terça-feira, 12 de julho de 2016

Um dicionário que vale a pena...

Em 2010, publicando meus primeiros versos, escrevi um poema um tanto quanto revoltado com os dicionários. Na ocasião, comparei o dicionário a uma prisão, a um livro que assassinava as palavras. De lá pra cá, creio não ter mudado minhas considerações a respeito. Mas nesse período tive a oportunidade de conhecer um dicionário um pouco diferente, que ao invés de aprisionar e matar as palavras, dava-lhes vida e liberdade...

Acredito piamente que o ninho da poesia é a infância. Sendo assim, um dicionário que nascesse das bocas das crianças talvez permitisse que as palavras continuassem vivas, livres para serem lidas em versos, em canções ou em pensamentos silenciosos - que continuassem sendo palavras! E talvez almejando tal façanha, foi que Javier Naranjo idealizou e organizou o Casa das estrelas - O universo contado pelas crianças. Um trabalho incrível e encantador - um dicionário poético, onde cada verbete foi colhido atenciosamente junto a várias crianças de variadas idades e vivências. Desde que conheci o livro, este tem sido meu único e inseparável dicionário. Um dicionário que vale a pena... para não dizer vital.
“Em lábios de crianças, loucos, sábios apaixonados ou solitários, brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada… Feitas de matéria inflamáveis, as palavras se incendeiam assim que as roçam a imaginação ou a fantasia”– Octavio Paz

Abaixo, transcrevo alguns dos verbetes:

Água: transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)

Amor: o que cada coração reúne para dar a alguém. (Lina María Murillo, 10 anos)

Casal: é onde os pássaros se metem. (Diejo Alejandro Tabares, 8 anos)

Deus: é o amor com cabelos grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Espírito: é uma nuvem que cai do céu, e que chega e brinca com um carrinho. (David Hidalgo Ramírez, 6 anos)

Igreja: onde as pessoas vão perdoar Deus. (Natália Bueno, 7 anos).

Mistério: quando minha mamãe sai e não me diz pra onde (Glória María Hidalgo, 10 anos)

Palavra: onde as pombas se escondem (León Afonso Pava, 11 anos)

Pessoa: é uma coisa sentimental. (Lina Marcela Sanchéz, 7 anos)

Violência: se fizerem violência no país, eu vou embora. (Yeny Andrea Rodríguez, 8 anos)



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Outras Cozinhas - O quarto de Quintana

Depois de visitar a casa de Guimarães Rosa, em Cordisburgo - MG, gostei da experiência de levar o “Outras Cozinhas” um pouco além da cozinha. Desta vez fiz uma rápida visita à Casa de Cultura Mário Quintana, onde se encontra uma reconstrução fiel do quarto do poeta gaúcho. O quarto pertencia ao antigo Hotel Majestic, no qual Quintana foi morador por diversos períodos entre os anos de 1968 e 1980. O poeta foi um dos últimos hóspedes a deixar o hotel.

Reconstruído com móveis e objetos pessoais do escritor, o quarto á uma atração para ser admirada com calma. O ambiente ali montado torna todos um pouco mais íntimos do poeta e sua obra. Penso que foi ali que escreveu grande parte de seus poemas, os quais estão hoje no meu e tanto outros quartos pelo mundo. Visitar o lugar foi como ter uma conversa silenciosa com Quintana. Na minha conversa não consegui dizer muita coisa. Foi mais um silencioso e sincero agradecimento.

Ressalto aqui que a Casa Cultural Mário Quintana, além do quarto do poeta, tem diversas outras atrações relacionadas a teatro, música, cinema, dança, etc., que mantém o lugar bem vivo. Vale a pena um passeio demorado pelos andares do antigo hotel. Uma grata surpresa foi encontrar um espaço dedicado à Elis Regina, com documentos e materiais sobre a vida e obra da cantora.





Deixo a sugestão do passeio aqui aos que visitarem Porto Alegre. E junto à sugestão, como já é hábito no “Outras Cozinhas”, três poemas do escritor.

