O colegial (Mario Quintana)
O vento passa lá fora
e eu, no quadro negro, imóvel
- ó muro de fuzilamento!
Morro sem dizer palavra.
O professor parece triste,
talvez por outros motivos.
Manda sentar-me
e eu carrego
ó almazinha assustada,
um zero, como uma auréola...
Rezai, rezai pelas alminhas
dos meninos fuzilados!
Por que é que nos ensinam
tanta coisa?
Eu queria saber contar
só com os dedos da mão!
O resto é complicação,
um nunca mais acabar.
Eu queria mesmo era poder estudar
teu corpo todo com a mão
até sabê-lo de cor
como um ceguinho.
E o vento passa lá fora
com a sua memória em branco.
O que ele viu, nem recorda...
e eu nada vi: só adivinho!
Grande desejo (Adélia Prado)
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
Dialética (Vinícius de Moraes)
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
O brilho no olhar
Após um longo período de estudos e pesquisas, apresento a todos a conclusão dos meus esforços, uma fria e detalhada explicação fisiológica do "brilho no olhar":
É quase irresistível a delicadeza com que a esperança nos toca os sentidos. Começa mansamente a sussurrar em nossos ouvidos palavras colhidas na última primavera, promessas de futuros jardins. Inalamos então o seu hálito morno do qual as nossas sementinhas silenciosas necessitam para começar a germinar. Sentimos o gosto dos nossos anseios, dos nossos medos, das nossas incertezas a se misturarem e, aos poucos, se dissolverem. Salivamos pelo futuro. Nossos olhos são tomados por claras visões dos horizontes envergando-se até as pontas dos nossos pés. Abrem-se os caminhos. E nosso corpo é o próprio tato da alma, tocado agora por milhões de raios de sol, conduzidos por um sistema nervoso, espelhado e convexo, a tudo o que é vivo, a tudo que deseja luz. É a sinapse da Vida, que faz nascer assim, senhores, a chamada luz da esperança!... ou o popularmente conhecido "brilho no olhar".
É quase irresistível a delicadeza com que a esperança nos toca os sentidos. Começa mansamente a sussurrar em nossos ouvidos palavras colhidas na última primavera, promessas de futuros jardins. Inalamos então o seu hálito morno do qual as nossas sementinhas silenciosas necessitam para começar a germinar. Sentimos o gosto dos nossos anseios, dos nossos medos, das nossas incertezas a se misturarem e, aos poucos, se dissolverem. Salivamos pelo futuro. Nossos olhos são tomados por claras visões dos horizontes envergando-se até as pontas dos nossos pés. Abrem-se os caminhos. E nosso corpo é o próprio tato da alma, tocado agora por milhões de raios de sol, conduzidos por um sistema nervoso, espelhado e convexo, a tudo o que é vivo, a tudo que deseja luz. É a sinapse da Vida, que faz nascer assim, senhores, a chamada luz da esperança!... ou o popularmente conhecido "brilho no olhar".
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Aperitivos - II
Sirvo aqui um pedacinho de cada um dos 3 livros já publicados no blog e deixo também o convite para quem quiser degustá-los por inteiro... Grande abraço!
PÁ VIRADA - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE UM CAVALHEIRO
Ai amor meu, por que choras tanto?
Não era eu, toda a cura de teus males?
Agora sou razão de teu infindável pranto,
o desencanto que turvou teus olhos-mares?
Não chores, amor, não chores!
Olha bem para os fatos e entende.
Nunca fui rude e nem mesmo infiel.
Então, finda o choro e compreende!
Queria te dar todo o amor do mundo.
Sou cavalheiro, romântico, não cafajeste.
Mas seria, no mínimo, indelicado
devolver o que um dia tu me deste.
MONÓLOGO DE UMA VIDA - Para baixá-lo clique aqui.
