Hoje o “Outras Cozinhas” faz uma
visita a Guimarães Rosa. Mas desta vez não ficamos limitados à cozinha,
visitamos a casa inteira. Tive a oportunidade de conhecer há algumas semanas a
simpática e encantadora de Cordisburgo-MG, terra natal do escritor e berço de
muitas de suas histórias e personagens. Entre as várias atrações que a cidade
oferece (Gruta de Maquiné, Portal Grande Sertão, Zoológico de Pedra, Empório do
Brasinha – Projeto Recordanças...) está o Museu Casa Guimarães Rosa.
Visitar o museu é um mergulho na
vida e obra do escritor. Lá é possível conhecer um pouco da infância de João,
ver fotografias de sua família, de seus amigos que o inspiraram, sua elegante
coleção de gravatas borboletas, o sacro quarto de sua avó, manuscritos, etc...
É encantador. Não posso deixar de ressaltar os guias do museu – jovens do projeto
Miguelim que tornam a visita mais agradável e enriquecedora, além de nos
presentar com declamações de trechos dos contos de Guimarães Rosa.
Por isso deixo aqui a sugestão de
visita ao Museu Casa Guimarães Rosa. Não só ao museu, mas à cidade de
Cordisburgo. As pessoas de lá sabem ser acolhedoras e mantém viva a memória do
Cordisburguense João. Ali Guimarães Rosa ainda passeia. Ali pulsa o Sertão.
Trecho do Grande Sertão: Veredas
“O senhor... Mire veja: o mais
importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou
desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isto que me alegra,
montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas: mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma
beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá medo
pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o
milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num
curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de
casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei – “Amanhã eu tiro ...” – falei,
comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então saiba: no
outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido corroído, quase por metade,
por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala,
espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se
achava o cabo... O cabo – por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro.
Aí esta: Deus... Bem, o senhor ouviu, o
que ouviu sabe, o que sabe me entende...”
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