segunda-feira, 28 de maio de 2012
Para se ler à luz de velas
Há pouco passou a procissão. Logo atrás, a banda. Não havia muita gente na procissão, mas a banda estava bem animada. Por onde seguiram eu não vi, sei apenas que desceram a rua e aos poucos a música foi diminuindo, diminuindo até que não pude mais ouvi-la. Ficou o silêncio...
Esse silêncio trouxe consigo um rio de lembranças de quando eu também costumava acompanhar as procissões. Eu devia ter lá meus 6 ou 7 anos e não perdia uma. Gostava de ouvir a banda, mas o que eu gostava mesmo era das velas que carregávamos. A tia Adail sempre pegava e acendia uma vela para mim e outra para ela. Enquanto a vela estivesse acessa, eu poderia caminhar pelo mundo inteiro. A sua chama fascinava.
Nunca perdi esse fascínio pela chama da vela. Mas muito antes de eu me dar por gente, existiu um homem que também era fascinado por essa chama: Gaston Bachelard. Ele, porém, foi bem mais longe do que eu. Bachelard escreveu um livro sobre o assunto, dedicou-se a “descrever” esse poder que a chama da vela tem de nos fazer sonhar, de alimentar nossas fantasias. O livro não poderia ter outro nome: “A chama de uma vela”.
Eu jamais deixei de sonhar diante da chama de uma vela. Nas procissões ou em casa, quando a luz vai embora, sempre alimentei meus sonhos ali, naquela pequena luz. A alma de quem sonha vive à meia-luz, vive à luz de velas. Nas palavras de Bachelard, “parece que existe em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante.” É por esses cantos que minha alma passeia.
... A procissão e a banda já estão voltando. O silêncio está partindo. As velas já estão se apagando. Lá se vão minhas lembranças. De certa forma também tomei a procissão, mas tomei um rumo para outro mundo. O mundo das minhas lembranças, das minhas fantasias, da saudade. “A chama é um mundo para o homem só.” (Bachelard)
Aniversário
O “Sobra ou Sobremesa”, nesta semana, mais precisamente no dia 1 de junho, estará completando dois anos de existência. Agradeço a todos que têm visitado nossa cozinha e experimentado os mais diversos pratos servidos aqui. Espero continuar cozinhando e servindo em nossa mesa por muitos e muitos anos. Quanto às velinhas do bolo, o leitor bem entenderá se eu me recusar a soprá-las. Que a chama da vela continue acessa para todos nós!
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