas (Guimarães Rosa)
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
Planta carnívora (Adelaide Petters Lessa)
(voz do diabo)
Aos desafetos serviu alume,
urtigas, urzes, cicuta, estrume.
Tem o desmanche de seu curtume
no inferno onde quem fez assume.
Nada se perca,
nada se esfume.
(voz de amigo)
Aos desafetos
serviu alume,
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
no limbo onde
quem fez assume.
Nada se perca,
tudo se arrume.
(voz de anjo)
Aos desafetos
serviu alume
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
na terra onde
quem fez assume
Nada se perca.
Tudo se emplume.
Memória (Carlos Drummond)
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
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