Entrei no estreito corredor do Purgatório.
Anjos cegos adornavam a balança.
De um lado, o ranger de mil demônios.
Do outro, o sorrir de uma criança.
Sobre todos, uma abóboda espelhada
refletindo nossas almas já desnudas.
Fui andando sob mil almas trincadas,
pisando em corpos que agora nada ocupa.
E vi minha alma divida em metades,
sendo pesada como um boi no matadouro.
Num prato, tinha o valor de mil quilates.
No outro, nem um só grama de ouro.
Ao longe, meu novo corpo-espantalho.
Era feito de nuvens e algodão.
No bojo, mil gotículas de orvalho
e a lembrança do pulsar de um coração.
O veredicto celeste não foi unânime,
mas enfim, minha alma absolvida.
Sob o protesto de mil seres pusilâmines,
novo corpo, velha alma, eterna vida!
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Sonhos de Infância
Lembro-me que certa vez, no jardim de infância, minha professora pediu para que cada um da turma dissesse o que queria ser quando fosse adulto. Criança tem mesmo uma capacidade incrível de se unir por um ideal. Assim, quase todas as meninas responderam "professora", e eu, como quase todos os meninos, "jogador de futebol". A marcha harmônica de respostas fluía normalmente, até que um de meus colegas, não me recordo exatamente quem, respondeu "astronauta". Pronto! Estava desfeita a marcha. Eu pensei comigo: Quero ser astronauta também! Imagina poder voar no espaço, andar na lua! Queria mudar minha resposta.
Mas o tempo passa e os gostos mudam. Hoje já não quero ser jogador de futebol nem astronauta. Formei em Psicologia e tenho dado meus primeiros passos como poeta. Jamais sonharia com isso lá na minha infância.
Há uma trova de Alphonsus de Guimaraens, mineiro de Ouro Preto, que diz:
"Tu não sabes por que a lua
é triste nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas moram ali!"
De certa maneira, acho que estou realizando aquele sonho de infância de andar na lua. E quanto ao sonho de jogador de futebol, peço licença a Alphonsus:
Tu não sabes por que a lua
é redonda em sua forma...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas também jogam bola!
Mas o tempo passa e os gostos mudam. Hoje já não quero ser jogador de futebol nem astronauta. Formei em Psicologia e tenho dado meus primeiros passos como poeta. Jamais sonharia com isso lá na minha infância.
Há uma trova de Alphonsus de Guimaraens, mineiro de Ouro Preto, que diz:
"Tu não sabes por que a lua
é triste nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas moram ali!"
De certa maneira, acho que estou realizando aquele sonho de infância de andar na lua. E quanto ao sonho de jogador de futebol, peço licença a Alphonsus:
Tu não sabes por que a lua
é redonda em sua forma...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas também jogam bola!
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Favônio
Um pequeno poema para abrir o apetite...
O que traz o vento,
Em seu ritmo lento,
Escondido nas mãos?
Já se ouve os gritos
De outro ser aflito
Será teu irmão?
Não!
O que traz o vento
Para teu desalento,
Para afagar teu afã?
Parece tão leve
Que andar não lhe serve
Será tua irmã?
Não!
O que traz o vento
Para soprar teu tormento
E calar os teus ais?
Talvez seguro porto,
Teu eterno conforto
Será teu pai?
Não!
O que traz o vento,
Que neste momento,
Afugenta teus cães?
Talvez seja ela,
Que teu nome revela
Será tua mãe?
Não!
Então, o que traz o vento,
Este eterno vento
Que tanto te acalma?
Outra coisa, suponho.
Mas indago medonho,
Será tua alma?
O que traz o vento,
Em seu ritmo lento,
Escondido nas mãos?
Já se ouve os gritos
De outro ser aflito
Será teu irmão?
Não!
O que traz o vento
Para teu desalento,
Para afagar teu afã?
Parece tão leve
Que andar não lhe serve
Será tua irmã?
Não!
O que traz o vento
Para soprar teu tormento
E calar os teus ais?
Talvez seguro porto,
Teu eterno conforto
Será teu pai?
Não!
O que traz o vento,
Que neste momento,
Afugenta teus cães?
Talvez seja ela,
Que teu nome revela
Será tua mãe?
Não!
Então, o que traz o vento,
Este eterno vento
Que tanto te acalma?
Outra coisa, suponho.
Mas indago medonho,
Será tua alma?
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Victor Hugo
Peço licença para pôr à mesa um trecho de mais uma obra clássica da literatura mundial, "Os trabalhadores do mar" de Victor Hugo, retirada de uma edição de 1958 com tradução de Machado de Assis:
"A morte da mãe acrabunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas, é um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturando-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamaou cada vez mais aquela alma e solidão."
Um prato belo e amargo...
Aproveito a oportunidade para convidar mais uma vez todos para participarem da campanha Perca um Livro. Vamos transformar o mundo numa imensa biblioteca!
Grande abraço!
"A morte da mãe acrabunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas, é um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturando-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamaou cada vez mais aquela alma e solidão."
Um prato belo e amargo...
Aproveito a oportunidade para convidar mais uma vez todos para participarem da campanha Perca um Livro. Vamos transformar o mundo numa imensa biblioteca!
Grande abraço!
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Festa Brasileira (Parte III)
Mas a festa se arrastou por anos
Com muito mais convidados
Holandeses, alemães, africanos
Foliões de todos os lados
Aí começou a mistura
“Ninguém é de ninguém!”