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Tão linda e serena e bela

Tão lenta e serena e bela e majestosa
[vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural e simples como a primeira canção
A vaca, se cantasse,
Que cantaria?
Nada de óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito,
A longa, misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de superaviões, tratores, êmbolos
E outros truques mecânicos!

sábado, 21 de maio de 2016

Rubaiyat

Rubaiyat – plural de rubai. Quadras poéticas consagradas pelo poeta persa Omar Khayyam (1048-1131). E Rubaiyat foi o nome dado por Edward Fitzgerald a uma seleção de poemas de Omar, quando o inglês os traduziu pela primeira vez. Em sua tradução, Fitzgerald conseguiu manter a estrutura original dos versos (1º, 2º e 4º versos com a mesma rima e o 3º branco, ou seja, sem rima). Desde então outras traduções foram feitas, em diversas línguas (como a portuguesa) – algumas conseguindo manter a estrutura e aproximar do sentido original, outras nem tanto. Fato é que, traduções a parte, os rubaiyat de Omar ratificam a força de condensação que as línguas e poesias Orientais possuem e que as Ocidentais ainda têm muito o que aprender.

Nesta semana, graças aos bons e velhos sebos, um belo exemplar em português do Rubaiyat de Omar Khayyam chegou às minhas mãos. Já o devorei como uma pessoa que estivesse há dias sem comer e de repente fosse colocado um banquete imenso à sua frente.  Mas pretendo ler novamente, outras tantas vezes. Não é possível saborear devidamente os rubaiyat de Omar com tanta pressa. A poesia ali condensada precisa ser degustada aos pouquinhos, com calma. Um rubai, um haikai, um gazal , podem conter um mundo de sentidos, de “especiarias”, os quais um leitor apressado jamais será capaz de apreciar.

Tratando-se especificamente da obra de Omar, há várias discussões e interpretações sobre os sentidos de seus versos, sobre o significado de algumas expressões, sobre a essência de sua obra. Longe de entrar nessas discussões, gostaria de compartilhar aqui alguns rubaiayt que me foram mais saborosos. Ressalto que a tradução que tenho em mãos é de Jamil Almansur Haddad e, de maneira geral, não foi mantida a estrutura original dos versos mencionada anteriormente.

A Tulipa não vês que, na hora matinal,
Absorve da atmosfera o Vinho celestial?
Faze com crença o mesmo até que o Céu um dia
Te inverta para o Chão, feito ânfora vazia.


Eu minha Alma enviei para o espaço sem fim
para um Traço apreender do Mistério do Além.
Minha Alma devagar foi retornando a mim
E disse: “Eu sou o Céu e o Inferno também.”


Dispõe o Eterno Escriba. E havendo escrito,
A folha vira: e não há ciência ou devoção
Que cancele uma Linha; e não há pranto aflito
Que risque uma Palavra! Ah, todo choro é vão!


As esperanças vãs do Coração de um Homem
Ora são cinza, ora Esplendor, porém, em breve,
Como por sobre o pó dos Desertos a Neve,
Brilham somente uma hora ou duas e após somem.


Tanto ao homem que o seu HOJE prepara,
Como ao que no AMANHÃ incerto pensa,
Da Torre negra um Muezim gritara:
“Tolos! Nem cá nem lá há recompensa!”


Tuas cogitações, murmura a Multidão,
O Ano reduzirão a melhor curso? Não.
Um aviso somente o calendário deu:
“– O ontem já se extinguiu e o Amanhã não nasceu."


