sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Outras Cozinhas (Cordel - Parte II)

"Céu, 25 de agosto
de mil novecentos e
oitenta e sete. Senhores,
eu nesta oportunidade
quero desejar a todos
saúde e felicidade.

Tem a Constituição
dimensão nacional,
mas deve ser baseada
de modo primordial
no aperfeiçoamento
da justiça social.

Os senhores são tão lentos
que às vezes me desespero
porque perdem muito tempo
com conversa e lero lero
e custam muito a fazer
aquilo que tanto espero.

E deixem que Sarney leve
seu mandato até o fim,
pois ele é inofensivo
não é bom nem é ruim;
deixem-no puxar o saco
do seu colega Alfonsín.

Cidem com sabedoria
desta Constituição
mas não gastem tanto tempo
comento tanto feijão
por conta da miserável
da probe desta Nação.

Façam a Constituinte
com os espíritos serenos
sem atrapalhar os grandes
procurando, pelo menos
se não quiser ajudar,
não maltratar os pequenos.

Nós aqui no céu temos
compromisso com partidos,
queremos que os brasileiros
se mantenham sempre unidos
para que os objetivos
da Nação sejam atingidos.

Que os grandes rumos tomados
pela Constiuição
sejam dem direção dos pobres,
três quartos desta Nação;
não vejam eles somente
em tempo e eleição.

São os pobres que elegem
deputados, senadores
e é entre os camponeses
que estão os lavradores,
são portanto aqueles homens
que dão comida aos senhores.

São homens simples e bravos
humildes, mas que não somem
nas situações difíceis
dignificando o homem,
enquanto tanto produzem
os senhores só consomem

São os pobres que mantêm
a luz da esperança acesa,
sustentáculos, balaustres,
no ataque e na defesa,
são eles os verdadeiros
alunos da Natureza.

São eles que forma o grande
contigente eleitoral,
mais de oitenta porcento
numa votação geral,
importantes em qualquer
decisão nacional.

Tentem consertar um pouco
a máquina judiciária,
mas com latifundiários
de educação primária
antes do ano dois mil
não façam a reforma agrária.

Porque só serviria para
atiçar a ira acesa
dos donos do Brasil contra
camponeses sem defesa
contentes com uma pequena
fatia da Natureza.

Só pode a reforma agrária
ser idéia de algum santo
que tendo tudo nas mãos
achou, por encanto,
de dar para cada filho
um determinado tanto.

No país de São Maluf,
São Oreste, São Moreira,
São Brizola, São Delfim,
Saõ Bresser e São Gabeira
falar de reforma agrária
é deslavada besteira.

Eu falo para os senhores,
do céu, mas mineiramente,
fiz muito bem em morrer
antes de ser presidente,
e por favor, não me façam
voltar aí novamente.

Metam também outra coisa
na obtusa cachola:
dificilmente o Brasil
se livrará do Brizola;
com ele na presidência
o bandido deita e rola.

Livrem-se dos mares e
eu vos livrarei dos ares,
que pornografias entrem
em lanchonetes e bares
mas que as balas brizolinas
não penetrem em vossos lares.

Estas palavras, senhores
não trazem nem as mais leves
pretensões de acabar
com quebra-quebras e greves
são só alertas do velho
amigo Tancredo Neves".

(FIM)

É preciso levar em conta a época em que esse cordel foi escrito. Com certeza nem mesmo Tancredo em sua morada celeste podia prever um futuro tão lamentável na política brasileira, acho que alguns dos personagens não eram tão inofensivos como ele pensou...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Outras Cozinhas (Cordel - Parte I)


Nesses tempos onde a cada dia somos “surpreendidos” por uma nova notícia de corrupção, um novo caso de total imoralidade e ausência de ética na política brasileira, recordei de um cordel que tenho aqui comigo, escrito em 1987 por Gonçalo Ferreira da Silva, e que gostaria de compartilhar em nossa mesa:

CARTA DE TANCREDO NEVES AOS CONSTITUINTES

(Gonçalo Ferreira da Silva)

Tancredo de Almeida Neves
no colégio eleitoral
venceu com facilidade
seu deslavado rival
mas morreu sem ostentar
a faixa presidencial.

Há línguas envenenadas
que dizem até hoje em dia
que a vice-presidência
Sarney quis porque sabia
que o velho das alterosas
brevemente morreria.

De fato foi tiro e queda,
o velhinho sucumbiu
depois de agonia suprema
que o povo também sentiu;
e Sarney como mandava
o figurino assumiu.

Muitas coisas, por Tancredo
já estavam programadas,
outras foram, pelo próprio
José Sarney inventadas
que se Tancredo vivesse
jamais seriam aprovadas.

Sem que Sarney percebesse
Tancredo ficou atento
no aconchego celeste
vendo todo movimento:
a criação do cruzado
que trouxe o congelamento.

E o descongelamento
matando o plano cruzado,
o longo tempo de inércia
que Sarney acomodado
queria, pelo bigode
ser do governo arrancado.

Tancredo dava muxoxos
de pura indignação,
mas estando entre os eleitos
na celestial mansão
veria o trabalho da
nova constituição.