Exceto os de pele escura
Esses eram sempre de alguém
Até Dom Pedro que mal chegara
Também entrou no clima
Subiu num pau-de-arara
E então bradou lá de cima:
“Portugal marcou meu horário
Ameaçou me pôr de castigo
Mas desta festa eu não saio
Digam ao velho que fico!”
E vendo o povo empolgado
Continuou o seu discurso
Num tom ainda mais alto
Com um sotaque bem luso:
“Já me enjoei desse vinho!
Quero algo mais forte!
Ouça bem Portugal:
Caipirinha ou Morte!”
(Continua...)
Com muito mais convidados
Holandeses, alemães, africanos
Foliões de todos os lados
Aí começou a mistura
“Ninguém é de ninguém!”
Exceto os de pele escura
Esses eram sempre de alguém
Até Dom Pedro que mal chegara
Também entrou no clima
Subiu num pau-de-arara
E então bradou lá de cima:
“Portugal marcou meu horário
Ameaçou me pôr de castigo
Mas desta festa eu não saio
Digam ao velho que fico!”
E vendo o povo empolgado
Continuou o seu discurso
Num tom ainda mais alto
Com um sotaque bem luso:
“Já me enjoei desse vinho!
Quero algo mais forte!
Ouça bem Portugal:
Caipirinha ou Morte!”
(Continua...)
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Feijão com Arroz
Caros amigos, além das "dificuldades" que não me permitiram atualizar o blog nos últimos dias, confesso também que hesitei algumas vezes, pois queria que o primeiro prato de 2011 fosse especial, saboroso, de encher a alma d'água.
Inicialmente pensei em servir um trecho amargo e belo da cozinha de Victor Hugo, no seu clássico "Os trabalhadores do mar". Hesitei. Queria um prato mais requintado de poesia, talvez mais exótico. Logo me veio à cabeça começar o ano com um poema de Fernando Pessoa, numa cozinha bem portuguesa. Hesitei. O prato devia ser nacional, tipicamente brasileiro. Vixe! O que não faltou foram idéias, ou melhor, cozinhas. Quintana, Drummond, Cecília, Vinícius, Coralina... Mas por fim, hesitei com tantas opções . Queria servir um feijão com arroz, simples, saboroso e que mata a fome. O que seria o feijão com arroz, na poesia? Pensei... deixei as idéias em banho-maria. O feijão com arroz na poesia talvez seja um prato raro, que se vê pouco por aí. Quase um sonho. É aquela poesia que brota por si só, leve e completa, simples e saborosa, feita em qualquer cozinha, comida por muitos, apreciada por poucos. Escrevê-la é quase uma gafe… Hesitei.
Não tenho esse feijão com arroz para por à nossa mesa. Perdão! Resta-me servir a fome... de palavras, de versos, de poesias. É assim que vou começar o ano, servindo muita, muita fome a todos!
Tenho que confessar outra coisa: isto acaba de ser escrito em terras uruguaias e talvez seja apenas um desabafo de um mineiro longe de sua cozinha natal. Tenho comido muito bem (chivitos, pastas, helados), mas quanta vontade de ler, digo, comer um bom feijão com arroz!
Inicialmente pensei em servir um trecho amargo e belo da cozinha de Victor Hugo, no seu clássico "Os trabalhadores do mar". Hesitei. Queria um prato mais requintado de poesia, talvez mais exótico. Logo me veio à cabeça começar o ano com um poema de Fernando Pessoa, numa cozinha bem portuguesa. Hesitei. O prato devia ser nacional, tipicamente brasileiro. Vixe! O que não faltou foram idéias, ou melhor, cozinhas. Quintana, Drummond, Cecília, Vinícius, Coralina... Mas por fim, hesitei com tantas opções . Queria servir um feijão com arroz, simples, saboroso e que mata a fome. O que seria o feijão com arroz, na poesia? Pensei... deixei as idéias em banho-maria. O feijão com arroz na poesia talvez seja um prato raro, que se vê pouco por aí. Quase um sonho. É aquela poesia que brota por si só, leve e completa, simples e saborosa, feita em qualquer cozinha, comida por muitos, apreciada por poucos. Escrevê-la é quase uma gafe… Hesitei.
Não tenho esse feijão com arroz para por à nossa mesa. Perdão! Resta-me servir a fome... de palavras, de versos, de poesias. É assim que vou começar o ano, servindo muita, muita fome a todos!
Tenho que confessar outra coisa: isto acaba de ser escrito em terras uruguaias e talvez seja apenas um desabafo de um mineiro longe de sua cozinha natal. Tenho comido muito bem (chivitos, pastas, helados), mas quanta vontade de ler, digo, comer um bom feijão com arroz!
domingo, 26 de dezembro de 2010
Ano Novo
Pessoal, devido às comemorações de fim de ano, estou com uma certa dificuldade para atualizar o blog. Gostaria de informar que o blog estará em recesso até a segunda quinzena de Janeiro. Também gostaria de aproveitar a oportunidade para desejar a todos um FELIZ ANO NOVO! Repintemos cuidadosamente o céu de azul no dia primeiro, e comecemos 2011 com muita paz e poesia!
Para finalizar gostaria de divulgar aqui o blog de minha querida amiga Priscila Campos: Amuleto da Colombina.
Um grande abraço a todos!
Para finalizar gostaria de divulgar aqui o blog de minha querida amiga Priscila Campos: Amuleto da Colombina.
Um grande abraço a todos!
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