Mais uns poeminhas do livro "O poeta e o pano"...
PREFÁCIO
(Para a Luja)
Vai passando o longo inverno enfim, pequena!
O frio cede ante ao frêmito do novo,
começa a vida a renovar as suas penas,
despe o mundo do seu vestido de corvo.
Eis que tudo reaprende a ordem inata!
Até meu corpo, acostumado a teu calor,
afasta-se, estica-se e então a ti reata!
Quer agora reaprender o teu frescor.
Mas não careço para alegrar, pequena,
dos espectros das margaridas, dos lírios,
das begônias, das rosas, das açucenas.
Já bem sei o grande jardim que nos espera.
Quando vi, amor, esses seus olhinhos lindos,
vi também um prefácio da primavera.
A MENINA E A FLOR
(Para Ana Clara e Júlia)
De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.
HINO DOS POETAS DO DESERTO
Maldigo esse fado sedutor e traiçoeiro!
Iludido eu canto a minha perdição.
Regastes de versos as minhas mãos,
mas peço, ó deuses, dai-me ouvido:
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!
Ao cantar o céu, não mais sou sincero.
Os hinos que canto colhi no deserto.
Não vi uma ninfa sem hienas por perto.
De que vale o mel sem o pão prometido?
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!
Cada vil miragem esculpi com esmero,
sem ver que os oásis eram de areia.
Eu vi seguir-me uma sombra alheia
com mãos amputadas e peito ferido.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!
Dai-me o castigo que tanto quero!
Tomai-me as palavras, a tinta, o canto!
Tornarei potável meu próprio pranto
e farei poemas juntando gemidos.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!
Só o amor, só amor faz sentido
a um poeta cansado de rimas,
de metrificar em vão sua sina.
Dai-me! Dai-me o que tanto quero!
Ou arrancarei as penas do Cupido
e matarei à flechada Homero!
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Dois coração
Perguntaram-me: o que rima melhor com coração? Respondi na lata: coração. Acho que não fui levado muito a sério.
Se analisarmos ortograficamente é uma rima perfeita. Mas acho que a pessoa queria algo do tipo “algodão”, “lamentação”, “corrupião” ou talvez eu tenha me expressado mal. Esqueci de dizer que era “outro coração” e não o mesmo. Pois nada rima melhor com um coração do que “outro coração”. E nada de pôr no plural! Lembro-me que certa vez, aventurando-me a compor uma canção, escrevi: “Coração não tem plural. Um é pouco, dois é um, três é de mãe”...
Se analisarmos ortograficamente é uma rima perfeita. Mas acho que a pessoa queria algo do tipo “algodão”, “lamentação”, “corrupião” ou talvez eu tenha me expressado mal. Esqueci de dizer que era “outro coração” e não o mesmo. Pois nada rima melhor com um coração do que “outro coração”. E nada de pôr no plural! Lembro-me que certa vez, aventurando-me a compor uma canção, escrevi: “Coração não tem plural. Um é pouco, dois é um, três é de mãe”...
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Poesia de papel
Queria que todas as vezes
que eu escrevesse,
minhas palavras tocassem o mínimo
possível no papel.
É preciso conservar nele sua leveza,
sua fragrância de céu.
Queria escrever poemas
que só andassem nas pontas dos pés,
com palavras bailarinas.
É preciso conservar na folha
o seu jeito de menina.
Delicada. Sem uma só dobrinha.
Mas sou rude,
não sei cortejar a folha com palavras
e acabo sempre recorrendo
às flores...
que eu escrevesse,
minhas palavras tocassem o mínimo
possível no papel.
É preciso conservar nele sua leveza,
sua fragrância de céu.
Queria escrever poemas
que só andassem nas pontas dos pés,
com palavras bailarinas.
É preciso conservar na folha
o seu jeito de menina.
Delicada. Sem uma só dobrinha.
Mas sou rude,
não sei cortejar a folha com palavras
e acabo sempre recorrendo
às flores...
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Da imprecisão dos relógios
Nada é tão impreciso quanto os relógios. Relógios não sabem nada do tempo. Não sabem quando iremos rever um velho amigo. Não sabem quando vamos morrer de rir ou morrer de verdade. Não sabem quanto durará meu próximo beijo ou meu próximo abraço. Não sabem cronometrar saudade. Não levam em consideração o trânsito. Não sabem dar um tempo quando estamos em paz. Julgam-se sempre certos e seguem sempre em frente. Gostam de apontar para as horas, minutos, segundos, mas mal sabem apontar para o céu (os poucos que ousaram a isso e a guiarem-se pelo sol já estão quase extintos, perderam-se no tempo, ou em outras palavras, provaram do próprio veneno). Relógios odeiam surpresas e acho que sequer foram inventados no mundo dos sonhos.
Relógios pensam que sabe do tempo, mas não sabem. Eu mesmo tinha um que até bem pouco tempo atrás acreditava que eu acordava às 7:00...
Relógios pensam que sabe do tempo, mas não sabem. Eu mesmo tinha um que até bem pouco tempo atrás acreditava que eu acordava às 7:00...
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Outras cozinhas (o vaga-lume, as abelhas e o galo)
Máquina breve (Cecilia Meireles)
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
A chegada da caixa de abelhas (Sylvia Plath)
Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.
Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.
Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.
Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu Deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.
Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária.
Tecendo a manhã (João Cabral de Melo Neto)
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
A chegada da caixa de abelhas (Sylvia Plath)
Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.
Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.
Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.
Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu Deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.
Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária.
Tecendo a manhã (João Cabral de Melo Neto)
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Meu horizonte perdido
Resolvi reler Horizonte Perdido, de James Hilton. Não sei se lá em 1933 o autor imaginava que estava criando uma das maiores utopias do homem contemporâneo: encontrar Shangri-la. Quem, ao ler o livro, não deseja estar ali com Conway e seus companheiros naquele escondido paraíso terrestre? Na realidade, acho que muitos já até tentaram, através do livro, encontrar pistas do caminho para Shangri-la. Mas a grande verdade é que, independente dos anseios por Shangri-la, Horizonte Perdido é um belíssimo romance.
Eu também pretendo um dia escrever romances. Não sei quando e não faço idéia do tema. Talvez crie meu próprio paraíso escondido. Ainda não sei. A única coisa certa é que, se houver uma expedição, já tenho um pequeno trecho pronto:
... E a manhã vinha chegando como uma última integrante da expedição, carregando todo o peso do qual tentamos nos desfazer na madrugada, durante nossas poucas horas de sono. E a noite partira em silêncio. Guardara todas as estrelas silenciosamente em sua mochila e seguira o caminho sem despertar o grupo, talvez levando consigo a esperança de nos rever mais adiante. E quanto a nós, ainda mal conseguíamos nos mover. Nossos corpos queriam continuar ali, imóveis, como parte inerte daquele belo e hostil cenário de rochas e abismos. Mas até o assobio agudo de um solitário sovi parecia nos alertar de que era preciso seguir. Com muita relutância deixamos então de ser rochas para voltarmos a ser abismos. Prosseguimos com a expedição...
Eu também pretendo um dia escrever romances. Não sei quando e não faço idéia do tema. Talvez crie meu próprio paraíso escondido. Ainda não sei. A única coisa certa é que, se houver uma expedição, já tenho um pequeno trecho pronto:
... E a manhã vinha chegando como uma última integrante da expedição, carregando todo o peso do qual tentamos nos desfazer na madrugada, durante nossas poucas horas de sono. E a noite partira em silêncio. Guardara todas as estrelas silenciosamente em sua mochila e seguira o caminho sem despertar o grupo, talvez levando consigo a esperança de nos rever mais adiante. E quanto a nós, ainda mal conseguíamos nos mover. Nossos corpos queriam continuar ali, imóveis, como parte inerte daquele belo e hostil cenário de rochas e abismos. Mas até o assobio agudo de um solitário sovi parecia nos alertar de que era preciso seguir. Com muita relutância deixamos então de ser rochas para voltarmos a ser abismos. Prosseguimos com a expedição...
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Retalhos do Pano
Três poemas do livro "O poeta e o pano"...
DE ASTROS
(Para Luja)
Saí do teu quarto atônito, mudado.
Como se eu ou o velho mundo fosse outro.
Com a vida condensada num estado
entre sonhos e relâmpagos de ouro.
Senti-me envolto a uma áurea de gigante,
alheio a tudo que não fosse ente celeste.
Já não lembrava como a vida era antes,
se o silêncio foste tu que compuseste.
E se me perguntas para onde eu fui,
por quais caminhos rabisquei meu rastro
de felicidade e passos azuis,
eu mal me lembro dos nomes das ruas.
Só sei que saí de lá falando de astros
e com um leve sotaque da lua.
MODA PASSAGEIRA
Meus planos são sempre absurdos...
Não para mim, mas para os outros.
Já quis voar em bando com anjos misantropos.
Já quis barganhar meus olhos
por um saquinho de jabuticabas.
Já quis viver no escuro e andar
tranquilamente com meu coração pelado.
E quem diria?! Já quis até ser
eu mesmo num dia de chuva!
Moda passageira... Todos os planos passaram...
Restam-me algumas maquetes velhas do céu.
Mas hoje sou apenas
mais um ser ocioso e sem planos.
E para passar o tempo,
ando por aí me embebedando
com os beija-flores.
SINTOMAS
Meus poemas cheiram a café.
Meus versos têm disritmia .
Queria um coração
só para fazer poesia!
DE ASTROS
(Para Luja)
Saí do teu quarto atônito, mudado.
Como se eu ou o velho mundo fosse outro.
Com a vida condensada num estado
entre sonhos e relâmpagos de ouro.
Senti-me envolto a uma áurea de gigante,
alheio a tudo que não fosse ente celeste.
Já não lembrava como a vida era antes,
se o silêncio foste tu que compuseste.
E se me perguntas para onde eu fui,
por quais caminhos rabisquei meu rastro
de felicidade e passos azuis,
eu mal me lembro dos nomes das ruas.
Só sei que saí de lá falando de astros
e com um leve sotaque da lua.
MODA PASSAGEIRA
Meus planos são sempre absurdos...
Não para mim, mas para os outros.
Já quis voar em bando com anjos misantropos.
Já quis barganhar meus olhos
por um saquinho de jabuticabas.
Já quis viver no escuro e andar
tranquilamente com meu coração pelado.
E quem diria?! Já quis até ser
eu mesmo num dia de chuva!
Moda passageira... Todos os planos passaram...
Restam-me algumas maquetes velhas do céu.
Mas hoje sou apenas
mais um ser ocioso e sem planos.
E para passar o tempo,
ando por aí me embebedando
com os beija-flores.
SINTOMAS
Meus poemas cheiram a café.
Meus versos têm disritmia .
Queria um coração
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