quarta-feira, 4 de julho de 2012

Na mesa do bar



Este é o primeiro texto que escrevo sentado na mesa de um bar. Na verdade não estou escrevendo o texto, só anotando algumas observações para depois serem devidamente trabalhadas. Sinto-me como um membro do Clube Pickwick, com meu caderninho de anotações.

Henrique de Campos, ao escrever um prefácio para um livro de contos de Tchecov, diz que um dos motivos que fez desse contista um dos maiores escritores russos foi o fato de o mesmo ser médico. Segundo Henrique, um médico tem em seu trabalho contato com milhares de histórias, a história de vida de cada paciente, de cada pessoa que ele se propõe a atender e a escutar. A prática da medicina seria assim um campo fértil para literatura. Concordo, mas sou obrigado a acrescentar que a mesa de um bar é tão fértil quanto a mesa de um consultório, no que diz respeito a histórias de vidas.

Não faz uma hora que estou no bar e já pude ouvir algumas histórias bem interessantes das pessoas que estão a minha volta (confesso que pareço aqui um pouco intrometido). São histórias do cotidiano dessas pessoas, do dia-a-dia, histórias comuns, mas que bem contadas, dariam belos livros e profundas reflexões. Tchecov era mestre nisso. Seus contos são, em geral, situações corriqueiras de sua época, recortes da vida cotidiana. E poucos souberam fazer isso tão bem como Tchecov. Como o próprio Henrique ressalta, seus contos terminam quase sempre em reticências, não têm um final “impactante”, um desfecho certo. Seus personagens são pessoas comuns da sociedade russa da época. A maioria dos contos desse grande literato russo é um “flagrante da existência”, um mergulho no rio da vida que está sempre a correr.

Logicamente é preciso passar essas observações corriqueiras, esses casos do dia-a-dia, pelo filtro da arte. A mera descrição, sem qualquer enfeite, sem qualquer poesia, não seria muito atrativa para se ler. É preciso cozinhar devidamente as palavras. Tchecov era extremamente preocupado com esse preparo de seus contos. Preocupava-se com a musicalidade, o ritmo das frases. Um bom autor sabe que é necessário enfeitar suas narrativas, inclusive com coisas que não existem. Transformar o cru em algo comestível e agradável.

Sugiro para o leitor que queria prolongar essa nossa prosa, que leia os contos de Tchecov, em particular “O beijo”. É impressionante como o autor consegue transformar o que seria “um simples beijo” em algo tão intrigante, em um conto tão atrativo e repleto de sonhos e reflexões... E quanto às minhas observações de bar, já tenho o bastante. Vou agora para casa tentar torná-las comestíveis... Garçom, por favor, um conto! Digo, a conta!

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