O mistério indaguei do Ser e do Não ser
E fui investigar não sei quanta grandeza.
De quanta cousa enfim eu procurei saber
Só no vinho encontrei alguma profundeza.

sábado, 7 de maio de 2016

Outras Cozinhas - João Guimarães Rosa

Hoje o “Outras Cozinhas” faz uma visita a Guimarães Rosa. Mas desta vez não ficamos limitados à cozinha, visitamos a casa inteira. Tive a oportunidade de conhecer há algumas semanas a simpática e encantadora de Cordisburgo-MG, terra natal do escritor e berço de muitas de suas histórias e personagens. Entre as várias atrações que a cidade oferece (Gruta de Maquiné, Portal Grande Sertão, Zoológico de Pedra, Empório do Brasinha – Projeto Recordanças...) está o Museu Casa Guimarães Rosa.
Visitar o museu é um mergulho na vida e obra do escritor. Lá é possível conhecer um pouco da infância de João, ver fotografias de sua família, de seus amigos que o inspiraram, sua elegante coleção de gravatas borboletas, o sacro quarto de sua avó, manuscritos, etc... É encantador. Não posso deixar de ressaltar os guias do museu – jovens do projeto Miguelim que tornam a visita mais agradável e enriquecedora, além de nos presentar com declamações de trechos dos contos de Guimarães Rosa.

Por isso deixo aqui a sugestão de visita ao Museu Casa Guimarães Rosa. Não só ao museu, mas à cidade de Cordisburgo. As pessoas de lá sabem ser acolhedoras e mantém viva a memória do Cordisburguense João. Ali Guimarães Rosa ainda passeia. Ali pulsa o Sertão.




Trecho do Grande Sertão: Veredas

“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isto que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas: mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei – “Amanhã eu tiro ...” – falei, comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido corroído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo – por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí esta:  Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...” 



sábado, 23 de abril de 2016

Reabrindo as portas

Hoje, dia 23 de abril, comemora-se o dia mundial do Livro. Aproveito a data para “reabrir” o Sobra ou Sobremesa que estava “fechado” desde 2015. Reabro o blog com algumas sugestões de leitura, obras que tive a oportunidade de ler nos últimos tempos e das quais gostei muito. Gostaria também de informar que, apesar do longo período sem novas postagens, tentarei trazer algumas novidades no decorrer das próximas semanas. Boa leitura a todos!


*Utilizo-me aqui das sinopses encontradas nos próprios livros.

A lebre com olhos de âmbar - Edmund Waal

"Nenhuma das miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim era maior que uma caixa de fósforos. Edmund Waal ficou fascinado ao encontrar essa coleção em Tóquio, no apartamento de seu tio-avô, Ignace. Mais tarde, quando Edmund herdou os netsuquês, eles revelaram uma história muito mais ampla que ele imaginara...

Os Ephrussis, originários de Odessa, eram os maiores exportadores de trigo do mundo; em 1870, Charles Ephrussi fazia parte da nova geração de financistas estabelecida em Paris. Sua personalidade inspirou Marcel Proust, que foi durante um curto período secretário de Charles, a criar a Swann, personagem de Em busca do tempo perdido. Colecionar objetos de arte era a paixão de Charles, e os netsuquês – comprados quando os objetos japoneses estavam em alta nos salões parisienses – foram enviados como presente de casamento ao seu primo, um banqueiro em Viena.

Anos depois, três crianças, inclusive o jovem Ignace, brincavam com as miniaturas, enquanto a História reverberava ao redor deles. A anexação da Áustria e a Segunda Guerra Mundial levaram os Ephrussis e seu fausto ao esquecimento. (...)

Com essas memórias impressionantes, Edmund Waal viaja pelo mundo e coloca-se diante das magníficas construções que seus antepassados habitaram. Ele traça as relações de uma família memorável no cenário de um século tumultuado. Com uma prosa elegante e precisa, como os próprios netsuquês, o autor conta a história de uma coleção ímpar que, por um capricho do destino, encontrou o rumo de casa depois de passar pelo Japão."

A alma e a dança e outros diálogos - Paul Valéry

"Não te parece, Erixímaco, e a ti, caro Fedro, que essa criatura que vibra ali, e que se agita adoravelmente para nossos olhos, essa ardente Athiktê que se divide e se reúne, que se alteia e se abaixa, que se abre e se fecha tão depressa, e que parece pertencer a outras constelações que não são as nossas - não parecem viver, como se fosse em casa, num elemento comparável ao fogo - numa essência muito sutil de movimento e música, onde ela respira uma energia inesgotável, enquanto participa, com todo seu ser, da violência pura e imediata de uma extrema felicidade?"

