sábado, 21 de janeiro de 2017

Obrigado, Thiago de Mello!


Para abrir oficialmente 2017 no blog, escolhi servir em nossa mesa um prato para lá de saboroso. Trata-se de um trabalho de doze anos do grande poeta da floresta, Thiago de Mello, que selecionou e traduziu poemas e " Poetas da América de Canto Castelhano". Uma antologia, lançada em 2011, de uma importância imensurável para nossa literatura, uma vez que nos apresenta  de um cenário literário tão próximo, em vários sentidos,  mas afastado até então pela língua. Passando pela Argentina, Colômbia, Guatemala, Porto Rico e tantos outros países, a poesia latino-americana é exposta em suas formas mais belas e delicadas. Um livro necessário!

Junto-me a Roberto Fernández Retamar, que faz uma breve introdução do livro, para agradecer de coração a Thiago de Mello por esta obra, por este gesto magnífico. 

Compartilho aqui três poemas que selecionei do livro:

Para falar com os mortos (Jorge Teillier - Chile)

Para falar com os mortos
há que escolher as palavras
que eles reconheçam tão facilmente
como suas mãos
reconheciam o pelo de seus cães na escuridão.
Palavras claras e tranquilas
como a água da torrente domesticada na copa
ou as cadeiras arrumadas pela mãe
depois que os convidados se foram.
Palavras que a noite acolha
como os pântanos e os fogos-fátuos.

Para falar com os mortos
há que saber esperar:
todos são medrosos
como os primeiros passos de uma criança.
Mas se tiveres paciência
um dia nos responderão
com uma folha de álamo presa por um espelho
quebrado,
com uma chama de súbito reanimada na lareira,
com um regresso escuro de pássaros
defronte do olhar de uma moça
que aguarda imóvel no umbral.


Palavra não pode ser algo tão fácil (María Montero - Costa Rica)

A palavra não pode ser algo tão fácil. 
Tem que haver algo menos que sangue para dizer sangue, 
talvez músculo na sombra, ventre liso e maldito. 

Não tão fácil como casa ou serpente. Não tão 
anunciado como mulher. 

Algo menos que filho para dizer filho.Talvez língua, infâmia, peste fraguada
na cegueira. 
A palavra não pode ser algo. 

Não tão fácil a menos que fira. Não tão anunciado como a morte. Talvez 
pedra para dizer talvez. 
  
A palavra não pode ser algo tão fácil. Tem que haver algo menos que ódio 
para dizer ódio. Talvez ruínas, escombros no corpo. 

Não tão fácil como sede ou proveta. Não tão 
anunciado como fera. 

Algo menos que amor para dizer amor. Pelo que mais queiram, talvez fosso, grasnido, ferro distante. 
Não pode ser algo a palavra. 

Não tão fácil diante dos outros. Não tão anunciado,
a menos que morda. Talvez silêncio para dizer nada. 

Uma palavra a menos obriga a mais. 
A palavra não pode ser. Não se desemboca. Não 
contra ela.


O ofício de viver (María Mercedes Carranza - Colômbia)

Eis que chego à velhice 
e ninguém nem nada 
me conseguiu dizer 
para que sirvo. 
Some você
ofícios, vocações, missões é predestinações:
Não é que me aborreça, 
é que para nada sirvo.
Ensaio profissões,
que vão desde cozinheira, mãe e poeta 
até contabilista de estrelas. 
De repente quisera ser cebola 
para esquecer obrigações 
ou árvore para cumprir todas elas.
Sem embargo mais fácil 
é que confesse a verdade.
Sirvo para ofícios em desuso:
Espírito Santo, dama de companhia, Estátua da Liberdade, Arquipestre de Hita.
Para nada sirvo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Haikais de Alice Ruiz

Pessoal, estou passando aqui para compartilhar um pouco de alguns haikais da escritora Alice Ruiz. Quando falei dos Rubayat de Omar Khayyam, há algumas postagens atrás, mencionei também breviamente os haikais e o mundo de sentidos condensado nesses pequenos versos. Mas prefiro deixar aqui um trecho da própria Alice Ruiz apresentando sua poesia. Informo que tanto o trecho quanto os haikais apresentados a seguir foram retirados de seu livro "Outro silêncio".