(...)Entretanto, parte da platéia continua inquieta, com medo da peça. Ao perceber tanto temor, o ator resolve contar uma história, que ouvira ainda no Segundo Ato, para acalmálos de vez.
"Era uma vez um cego, surdo e mudo,
Que olhava para dentro.
Não sabia a diferença entre
Tapa e alento, mordida e beijo...
Teria que aprender a textura dos desejos.
Então, passou a apalpar as almas das pessoas.
Sentiu sonhos, paixões, medos,
Raiva e alegria escorriam entre os dedos.
Mas onde estava o amor?
Não o encontrava...
Chegou a rir por confundir com
Tantas outras texturas:
Paixão, piedade, ternura...
Até com a dor o confundira...
Com a dor, quem diria?!
Mas não, não achara o amor!
Então, num ato um tanto narcisista,
Resolveu apalpar a própria alma.
Mas não era isso, era curiosidade, teimosia,
Um ato de valentia:
Encontrar o amor, em sua forma pura e adocicada.
Apalpou, apalpou... e nada!
Entrou em pânico, em desespero,
Achava que iria morrer!
O pânico foi tanto, que como
Por milagre, por encanto,
Começou a ouvir, a falar, a ver!
Entretanto, não pôde acreditar
No que viu (emudeceu):
Todos eram cegos, surdos e mudos como ele!
Pela primeira vez na vida,
Amou...
Ninguém da platéia compreendeu nada da história, mas todos adormeceram como
crianças. João apaga a luz e sai sem fazer barulho.(...)
O POETA E O PANO - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE AÇUCAR
(Para a Luja)
Do céu,
tudo no chão parece formiga.
Do chão,
tudo no céu parece estrela.
Ao teu lado,
tudo – no chão, no céu,
tudo parece estrela.
Somente as estrelas parecem formigas
(formigas a roubar de ti pedacinhos de luz)...
PÁ VIRADA - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE UM CAVALHEIRO
Ai amor meu, por que choras tanto?
Não era eu, toda a cura de teus males?
Agora sou razão de teu infindável pranto,
o desencanto que turvou teus olhos-mares?
Não chores, amor, não chores!
Olha bem para os fatos e entende.
Nunca fui rude e nem mesmo infiel.
Então, finda o choro e compreende!
Queria te dar todo o amor do mundo.
Sou cavalheiro, romântico, não cafajeste.
Mas seria, no mínimo, indelicado
devolver o que um dia tu me deste.
MONÓLOGO DE UMA VIDA - Para baixá-lo clique aqui.
(...)Entretanto, parte da platéia continua inquieta, com medo da peça. Ao perceber tanto temor, o ator resolve contar uma história, que ouvira ainda no Segundo Ato, para acalmálos de vez.
"Era uma vez um cego, surdo e mudo,
Que olhava para dentro.
Não sabia a diferença entre
Tapa e alento, mordida e beijo...
Teria que aprender a textura dos desejos.
Então, passou a apalpar as almas das pessoas.
Sentiu sonhos, paixões, medos,
Raiva e alegria escorriam entre os dedos.
Mas onde estava o amor?
Não o encontrava...
Chegou a rir por confundir com
Tantas outras texturas:
Paixão, piedade, ternura...
Até com a dor o confundira...
Com a dor, quem diria?!
Mas não, não achara o amor!
Então, num ato um tanto narcisista,
Resolveu apalpar a própria alma.
Mas não era isso, era curiosidade, teimosia,
Um ato de valentia:
Encontrar o amor, em sua forma pura e adocicada.
Apalpou, apalpou... e nada!
Entrou em pânico, em desespero,
Achava que iria morrer!
O pânico foi tanto, que como
Por milagre, por encanto,
Começou a ouvir, a falar, a ver!
Entretanto, não pôde acreditar
No que viu (emudeceu):
Todos eram cegos, surdos e mudos como ele!
Pela primeira vez na vida,
Amou...
