Nossa cozinha não poderia deixar de servir alguns pratos no dia nacional da poesia! E para tão ocasião, sirvo a mesa pratos de diferentes regiões (Espanha, Portugal e Brasil), mas que com certeza serão sempre saborosos em qualquer parte do mundo. Bom apetite!
Mar (Garcia Lorca)
O mar é
o Lúcifer do azul.
O céu caído
por querer ser luz.
Pobre mar condenado
a eterno movimento,
havendo antes estado
quieto no firmamento!
Mas de tua amargura
te redimiu o amor.
Pariste Vênus pura,
e ficou-te a profundidade
virgem e sem dor.
Tuas tristezas são belas,
mas de espasmos gloriosos.
Mas hoje em vez de estrelas
tens polvos verdosos.
Agüenta teu sofrer
terrível Satã.
Cristo velou por ti
como também o fez Pã.
A estrela Vênus é
a harmonia do mundo.
Cale o Eclesiastes!
Vênus é o profundo
da alma...
...E o homem miserável
é um anjo caído.
A terra é o provável
Paraíso perdido.
O vaso (Luís Filipe Parrado)
Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso.
Enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.
Alvará de demolição (Adélia Prado)
O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.
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