O haikai é uma forma poética que tem repercussão cada vez maior no Brasil, desde que ele chegou, em 1908, no navio Kasato Maru, ao porto de Santos, com a primeira leva de imigrantes vinda do Japão, sua terra de origem.

Muito da cultura japonesa, a começar pela escrita, nasceu na China. O haikai não, ele é fruto autêntico da Terra do Sol Nascente. Os próprios chineses deram o nome de Waka a essa poética. Significa “poesia do país de Wa”, que é como eles chamavam o Japão: Wa (“Japão”) ka (“poesia”).

Quando se aprende outra língua, também se aprende outra forma de pensar e até de sentir. Quando se aprende outra escrita, se aprende outra forma de estar no mundo. Quando se aprende uma forma poética distinta da nossa, se aprende outra forma de ser. E, se isso não vale para todas as formas poéticas, com certeza vale para o haikai. (...) 

(Alice Ruiz)


silêncio na mata
a mariposa pousa na flor
outro silêncio


noite de chuva
horas esperando
que o raio volte


vespa no vidro
sobe, cai, volta a subir
por toda a viagem.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Outras Cozinhas - Eduardo Galeano

Hoje o Outras Cozinhas faz uma visita aos escritos do jornalista e escritor Eduardo Galeano, mais especificamente ao seu belo "O livro dos abraços". Sem tecer muitos comentários sobre o livro, ressalto apenas que é uma daquelas obras de rara sensibilidade e que vale a pena ser lida e relida algumas vezes. Deixo aqui a sugestão!

A função da arte - 1

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- ‘Me ajuda a olhar!’


Celebração da voz humana - 1

Os índios Shuar, chamados de Jíbaros, cortam a cabeça do vencido. Cortam e reduzem, até que caiba, encolhida, na mão do vencedor, para que o vencido não ressuscite. Mas o vencido não está totalmente vencido até que fechem sua boca. Por isso os índios costuram seus lábios com uma fibra que não apodrece jamais.


O crime perfeito

Em Londres, é assim: os aquecedores devolvem calor a troco das moedas que recebem. Em pleno inverno alguns exilados latino-americanos britavam de frio, sem nenhuma moeda para fazer funcionar a calefação de seu quarto.

Estavam com os olhos grudados no aquecedor, sem piscar. Pareciam devotos perante o totem, em atitude de adoração; mas eram uns pobres náufragos meditando sobre a maneira de acabar com o Império Britânico. Se pusessem moedas de lata ou papelão, o aquecedor funcionaria, mas o arrecadador encontraria as provas da infâmia.

O que fazer? Se perguntavam os exilados. O frio os fazia tremer como se estivessem com malária. E nisso, um deles lançou um grito selvagem, que sacudiu os alicerces da civilização ocidental. E assim nasceu a moeda de gelo, inventada por um pobre homem gelado.

Imediatamente, puseram mãos a obra. Fizeram moldes de cera, que reproduziam perfeitamente as moedas britânicas; depois encheram os moldes de água e os meteram no congelador.

As moedas de gelo não deixavam pistas, porque o calor as evaporava.

E assim aquele apartamento de Londres converteu-se numa praia do mar Caribe.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Um dicionário que vale a pena...

Em 2010, publicando meus primeiros versos, escrevi um poema um tanto quanto revoltado com os dicionários. Na ocasião, comparei o dicionário a uma prisão, a um livro que assassinava as palavras. De lá pra cá, creio não ter mudado minhas considerações a respeito. Mas nesse período tive a oportunidade de conhecer um dicionário um pouco diferente, que ao invés de aprisionar e matar as palavras, dava-lhes vida e liberdade...

