Junto-me a Roberto Fernández Retamar, que faz uma breve introdução do livro, para agradecer de coração a Thiago de Mello por esta obra, por este gesto magnífico.
Compartilho aqui três poemas que selecionei do livro:
Para falar com os mortos (Jorge Teillier - Chile)
Para falar com os mortos
há que escolher as palavras
que eles reconheçam tão facilmente
como suas mãos
reconheciam o pelo de seus cães na escuridão.
Palavras claras e tranquilas
como a água da torrente domesticada na copa
ou as cadeiras arrumadas pela mãe
depois que os convidados se foram.
Palavras que a noite acolha
há que escolher as palavras
que eles reconheçam tão facilmente
como suas mãos
reconheciam o pelo de seus cães na escuridão.
Palavras claras e tranquilas
como a água da torrente domesticada na copa
ou as cadeiras arrumadas pela mãe
depois que os convidados se foram.
Palavras que a noite acolha
como os pântanos e os fogos-fátuos.
Para falar com os mortos
há que saber esperar:
todos são medrosos
como os primeiros passos de uma criança.
Mas se tiveres paciência
um dia nos responderão
com uma folha de álamo presa por um espelho
quebrado,
com uma chama de súbito reanimada na lareira,
com um regresso escuro de pássaros
defronte do olhar de uma moça
que aguarda imóvel no umbral.
Para falar com os mortos
há que saber esperar:
todos são medrosos
como os primeiros passos de uma criança.
Mas se tiveres paciência
um dia nos responderão
com uma folha de álamo presa por um espelho
quebrado,
com uma chama de súbito reanimada na lareira,
com um regresso escuro de pássaros
defronte do olhar de uma moça
que aguarda imóvel no umbral.
Palavra não pode ser algo tão fácil (María Montero - Costa Rica)
A palavra não pode ser algo tão fácil.
Tem que haver algo menos que sangue para dizer sangue,
talvez músculo na sombra, ventre liso e maldito.
Não tão fácil como casa ou serpente. Não tão
anunciado como mulher.
Algo menos que filho para dizer filho.Talvez língua, infâmia, peste fraguada
na cegueira.
A palavra não pode ser algo.
Não tão fácil a menos que fira. Não tão anunciado como a morte. Talvez
pedra para dizer talvez.
A palavra não pode ser algo tão fácil. Tem que haver algo menos que ódio
para dizer ódio. Talvez ruínas, escombros no corpo.
Não tão fácil como sede ou proveta. Não tão
anunciado como fera.
Algo menos que amor para dizer amor. Pelo que mais queiram, talvez fosso, grasnido, ferro distante.
Não pode ser algo a palavra.
Não tão fácil diante dos outros. Não tão anunciado,
a menos que morda. Talvez silêncio para dizer nada.
Uma palavra a menos obriga a mais.
A palavra não pode ser. Não se desemboca. Não
contra ela.
O ofício de viver (María Mercedes Carranza - Colômbia)
Eis que chego à velhice
e ninguém nem nada
me conseguiu dizer
para que sirvo.
Some você
ofícios, vocações, missões é predestinações:
Não é que me aborreça,
é que para nada sirvo.
Ensaio profissões,
que vão desde cozinheira, mãe e poeta
até contabilista de estrelas.
De repente quisera ser cebola
para esquecer obrigações
ou árvore para cumprir todas elas.
Sem embargo mais fácil
é que confesse a verdade.
Sirvo para ofícios em desuso:
Espírito Santo, dama de companhia, Estátua da Liberdade, Arquipestre de Hita.
Para nada sirvo.

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