Ninguém da platéia compreendeu nada da história, mas todos adormeceram como
crianças. João apaga a luz e sai sem fazer barulho.(...)
O POETA E O PANO - Para baixá-lo clique aqui.
POEMA DE AÇUCAR
(Para a Luja)
Do céu,
tudo no chão parece formiga.
Do chão,
tudo no céu parece estrela.
Ao teu lado,
tudo – no chão, no céu,
tudo parece estrela.
Somente as estrelas parecem formigas
(formigas a roubar de ti pedacinhos de luz)...
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
TOC e novo design
Após um breve período de recesso, nossa cozinha está de volta com novos pratos para serem postos à mesa. Durante esse recesso, no qual se passaram o natal e o reveillon, tive a felicidade de reencontrar vários amigos. Nesses (re)encontros ouvi muitas sugestões sobre temas para o blog, idéias para novos pratos. Uma dessas sugestões foi abordar em meu textos alguns temas da Psicologia. Pois bem, resolvi começar o ano servindo algo relacionado ao tema. Sirvam-se à vontade!
Alguns dos comportamentos mais interessantes do ser humano, para não dizer estranhos, são os gerados pelo chamado TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Uma espécie de ritual para ordenação cósmica.
Existem TOCs dos mais variados tipos para os mais variados gostos. Pessoas que só tocam em alguns objetos por determinado número de vezes, ou as que, contrariamente, evitam tocar em alguns objetos. Algumas que só deixam o chinelo do pé direito na frente ao do pé esquerdo. Outras saem ordenando tudo o que vêem pela frente, (quem dirá Darwin, seu TOC foi tão intenso que marcou a história e, de certa maneira, contagiou a todos). Certos tipos são mais complexos, mais elaborados. Como exemplos, essas pessoas que só saem do banheiro após piscarem a luz cinco vezes e olharem-se três vezes no espelho, sem mencionar a necessidade da torneira aberta.
A verdade é que ninguém está a salvo de desenvolver um ou outro tipo de TOC. Eu, por exemplo, não consigo escrever sem antes passar por um pequeno procedimento: primeiro, tenho que tentar abrir o caderno exatamente na última página escrita; segundo, só posso pegar o lápis com a mão direita, depois passo-o para mão esquerda e novamente para a direita (se for caneta, executo o processo duas vezes); por último, faço um rabisco no canto direito inferior da folha. E pronto! Posso começar... Ah, mas se é noite, após todo esse procedimento, ainda tenho que tocar em sete estrelas e dar três beijos na lua.
Pessoal, como puderam ver, nossa mesa está com cara nova. Peço encarecidamente que dêem suas opniões na enquete ao lado sobre o novo desing. Grande abraço!!!
Alguns dos comportamentos mais interessantes do ser humano, para não dizer estranhos, são os gerados pelo chamado TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Uma espécie de ritual para ordenação cósmica.
Existem TOCs dos mais variados tipos para os mais variados gostos. Pessoas que só tocam em alguns objetos por determinado número de vezes, ou as que, contrariamente, evitam tocar em alguns objetos. Algumas que só deixam o chinelo do pé direito na frente ao do pé esquerdo. Outras saem ordenando tudo o que vêem pela frente, (quem dirá Darwin, seu TOC foi tão intenso que marcou a história e, de certa maneira, contagiou a todos). Certos tipos são mais complexos, mais elaborados. Como exemplos, essas pessoas que só saem do banheiro após piscarem a luz cinco vezes e olharem-se três vezes no espelho, sem mencionar a necessidade da torneira aberta.
A verdade é que ninguém está a salvo de desenvolver um ou outro tipo de TOC. Eu, por exemplo, não consigo escrever sem antes passar por um pequeno procedimento: primeiro, tenho que tentar abrir o caderno exatamente na última página escrita; segundo, só posso pegar o lápis com a mão direita, depois passo-o para mão esquerda e novamente para a direita (se for caneta, executo o processo duas vezes); por último, faço um rabisco no canto direito inferior da folha. E pronto! Posso começar... Ah, mas se é noite, após todo esse procedimento, ainda tenho que tocar em sete estrelas e dar três beijos na lua.