Acredito piamente que o ninho da poesia é a infância. Sendo assim, um dicionário que nascesse das bocas das crianças talvez permitisse que as palavras continuassem vivas, livres para serem lidas em versos, em canções ou em pensamentos silenciosos - que continuassem sendo palavras! E talvez almejando tal façanha, foi que Javier Naranjo idealizou e organizou o Casa das estrelas - O universo contado pelas crianças. Um trabalho incrível e encantador - um dicionário poético, onde cada verbete foi colhido atenciosamente junto a várias crianças de variadas idades e vivências. Desde que conheci o livro, este tem sido meu único e inseparável dicionário. Um dicionário que vale a pena... para não dizer vital.
“Em lábios de crianças, loucos, sábios apaixonados ou solitários, brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada… Feitas de matéria inflamáveis, as palavras se incendeiam assim que as roçam a imaginação ou a fantasia”– Octavio Paz

Abaixo, transcrevo alguns dos verbetes:

Água: transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)

Amor: o que cada coração reúne para dar a alguém. (Lina María Murillo, 10 anos)

Casal: é onde os pássaros se metem. (Diejo Alejandro Tabares, 8 anos)

Deus: é o amor com cabelos grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Espírito: é uma nuvem que cai do céu, e que chega e brinca com um carrinho. (David Hidalgo Ramírez, 6 anos)

Igreja: onde as pessoas vão perdoar Deus. (Natália Bueno, 7 anos).

Mistério: quando minha mamãe sai e não me diz pra onde (Glória María Hidalgo, 10 anos)

Palavra: onde as pombas se escondem (León Afonso Pava, 11 anos)

Pessoa: é uma coisa sentimental. (Lina Marcela Sanchéz, 7 anos)

Violência: se fizerem violência no país, eu vou embora. (Yeny Andrea Rodríguez, 8 anos)



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Outras Cozinhas - O quarto de Quintana

Depois de visitar a casa de Guimarães Rosa, em Cordisburgo - MG, gostei da experiência de levar o “Outras Cozinhas” um pouco além da cozinha. Desta vez fiz uma rápida visita à Casa de Cultura Mário Quintana, onde se encontra uma reconstrução fiel do quarto do poeta gaúcho. O quarto pertencia ao antigo Hotel Majestic, no qual Quintana foi morador por diversos períodos entre os anos de 1968 e 1980. O poeta foi um dos últimos hóspedes a deixar o hotel.

Reconstruído com móveis e objetos pessoais do escritor, o quarto á uma atração para ser admirada com calma. O ambiente ali montado torna todos um pouco mais íntimos do poeta e sua obra. Penso que foi ali que escreveu grande parte de seus poemas, os quais estão hoje no meu e tanto outros quartos pelo mundo. Visitar o lugar foi como ter uma conversa silenciosa com Quintana. Na minha conversa não consegui dizer muita coisa. Foi mais um silencioso e sincero agradecimento.

Ressalto aqui que a Casa Cultural Mário Quintana, além do quarto do poeta, tem diversas outras atrações relacionadas a teatro, música, cinema, dança, etc., que mantém o lugar bem vivo. Vale a pena um passeio demorado pelos andares do antigo hotel. Uma grata surpresa foi encontrar um espaço dedicado à Elis Regina, com documentos e materiais sobre a vida e obra da cantora.





Deixo a sugestão do passeio aqui aos que visitarem Porto Alegre. E junto à sugestão, como já é hábito no “Outras Cozinhas”, três poemas do escritor.

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Tão linda e serena e bela

Tão lenta e serena e bela e majestosa
[vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural e simples como a primeira canção
A vaca, se cantasse,
Que cantaria?
Nada de óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito,
A longa, misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de superaviões, tratores, êmbolos
E outros truques mecânicos!

sábado, 21 de maio de 2016

Rubaiyat

Rubaiyat – plural de rubai. Quadras poéticas consagradas pelo poeta persa Omar Khayyam (1048-1131). E Rubaiyat foi o nome dado por Edward Fitzgerald a uma seleção de poemas de Omar, quando o inglês os traduziu pela primeira vez. Em sua tradução, Fitzgerald conseguiu manter a estrutura original dos versos (1º, 2º e 4º versos com a mesma rima e o 3º branco, ou seja, sem rima). Desde então outras traduções foram feitas, em diversas línguas (como a portuguesa) – algumas conseguindo manter a estrutura e aproximar do sentido original, outras nem tanto. Fato é que, traduções a parte, os rubaiyat de Omar ratificam a força de condensação que as línguas e poesias Orientais possuem e que as Ocidentais ainda têm muito o que aprender.

