segunda-feira, 6 de junho de 2016

Outras Cozinhas - O quarto de Quintana

Depois de visitar a casa de Guimarães Rosa, em Cordisburgo - MG, gostei da experiência de levar o “Outras Cozinhas” um pouco além da cozinha. Desta vez fiz uma rápida visita à Casa de Cultura Mário Quintana, onde se encontra uma reconstrução fiel do quarto do poeta gaúcho. O quarto pertencia ao antigo Hotel Majestic, no qual Quintana foi morador por diversos períodos entre os anos de 1968 e 1980. O poeta foi um dos últimos hóspedes a deixar o hotel.

Reconstruído com móveis e objetos pessoais do escritor, o quarto á uma atração para ser admirada com calma. O ambiente ali montado torna todos um pouco mais íntimos do poeta e sua obra. Penso que foi ali que escreveu grande parte de seus poemas, os quais estão hoje no meu e tanto outros quartos pelo mundo. Visitar o lugar foi como ter uma conversa silenciosa com Quintana. Na minha conversa não consegui dizer muita coisa. Foi mais um silencioso e sincero agradecimento.

Ressalto aqui que a Casa Cultural Mário Quintana, além do quarto do poeta, tem diversas outras atrações relacionadas a teatro, música, cinema, dança, etc., que mantém o lugar bem vivo. Vale a pena um passeio demorado pelos andares do antigo hotel. Uma grata surpresa foi encontrar um espaço dedicado à Elis Regina, com documentos e materiais sobre a vida e obra da cantora.





Deixo a sugestão do passeio aqui aos que visitarem Porto Alegre. E junto à sugestão, como já é hábito no “Outras Cozinhas”, três poemas do escritor.

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Tão linda e serena e bela

Tão lenta e serena e bela e majestosa
[vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural e simples como a primeira canção
A vaca, se cantasse,
Que cantaria?
Nada de óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito,
A longa, misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de superaviões, tratores, êmbolos
E outros truques mecânicos!

Nenhum comentário:

Postar um comentário