Puro - Andrew Miller

"Paris, 1785.
Jean-Baptiste Baratte, um jovem engenheiro de origem modesta, recebe de um dos ministros do rei Luiz XVI uma missão desafiadora: livrar-se da igreja e do cemitério de Les Innocents. O cemitério vem acumulando corpos há séculos, chegando ao ponto da população vizinha sentir o gosto dos cadáveres na comida e na água. Respiram a morte, têm seu cheiro, seu hálito.

No começo, Baratte vê nessa empreitada uma chance de limpar o fardo da história, a tarefa perfeita para um homem moderno, do futuro, da razão. Mas logo ele percebe que a igreja e o cemitério são prenúncios de uma queda maior que está por vir. Os rumores de uma grande mudança que se aproxima ganham volume, e o povo se divide quanto ao trabalho de Baratte: ao mesmo tempo que a cidade já não suporta mais um cemitério que não para de receber corpos e não tem para onde crescer, é difícil aceitar a mudança e tirar de cena um dos marcos do passado monárquico.

O engenheiro imagina que a missão seja ingrata, das mais desagradáveis, mas não faz ideia dos dramas e das calamidades que se avizinham e se concretizam conforme os ossos começam a emergir de seus séculos de descanso. E, com a agitação contra a corte de Luiz XVI se tornando cada vez mais insuportável, Baratte percebe que o futuro que planejara para si pode não ser mais o que ele quer de fato."

domingo, 29 de novembro de 2015

10 poemas

Após alguns meses sem servir um poema sequer por aqui, resolvi fazer uma pequena seleção de 10 poemas já servidos em nossa mesa. Não segui critérios para tal seleção, apenas deixei-me ser levado pelos variados sabores. Peço licença para incluir entre eles um poema de minha autoria (A menina e a flor) já publicado no "O poeta e o pano". Aproveitei também para dar "uma nova cara" ao blog. Bom apetite!

Ismália (Alphonsus de Guimaraens)

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…


Adília Lopes (José Tolentino Mendonça)

Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo

sou a verdade que prefere não sair
do bairro


Poeminha sentimental (Mario Quintana)

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


Roteiro (Sidónio Muralha)

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.


A Balada do Desesperado (Henry Murger)

Tradução de Castro Alves.

— Quem bate à porta a tais horas?
— Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

— Abre. — Teu nome? — Há geada,
Abre. Teu nome? — És tardio!
Qual é teu nome? — Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me — Inda não!

Diz teu nome... — Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
— Passa fantasma irrisório...
— Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
— Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

— Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! — Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

— Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
— Posso dar-te a tua amante...
— Podes dar-me o seu amor?

— Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! — Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!

— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

— Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!


Máquina breve (Cecilia Meireles)

O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.



O cavalo e a nuvem (Mikhaíl Rêndjov)

Veio com um ladrão subterrâneo a galope
relinchando à noite arrancando as flores
anunciou tempestades e ataques
lançou enxames sobre as estrelas

E retornou à sua nuvem

Veio com um ladrão subterrâneo a galope
trazendo desconhecidos exércitos encouraçados
pisoteou as almas com os cascos de bronze
anunciou mortes e secas

E retornou à sua nuvem

Por fim rebelou-me os olhos dentro das órbitas
fez-me ranger os ossos
atiçou gralhas sobre os corvos
ensanguentou trombetas e tambores

E retornou à sua nuvem


Soneto (Théophile de Viau)

Eu sonhei que Philis do inferno retornava,
Tão bela quanto foi à clara luz do dia;
Que eu lhe fizesse amor seu fantasma queria,
Sentindo como Ixion, que uma nuvem abraçava.

Toda nua em meu leito a sombra se espojava;
“Caro Dâmon, estou de volta” – me dizia;
“Vê como embelezei na triste moradia
Onde, depois que foste, a Sorte me trancava.

