Ismália (Alphonsus de Guimaraens)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Adília Lopes (José Tolentino Mendonça)
Chamo-me Adília Lopes
Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo
sou a verdade que prefere não sair
do bairro
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo
sou a verdade que prefere não sair
do bairro
Poeminha sentimental (Mario Quintana)
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
Roteiro (Sidónio Muralha)
Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.
Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.
Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.
E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.
Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.
Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.
Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.
E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.
A Balada do Desesperado (Henry Murger)
Tradução de Castro Alves.
— Quem bate à porta a tais horas?
— Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.
— Abre. — Teu nome? — Há geada,
Abre. Teu nome? — És tardio!
Qual é teu nome? — Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.
Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me — Inda não!
Diz teu nome... — Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
— Passa fantasma irrisório...
— Ó dá-me hospitalidade!
Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
— Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!
— Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! — Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...
— Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
— Posso dar-te a tua amante...
— Podes dar-me o seu amor?
— Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! — Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!
— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!
Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.
— Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.
Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!
Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás de levar-me aos teus lares.
Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!
Tradução de Castro Alves.
— Quem bate à porta a tais horas?
— Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.
— Abre. — Teu nome? — Há geada,
Abre. Teu nome? — És tardio!
Qual é teu nome? — Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.
Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me — Inda não!
Diz teu nome... — Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
— Passa fantasma irrisório...
— Ó dá-me hospitalidade!
Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
— Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!
— Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! — Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...
— Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
— Posso dar-te a tua amante...
— Podes dar-me o seu amor?
— Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! — Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!
— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!
Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.
— Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.
Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!
Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás de levar-me aos teus lares.
Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!
Máquina breve (Cecilia Meireles)
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
O cavalo e a nuvem (Mikhaíl Rêndjov)
Veio com um ladrão subterrâneo a galope
relinchando à noite arrancando as flores
anunciou tempestades e ataques
lançou enxames sobre as estrelas
E retornou à sua nuvem
Veio com um ladrão subterrâneo a galope
trazendo desconhecidos exércitos encouraçados
pisoteou as almas com os cascos de bronze
anunciou mortes e secas
E retornou à sua nuvem
Por fim rebelou-me os olhos dentro das órbitas
fez-me ranger os ossos
atiçou gralhas sobre os corvos
ensanguentou trombetas e tambores
E retornou à sua nuvem
Veio com um ladrão subterrâneo a galope
relinchando à noite arrancando as flores
anunciou tempestades e ataques
lançou enxames sobre as estrelas
E retornou à sua nuvem
Veio com um ladrão subterrâneo a galope
trazendo desconhecidos exércitos encouraçados
pisoteou as almas com os cascos de bronze
anunciou mortes e secas
E retornou à sua nuvem
Por fim rebelou-me os olhos dentro das órbitas
fez-me ranger os ossos
atiçou gralhas sobre os corvos
ensanguentou trombetas e tambores
E retornou à sua nuvem
Soneto (Théophile de Viau)
Eu sonhei que Philis do inferno retornava,
Tão bela quanto foi à clara luz do dia;
Que eu lhe fizesse amor seu fantasma queria,
Sentindo como Ixion, que uma nuvem abraçava.
Toda nua em meu leito a sombra se espojava;
“Caro Dâmon, estou de volta” – me dizia;
“Vê como embelezei na triste moradia
Onde, depois que foste, a Sorte me trancava.
Quero outra vez beijar meu amante perfeito;
E de novo morrer no espasmo de teu leito!”
E então, tendo esgotado o meu ardor, em calma,
Me disse: “Volto à Morte. Adeus! Tens-te exibido
Por haveres, em vida o meu corpo fodido:
Vais agora dizer que fodeste a minha alma.”
Eu sonhei que Philis do inferno retornava,
Tão bela quanto foi à clara luz do dia;
Que eu lhe fizesse amor seu fantasma queria,
Sentindo como Ixion, que uma nuvem abraçava.
Toda nua em meu leito a sombra se espojava;
“Caro Dâmon, estou de volta” – me dizia;
“Vê como embelezei na triste moradia
Onde, depois que foste, a Sorte me trancava.
Quero outra vez beijar meu amante perfeito;
E de novo morrer no espasmo de teu leito!”
E então, tendo esgotado o meu ardor, em calma,
Me disse: “Volto à Morte. Adeus! Tens-te exibido
Por haveres, em vida o meu corpo fodido:
Vais agora dizer que fodeste a minha alma.”
Evolução (Adelaide Petters Lessa)
Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.
Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.
Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.
Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.
A menina e a flor (Denis Mattos)
(Para Ana Clara e Júlia)
De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.
De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.
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