Nesta semana, graças aos bons e velhos sebos, um belo exemplar em português do Rubaiyat de Omar Khayyam chegou às minhas mãos. Já o devorei como uma pessoa que estivesse há dias sem comer e de repente fosse colocado um banquete imenso à sua frente.  Mas pretendo ler novamente, outras tantas vezes. Não é possível saborear devidamente os rubaiyat de Omar com tanta pressa. A poesia ali condensada precisa ser degustada aos pouquinhos, com calma. Um rubai, um haikai, um gazal , podem conter um mundo de sentidos, de “especiarias”, os quais um leitor apressado jamais será capaz de apreciar.

Tratando-se especificamente da obra de Omar, há várias discussões e interpretações sobre os sentidos de seus versos, sobre o significado de algumas expressões, sobre a essência de sua obra. Longe de entrar nessas discussões, gostaria de compartilhar aqui alguns rubaiayt que me foram mais saborosos. Ressalto que a tradução que tenho em mãos é de Jamil Almansur Haddad e, de maneira geral, não foi mantida a estrutura original dos versos mencionada anteriormente.

A Tulipa não vês que, na hora matinal,
Absorve da atmosfera o Vinho celestial?
Faze com crença o mesmo até que o Céu um dia
Te inverta para o Chão, feito ânfora vazia.


Eu minha Alma enviei para o espaço sem fim
para um Traço apreender do Mistério do Além.
Minha Alma devagar foi retornando a mim
E disse: “Eu sou o Céu e o Inferno também.”


Dispõe o Eterno Escriba. E havendo escrito,
A folha vira: e não há ciência ou devoção
Que cancele uma Linha; e não há pranto aflito
Que risque uma Palavra! Ah, todo choro é vão!


As esperanças vãs do Coração de um Homem
Ora são cinza, ora Esplendor, porém, em breve,
Como por sobre o pó dos Desertos a Neve,
Brilham somente uma hora ou duas e após somem.


Tanto ao homem que o seu HOJE prepara,
Como ao que no AMANHÃ incerto pensa,
Da Torre negra um Muezim gritara:
“Tolos! Nem cá nem lá há recompensa!”


Tuas cogitações, murmura a Multidão,
O Ano reduzirão a melhor curso? Não.
Um aviso somente o calendário deu:
“– O ontem já se extinguiu e o Amanhã não nasceu."


O mistério indaguei do Ser e do Não ser
E fui investigar não sei quanta grandeza.
De quanta cousa enfim eu procurei saber
Só no vinho encontrei alguma profundeza.

sábado, 7 de maio de 2016

Outras Cozinhas - João Guimarães Rosa

Hoje o “Outras Cozinhas” faz uma visita a Guimarães Rosa. Mas desta vez não ficamos limitados à cozinha, visitamos a casa inteira. Tive a oportunidade de conhecer há algumas semanas a simpática e encantadora de Cordisburgo-MG, terra natal do escritor e berço de muitas de suas histórias e personagens. Entre as várias atrações que a cidade oferece (Gruta de Maquiné, Portal Grande Sertão, Zoológico de Pedra, Empório do Brasinha – Projeto Recordanças...) está o Museu Casa Guimarães Rosa.
Visitar o museu é um mergulho na vida e obra do escritor. Lá é possível conhecer um pouco da infância de João, ver fotografias de sua família, de seus amigos que o inspiraram, sua elegante coleção de gravatas borboletas, o sacro quarto de sua avó, manuscritos, etc... É encantador. Não posso deixar de ressaltar os guias do museu – jovens do projeto Miguelim que tornam a visita mais agradável e enriquecedora, além de nos presentar com declamações de trechos dos contos de Guimarães Rosa.

Por isso deixo aqui a sugestão de visita ao Museu Casa Guimarães Rosa. Não só ao museu, mas à cidade de Cordisburgo. As pessoas de lá sabem ser acolhedoras e mantém viva a memória do Cordisburguense João. Ali Guimarães Rosa ainda passeia. Ali pulsa o Sertão.




Trecho do Grande Sertão: Veredas

“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isto que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas: mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei – “Amanhã eu tiro ...” – falei, comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido corroído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo – por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí esta:  Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...”