terça-feira, 15 de maio de 2012

Outras cozinhas (Rimbaud)

Hoje faço uma visita na cozinha de Rimbaud. Todos os três pratos servidos aqui foram traduzidos por Ivo Barroso.


BAILE DOS ENFORCADOS

Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.

Compadre Belzebu puxa pela gravata
Seus fantoches que aos céus fazem negra careta,
E açoitando-os na cara a golpes de sapata,
Fá-los dançar ao som de velhas cançonetas!

Enlaçam-se na dança os braços e as canelas,
Órgãos negros ao vento, os seus furos expondo,
Esses peitos que outrora abraçaram donzelas
Se embatem lentamente em seu amor hediondo.

Já não gasta sandália o duro calcanhar!
A camisa de pele a maioria arranca;
O resto vê-se bem sem muito se acanhar.
Sobre as calvas, a neve aplica a touca branca;

Serve o corvo de pluma ao crânio a que se entrega;
De um magro queixo pende a carne nunca farta.
Dir-se-iam, a voltear em lúgubre refrega,
Campeões, hirtos, chocando armaduras de carta.

Hurra! o vento a assoviar no baile de esqueletos!
A negra forca muge – é um férreo órgão de uivos!
Lobos respondem, longe, em seus bosques de abetos
E o céu tem, no horizonte, a cor de infernos ruivos...

Vamos lá, balançai meus fúnebres farsantes
Que desfiam, fingindo, em dedos desconjuntos
Um rosário de amor nas vértebras hiantes:
Não estais num mosteiro, ó restos de defuntos!

Nessa dança macabra, eis que então, repentino,
Um esqueleto salta aos céus em alvoroço
Levado em seu afã, como um cavalo a pino;
E, sentindo inda a corda esticar-lhe o pescoço,

Crispa seus dedos sobre o fêmur que se solta
Com gritos que são mais chacotas e risadas,
E assim como o bufão que ao picadeiro volta,
Chocalha-se no baile ao canto das ossadas.

Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.


CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA

Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha.

Eu me disse: cessa
Que ninguém te veja,
E sem a promessa
De algum bem que seja,
A ti só aspiro,
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.

Ah! viuvez selvagem
Desta alma que chora
Tendo só a imagem
De Nossa Senhora!
Mas quem rezaria
À Virgem Maria?

Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha!


O ARMÁRIO

Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,
Muito antigo, adquiriu esse ar bom dos idosos;
E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,
Como um jorro de vinho, odores capitosos;

Repleto, é uma babel de velhas velharias,
Recendentes lençóis encardidos, fustões
De infante ou feminis, as rendas alvadias
E os xales das avós pintados de dragões;

- Em ti podem-se achar os medalhões, as mechas,
Os retratos, a flor ressequida que fechas,
Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.

- Ó armário de outrora, as histórias que exortas
E amarias contar, com teus roucos gemidos,
Quando se abrem de leve as tuas negras portas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário