quinta-feira, 27 de março de 2014

Parábola da Revolução

Sirvo aqui mais um poema do livro "Parábolas de Quintal"...


Parábola da Revolução

Sob o zênite dos varais
Confabulavam crianças e
pardais...

I

Eram precisos novos planos, novas estratégias:
“Uma ideia:
Tramar a teia da aranha
Com os pés da centopeia!”

Mas o reino era bem cercado por chinelos e giz:
“O céu é um caminho por onde não passa chão.”

O caminho traçado, a jornada era longa:
“Cruzar muros, janelas, árvores e rios
Até que os olhos encontrem
Uma garça para descansarem!”

Que as cigarras e campainhas anunciem a Revolução!

II

“... há de se fazer um ninho para os rios
Em cada galho do sol,
E pendurar no horizonte mais firme
Um balanço
Onde caibam ao mesmo tempo
As quatro estações,
As canções e o silêncio,
Os dedos dos pés e das mãos,
Uma bacia de jabuticabas
E as palavras em desuso.
E que, no mínimo, duas ou três
Estrelas fiquem ali jogadas
Junto às raízes dos sonhos,
Ao alcance das mãos.”

[Trecho extraído do
Pergaminho dos cupins e mariposas]

sexta-feira, 21 de março de 2014

A noite em que a lua desapareceu (repostagem)



Era para ser lua cheia, porém naquela noite a lua não nasceu. Mas poucos perceberam que não tinha lua e, em muitos lugares, o céu estava bastante nublado.

Os dias foram passando e a lua continuava sem aparecer. Os primeiros a sentirem falta da lua foram os amantes, os poetas, os mendigos, os cachorros vadios e as marés. Mas logo todos já comentavam que a lua desaparecera. Há dias que o céu ao anoitecer era somente estrelas e mais nada. Especulava-se que a lua afundara no mar, ou que havia explodido silenciosamente ou ainda que, simplesmente, mudara de rota.
“Bem”, diziam os mais estudiosos sobre o assunto, “o importante é que o sol continue a nascer! É dele que a vida realmente depende! É do sol que precisamos mesmo para viver! Acostumaremos a viver sem lua!” E assim se deu.

A lua desapareceu do céu por anos. E as pessoas aos poucos foram se acostumando com a ideia. Era agora um mundo com menos poesia, com menos olhares para o céu, menos sonhos de olhos abertos, menos uivos e com um mar desritmado. Mas era bom. Era ensolarado!
Entretanto, após muitos anos, eis que numa noite tranquila a lua reapareceu. Nasceu radiante, enorme e esplendorosa! Via-se um coelho gigante estampado em sua planície circular! Todos ficaram admirando aquela bola luminosa por horas. Pouca gente se lembrava da lua. Poucos a reconheciam e sabiam como nomear aquele astro. A maioria só tinha ouvido falar de algo parecido em textos de história ou contos folclóricos. Alguns a chamaram de “Olho de Deus”, “Bola gigante que brilha” ou “Prenúncio redondo do apocalipse”. Quase ninguém a chamou de lua.

Acontece que, a partir daquela noite, aquele astro voltou a aparecer também nas noites seguintes. Começaram a escrever poemas sobre ele, começaram a sonhar olhando para ele, os cachorros vadios passaram a cantar estranhamente e o mar começou a dançar uma bela pavana. O mundo estava mudado. As pessoas não sabiam mais viver sem aquele astro. Era fascinante quando aparecia cheio, transbordante. Mas faltava por fim nomeá-lo efetivamente. Foi então que os mais estudiosos sobre o assunto o nomearam de “Sol da noite”.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Outras Cozinhas (Lorca, Adélia e Luís Filipe Parrado)

Nossa cozinha não poderia deixar de servir alguns pratos no dia nacional da poesia! E para tão ocasião, sirvo a mesa pratos de diferentes regiões (Espanha, Portugal e Brasil), mas que com certeza serão sempre saborosos em qualquer parte do mundo. Bom apetite!

 Mar (Garcia Lorca)

O mar é
o Lúcifer do azul.
O céu caído
por querer ser luz.

Pobre mar condenado
a eterno movimento,
havendo antes estado
quieto no firmamento!

Mas de tua amargura
te redimiu o amor.
Pariste Vênus pura,
e ficou-te a profundidade
virgem e sem dor.

Tuas tristezas são belas,
mas de espasmos gloriosos.
Mas hoje em vez de estrelas
tens polvos verdosos.

Agüenta teu sofrer
terrível Satã.
Cristo velou por ti
como também o fez Pã.

A estrela Vênus é
a harmonia do mundo.
Cale o Eclesiastes!
Vênus é o profundo
da alma...

...E o homem miserável
é um anjo caído.
A terra é o provável
Paraíso perdido.


O vaso (Luís Filipe Parrado)

Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso.
Enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.


Alvará de demolição (Adélia Prado)

O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam  rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece  no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Compasso

Se a vida ante os olhos é fugaz
E o tempo ante o amor é eterno,
Há de supor que o tempo dure mais
Se medido ante os olhos encobertos.

Se o amor ante os olhos é pequeno
E os olhos ante a vida, inda menor,
Há de supor (entretanto já sabemos)
Que a vida com amor é bem maior.