Quero outra vez beijar meu amante perfeito;
E de novo morrer no espasmo de teu leito!”
E então, tendo esgotado o meu ardor, em calma,

Me disse: “Volto à Morte. Adeus! Tens-te exibido
Por haveres, em vida o meu corpo fodido:
Vais agora dizer que fodeste a minha alma.”


Evolução (Adelaide Petters Lessa)

Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.

Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.


A menina e a flor (Denis Mattos)

(Para Ana Clara e Júlia)

De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Outras Cozinhas (Rumi)

Esta semana a visita é na belíssima cozinha do poeta persa Jalal ad-Din Muhammad Rumi. Três poemas de rara beleza! E aproveito também para dedicar esses pratos a meu caro amigo Ricardo Gorchacov, que me concedeu algumas aprazíveis horas de discussão e contemplação de uma pequena parte da obra do poeta mencionado.


O destino do coração

Os olhos foram feitos para ver coisas insólitas,
fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer.
O coração foi destinado a embriagar-se
na beleza do amigo ou na aflição da ausência.

A meta do amor é voar até o firmamento,
a do intelecto, desvendar as leis e o mundo.

Para além das causas estão os mistérios, as maravilhas.

Os olhos ficarão cegos
quando virem que todas as coisas
são apenas meios para o saber.

O amante, difamado neste mundo
por uma centena de acusações,
receberá, no momento da união,
cem títulos e nomes.

Peregrinar nas areias do deserto
nos exige suportar
beber leite de camelo,
ser pilhados por beduínos.

Apaixonado, o peregrino beija a Pedra Negra
ansioso por sentir mais uma vez
o toque dos lábios do amigo
e degustar como antes o seu beijo.

Ó alma, não cunhes moedas com o ouro das palavras:
o buscador é aquele que vai
à própria mina de ouro.


Mundos Infinitos

A cada instante a voz do amor nos circunda
e partimos em direção ao céu profundo
Por que deter-se a olhar ao redor?
Já estivemos antes por esses espaços e até os anjos os reconhecem
Retornemos ao mestre, que é lá nosso lugar
Estamos acima das esferas celestes, somos superiores aos próprios anjos
Além da dualidade nossa meta é a glória suprema
Quão distante está o mundo terreno do reino da pura substância?
Por que descemos tanto?
Apanhemos nossas coisas e subamos mais uma vez
Sorte não nos faltará ao entregarmos de novo nossas almas
Nossa caravana tem por guia Mustafá, a glória do mundo
Ao contemplar sua face a lua partiu-se em dois pedaços
Não pôde suportar tanta beleza e fez-se feliz mendicante frente àquela riqueza
A doçura que o vento nos traz é o perfume de seus cabelos
A face que traz consigo a luz do dia reflete o brilho de seus pensamentos
Olha bem dentro de teu coração e vê a lua que se despedaça
Por que teus olhos ainda fogem dessa visão maravilhosa?
O homem emerge do oceano da alma como os pássaros do mar
Como há de ser terra seca o lugar do descanso final
de uma ave nascida nesse mar?
Somos pérolas desse oceano. A ele pertencemos. Cada um de nós.
Seguimos o movimento das ondas que se arrastam até a terra
e então retornam ao mar
E eis que surge a última onda e arremessa o navio do corpo à terra
E quando essa onda regressa naufraga a alma em seu oceano
E este é o momento da união.


(Trecho)

Por mais que se descreva ou se explique o amor,
quando nos apaixonamos envergonhamo-nos de nossas palavras.
A explicação pela língua esclarece a maioria das coisas,
Mas o amor não explicado é mais claro.
Quando a pena se apressou em escrever,
Ao chegar no tema do amor, partiu-se em duas.
Quando o discurso tocou na questão do amor,
A pena partiu-se e o papel rasgou-se.
Ao explicá-lo, a razão logo empaca, como um asno no atoleiro;
Nada senão o próprio Amor pode explicar o amor e os amantes...