Depois de visitar a casa de
Guimarães Rosa, em Cordisburgo - MG, gostei da experiência de levar o “Outras Cozinhas” um pouco
além da cozinha. Desta vez fiz uma rápida visita à Casa de Cultura Mário
Quintana, onde se encontra uma reconstrução fiel do quarto do poeta gaúcho. O
quarto pertencia ao antigo Hotel Majestic, no qual Quintana foi morador por
diversos períodos entre os anos de 1968 e 1980. O poeta foi um dos últimos
hóspedes a deixar o hotel.
Reconstruído com móveis e objetos
pessoais do escritor, o quarto á uma atração para ser admirada com calma. O
ambiente ali montado torna todos um pouco mais íntimos do poeta e sua obra. Penso que foi ali que escreveu grande parte de seus poemas, os quais estão hoje no meu e tanto outros quartos pelo mundo. Visitar o lugar foi como ter uma conversa silenciosa com Quintana. Na minha conversa não consegui dizer muita coisa. Foi mais um silencioso e sincero agradecimento.
Ressalto aqui que a Casa Cultural
Mário Quintana, além do quarto do poeta, tem diversas outras atrações
relacionadas a teatro, música, cinema, dança, etc., que mantém o lugar bem vivo.
Vale a pena um passeio demorado pelos andares do antigo hotel. Uma grata surpresa
foi encontrar um espaço dedicado à Elis Regina, com documentos e materiais sobre
a vida e obra da cantora.
Deixo a sugestão do passeio aqui
aos que visitarem Porto Alegre. E junto à sugestão, como já é hábito no “Outras
Cozinhas”, três poemas do escritor.
A Rua dos
Cataventos
Da vez
primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito
de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada
vez que me mataram,
Foram levando
qualquer coisa minha.
Hoje, dos meus
cadáveres eu sou
O mais
desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco
de Vela amarelada,
Como único bem
que me ficou.
Vinde! Corvos,
chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão
avaramente adunca
Não haverão de
arrancar a luz sagrada!
Aves da noite!
Asas do horror! Voejai!
Que a luz
trêmula e triste como um ai,
A luz de um
morto não se apaga nunca!
Emergência
Quem faz um
poema abre uma janela.
Respira, tu
que estás numa cela
abafada,
esse ar que
entra por ela.
Por isso é que
os poemas têm ritmo —
para que
possas profundamente respirar.
Quem faz um
poema salva um afogado.
Tão linda e
serena e bela
Tão lenta e
serena e bela e majestosa
[vai passando
a vaca
Que, se fora
na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural
e simples como a primeira canção
A vaca, se
cantasse,
Que cantaria?
Nada de
óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o
gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente
do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o
cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando
muito,
A longa,
misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de
superaviões, tratores, êmbolos
E outros
truques mecânicos!
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