Pessoal, como puderam ver, nossa mesa está com cara nova. Peço encarecidamente que dêem suas opniões na enquete ao lado sobre o novo desing. Grande abraço!!!
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Pão de queijo, cachaça e poesia
Ouvi um rapaz dizendo: “mineiro come letra, às vezes come meia palavra”. Concordei em pensamento.
Sendo filho de Minas, sou também amante da culinária mineira. Não resisto a um bom pão de queijo, a um “franguim” com quiabo acompanhado de angu e couve (apesar de eu preferir taioba à couve), uma broa no café, um torresmo feito na hora, um feijão tropeiro... e sim, também como muitas letras. E acho que de tanto comer letras, sílabas, tomei gosto pelas palavras. Hoje como palavras inteiras. Gosto de sentir o gosto de cada pedacinho. Não resisto a boas palavras.
Tenho me arriscado também a preparar alguns pratos ortográficos. Ainda estou experimentando temperos, errando o ponto às vezes (ora deixo um pouco cru, ora cozinho demais), testando fôrmas... enfim, divertindo-me na arte de cozinhar palavras. Mas paladar cada um tem o seu. Muitos com certeza vão preferir um bom pão de queijo a qualquer um de meus pratos. Estou pensando em me dedicar mais ao preparo de pães de queijo, para dar mais opções ao leitor.
Um amigo meu sempre diz que vir para Minas é sinônimo de engordar. Ele diz que se come demais por aqui e que é difícil resistir a tanta comida boa. Eu retruco: basta ter moderação! E nem toda comida daqui engorda. As letras, as palavras que comemos são recomendadas em qualquer quantidade. Talvez elas engordem a alma, mas, em se tratando de alma, quanto mais gorda, mais leve. E quanto mais leve, mais saudável!
Mas caso se exagere um pouco no feijão tropeiro, no frango com quiabo ou até mesmo numas palavras que não caíram bem, deixo aqui a dica: sempre haverá uma boa cachacinha para arrematar tudo! Saúde! (Beba com moderação)
Aviso: Pessoal, este é o último prato servido em 2011. Espero voltar a servir em nossa mesa na segunda quinzena de janeiro/2012. Já são aproximadamente 1 ano e meio de blog, com mais de 90 pratos servidos, por isso, para os que sentirem fome durante esse pequeno recesso, fica o lembrete: os pratos já servidos continuam à mesa, para serem degustados sempre. Desejo de coração à todos um feliz natal! E que venha 2012 com muita paz e poesia para todos nós! Grande abraço!!!
Sendo filho de Minas, sou também amante da culinária mineira. Não resisto a um bom pão de queijo, a um “franguim” com quiabo acompanhado de angu e couve (apesar de eu preferir taioba à couve), uma broa no café, um torresmo feito na hora, um feijão tropeiro... e sim, também como muitas letras. E acho que de tanto comer letras, sílabas, tomei gosto pelas palavras. Hoje como palavras inteiras. Gosto de sentir o gosto de cada pedacinho. Não resisto a boas palavras.
Tenho me arriscado também a preparar alguns pratos ortográficos. Ainda estou experimentando temperos, errando o ponto às vezes (ora deixo um pouco cru, ora cozinho demais), testando fôrmas... enfim, divertindo-me na arte de cozinhar palavras. Mas paladar cada um tem o seu. Muitos com certeza vão preferir um bom pão de queijo a qualquer um de meus pratos. Estou pensando em me dedicar mais ao preparo de pães de queijo, para dar mais opções ao leitor.