Ante o tempo então, olhos fechados!
Que tudo passe nessa hora desmedida!
E só aos olhos seja o tempo compassado!

Mas se ao eterno o compasso ainda clama,
Coloquemos o tempo ante a vida
E a vida ante os olhos de quem ama!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Da inspiração e os sonhos

      Refletindo um pouco ainda sobre a antiga (e provavelmente universal) questão de onde vem a inspiração, creio que os sonhos podem ser considerados um de seus mais abundantes mananciais, nutrindo as mais diversas formas de Arte, como Pintura, Música, Literatura... Nessa última é quase impossível não lembrar no exemplo de Stevenson e seus “duendes”. Foi dos seus próprios sonhos que Stevenson afirmou emanar muitas de suas histórias. Mas há momentos também na Literatura em que os sonhos deixam de ser não só a fonte da inspiração, mas também o próprio tema do que é escrito. E seguindo essa linha que eu  gostaria de compartilhas aqui em nossa mesa um belo trecho da “Ampulheta”, de Danilo Kiš. Assim o autor escreve sobre os sonhos: 

“... Sua semelhança com a vida e suas desemelhanças; seus efeitos salutares sobre o corpo e alma; suas escolhas sem limitações e ordenamento dos temas e conteúdos; suas profundidades sem fim e alturas extraordinárias; seu erotismo; sua liberdade; sua disposição a serem dirigidos pela vontade e pela sugestão (um lenço perfumado sob o travesseiro, música suave no rádio ou no gramofone etc); sua semelhança com a morte e seu poder de sugerir a eternidade; sua semelhança coma loucura sem as consequências da loucura; sua crueldade e sua delicadeza; seu poder de arrancar os nossos mais profundos segredos; seu agradável silêncio, ao qual os gritos não são estranhos; suas faculdades telepáticas e espíritas de comunicação com os mortos ou com os que estão distantes; sua linguagem codificada, que conseguimos compreender e traduzir; sua habilidade em condensar as figuras míticas de Ícaro, Ahasverus, Jonas, Noé etc., em imagens; sua qualidade monocrômica e policrômica; sua semelhança com o ventre e com as mandíbulas do tubarão; sua capacidade de transformar lugares pessoas e paisagens desconhecidas em conhecidas, e vice-versa; seu poder de diagnosticar certas enfermidades e traumas antes que seja tarde demais; a dificuldade em determinar quanto tempo duram; o fato de poderem ser confundidos com a realidade; sua capacidade de preservar imagens e lembranças distantes; seu desrespeito pela cronologia e pelas unidades clássicas de tempo e ação.”

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Novo livro! Párabolas de Quintal...

Pessoal, nossa cozinha ficou parada por um longo tempo, mas foi por uma boa causa. Hoje, no dia da reabertura do blog, anuncio aqui meu novo livro: Parábolas de Quintal! Um pequeno livro de poemas dedicado infância, à essa estação da vida em que não desconfiamos da poesia, somos parte dela!


Trecho do livro:



Parábola da Liberdade

Os cães na praça não tinham dono.
O resto do mundo pertencia ao Outono...

[Sugere-se aqui ouvir o som de folhas secas remexidas]

O menino acordou cedo
(seu dia já nascia com penas).
Era franzino,
Tinha um corpo de pulos e revoadas.
...
Entre as árvores
Tinha um caminho para correr verde.
Quem passava por lá
Virava lagarta
(E o menino passeou por lá).
...
O menino refletia:
O céu não gasta nenhum voo
Com as borboletas.
Borboleta é sopro colorido!
O céu poderia gastar voo com gente!
...
E a borboleta refletia:
Queria que todo homem fosse livre!
Que não houvesse gaiolas!
Que pássaros e homens tivessem os mesmos direitos!
Que qualquer azul jamais fosse fronteira!
Que o orvalho tecesse uma rede
E emaranhasse tudo
Cristalinamente
Sob um único desejo
Metamorfoseado
Em flor.
(E a borboleta pousou na boca do menino).
...
O menino começou a falar asas
Para todo mundo,
Sussurrar cores, cantar vento.
Pena (dessas de dar dó)
Que aquela gente já estava
Gastada de chão.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha uruguaia)


Amor de tarde (Mario Benedetti)

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


O inefável (Delmira Agustini)

Morro de estranho mal. Não, não me mata a vida
a morte não me mata e nem me mata o amor.
Morro de um pensamento mudo como ferida.
Não sentiste jamais aquela estranha dor

de um pensamento imenso enraizado à vida
devorando alma e carne e não alcança a dar flor?
Nunca levastes dentro uma estrela dormida
por inteiro a abrasar-vos sem nenhum fulgor?

Cúmulo dos martírios! Levar eternamente
desgarradora e seca a trágica semente
como um dente feroz que as entranhas corroeu.

Mas arrancá-la em flor que amanhecera um dia
milagrosa e ideal — ah! maior não seria
do que ter entre as mãos a cabeça de Deus.

 
O avô (Washington Benavides)

O avô veio do fundo
da chácara.  Aonde, certamente,
refugiou-se para fumar tranquilo.
Ao passar o pátio, ajeitou
a boina, e afastou com a mão esquerda,
com uma palmada, as guias temerárias
da videira.  Ao entrar na sala,
e, diante da possibilidade de encontrar alguém,
transformou-se num armário.