Um amigo meu sempre diz que vir para Minas é sinônimo de engordar. Ele diz que se come demais por aqui e que é difícil resistir a tanta comida boa. Eu retruco: basta ter moderação! E nem toda comida daqui engorda. As letras, as palavras que comemos são recomendadas em qualquer quantidade. Talvez elas engordem a alma, mas, em se tratando de alma, quanto mais gorda, mais leve. E quanto mais leve, mais saudável!
Mas caso se exagere um pouco no feijão tropeiro, no frango com quiabo ou até mesmo numas palavras que não caíram bem, deixo aqui a dica: sempre haverá uma boa cachacinha para arrematar tudo! Saúde! (Beba com moderação)
Aviso: Pessoal, este é o último prato servido em 2011. Espero voltar a servir em nossa mesa na segunda quinzena de janeiro/2012. Já são aproximadamente 1 ano e meio de blog, com mais de 90 pratos servidos, por isso, para os que sentirem fome durante esse pequeno recesso, fica o lembrete: os pratos já servidos continuam à mesa, para serem degustados sempre. Desejo de coração à todos um feliz natal! E que venha 2012 com muita paz e poesia para todos nós! Grande abraço!!!
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Nova Inconfidência
Poucos livros me carregaram tanto para o cenário, para o tempo da história que contavam, quanto o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Quando o lia, eu estava ali, um espectador angustiado nas mesmas ruas em que o Alferes passava. Provavelmente o fato de eu já ter visitado alguns daqueles lugares em que se deu a história contribuiu para que eu entrasse mais no clima.
Esse foi com certeza um daqueles livros em que quase não utilizamos os olhos para lê-los, mas sim a alma. Os olhos muitas vezes aprisionam a alma. Muitas vezes, a alma quer seguir sozinha. E saibam, bravos leitores, é chegado o tempo de uma nova Inconfidência: Oh almas! Oh almas leitoras! Liberdade, ainda que tarde!
“(...) Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja). (...)"
Esse foi com certeza um daqueles livros em que quase não utilizamos os olhos para lê-los, mas sim a alma. Os olhos muitas vezes aprisionam a alma. Muitas vezes, a alma quer seguir sozinha. E saibam, bravos leitores, é chegado o tempo de uma nova Inconfidência: Oh almas! Oh almas leitoras! Liberdade, ainda que tarde!
“(...) Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja). (...)"
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Outras cozinhas (prosas poéticas)
Camus
"...Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados."
Miguel de Unamuno
"A neve havia coberto todos os cumes rochosos da alma... Estava esta, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de pureza total, mas debaixo dele a alma tiritava de frio. Porque a pureza é fria, muito fria! Assim como o pôr do sol, ao entardecer, as coisas não fazem sombra umas às outras, e como se abraçam e se tornam irmãs na santa unidade do crepúsculo e mais tarde na negrura unificadora da noite, assim também na brancura da neve. A brancura desta e a negrura da noite são dois mantos de união, de fusão, quase de irmanação. A nevada silenciosa estende um manto de brancura, de nivelação, de aplainamento. É como a alma da criança e do ancião, planas e silenciosas. Os grande silêncios da alma da criança! Os grandes silêncios da alma do ancião!"
Victor Hugo
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."
"...Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados."
Miguel de Unamuno
"A neve havia coberto todos os cumes rochosos da alma... Estava esta, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de pureza total, mas debaixo dele a alma tiritava de frio. Porque a pureza é fria, muito fria! Assim como o pôr do sol, ao entardecer, as coisas não fazem sombra umas às outras, e como se abraçam e se tornam irmãs na santa unidade do crepúsculo e mais tarde na negrura unificadora da noite, assim também na brancura da neve. A brancura desta e a negrura da noite são dois mantos de união, de fusão, quase de irmanação. A nevada silenciosa estende um manto de brancura, de nivelação, de aplainamento. É como a alma da criança e do ancião, planas e silenciosas. Os grande silêncios da alma da criança! Os grandes silêncios da alma do ancião!"
Victor Hugo
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."
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