O resto de paciência
que ainda tinha Tancredo
se colocasse num copo
talvez que não desse um dedo
com tanta burrice junta
ele esgotou logo cedo.

Fortuna gasta em papel
para inoperante estudo
que resulta num trabalho
de tão fraco conteúdo
que eles mesmos se mancam
depois vão repetir tudo.

Centenas de homens in-
pecavelmente vestidos
submetendo uns aos outros
rascunhos tão repetidos
que nos matam de vergonha
no momento em que são lidos.

Mas não entrando no cerne
do problema da Nação
não adianta mudança
de forma ou de redação
para consolidação
desta constituição.

Diante da lentidão
da nova constituinte
Tancredo aos constituintes
se fez de contribuinte
mandando-lhes uma carta
com a redação seguinte:

(Continua...)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Deixados pelo caminho

Ultimamente tenho andado um pouco perdido no tempo. Erro o dia, o mês e, às vezes, até o ano. Passei quase todo mês de agosto acreditando que estava no mês nove, quando fui informado que ainda era o mês oito. Mas meu problema não é com a memória nem com o tempo, meu problema é com os números. Acho que estou aos poucos excluindo os números da minha vida, deixando algarismos pelo caminho.
Desde que assumi de vez meu casamento com as letras, os números têm ficado abandonados. E hão de continuar assim. Pois enquanto esses números insistem em contar as horas, as datas e tantas outras coisas sem valor, há muito as letras me ensinaram a contar o infinito.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Badulaques

Meu fiel carderno, que me acompanhou durante anos, onde eu escrevia poemas, pensamentos, lembretes e etc, chegou ao fim. A maioria dos meus poemas, das coisas que sirvo aqui em nossa mesa, foi escrita nele. Agora vou guardá-lo cuidadosamente, zelando pelas suas páginas já fragilizadas.
Há nele também muitos esboços de poemas, tentativas não tão bem sucedidas de expressar-me. Muitas palavras vão ficar só com ele. Porém, antes de aposentá-lo oficialmente, selecionei aqui algumas dessas palavras, desses versos que, como um gesto de homenagem, gostaria de compartilhar com vocês. Grande abraço!

Poema de Esquina


Estou propenso à esquiva,
ao abrigo reto da esquina.
Quero o encontro no vértice,
sem sinapse entre as quinas.

Calcularei a distância segura.
Se dou pé nas suas palavras,
Se aturo me ater nas alturas.

Dessa vez quero ter chão
ao alcance da alma.
Soletre cada silêncio,
quero o infinito com calma.

E não, não apresse o contato.
Deixe os corpos para os ouvidos.
Deixe os olhos usarem o tato.


Minas de fios

Aquele que vai ali
é homem desconfiado,
do papo fiado,
do chapéu desfiado.

Aquele que vai ali
é da graça afiada,
da viola afinada,
da fé e mais nada.

Aquele que vai ali
é das Minas de fio,
é fiote das Gerais...


Sadomasoquismo no sertão

Não que eu goste da dor
nem que queira ser santo,
mas não há uma só alegria
que quebre o prazer e o encanto
de ver a tarde morrendo
com uma viola em pranto...

domingo, 14 de agosto de 2011

As tres irmans do poeta

Para nosso prato dominical, gostaria de servir um dos meus poemas favoritos, "As tres irmans do poeta", de Castro Alves. Para pô-lo à mesa, mantenho-me fiel à edição de 1989 de onde o retirei. De acompanhamento, vai a narração feita pelo grande músico e poeta Elomar. Bom apetite!

AS TRES IRMANS DO POETA (Traduzido de E. BERTHOUD)


É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão tres pallidas virgens silenciosas
Atravez da procella irrequieta.
Vão tres pallidas virgens... vão sombrias
Rindo colar n’um beijo as bocas frias ...

Na fronte cismadora do — Poeta —

"Saude, irmão, eu sou a Indifferença.
Sou eu quem te sepulta a ideia immensa,
Quem no teu nome a escuridão projecta...
Fui eu que te vesti do meu sudario...
Que vais fazer tão triste e solitario?. . ."

— "Eu lutarei!" — responde-lhe o Poeta.

"Saude, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome...
O teu misero pão, misero athleta!
Hoje, amanhan, depois... depois (qu'importa?)
Virei sempre sentar-me á tua porta. . ."

—“Eu soffrerei!” — responde-lhe o Poeta.

"Saude, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hymno augusto e forte.
Marquei-te a fronte, misero propheta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cantico gelar-se no meu seio?!"

— "Eu cantarei no céu" — responde-lhe o Poeta!



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Outras cozinhas (eróticos)

Delírio (Olavo Bilac)

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...


Para o sexo a expirar (Drummond)

Para o sexo a expirar eu me volto, expirante,
raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sémen aljofrando o irreparável ermo.


Depois da orgia (Augusto dos Anjos)

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

É preciso morrer!

Nossa cozinha está de volta após esse pequeno recesso! Durante esse curto período em que estive ausente, tive alguns “árduos afazeres”, mas reservei tempo para algumas saborosas leituras que não podem faltar no nosso dia-a-dia. Dentre elas, Dostoievski.
O príncipe Míchkin, de O Idiota, sem dúvida é um dos maiores personagens criados até hoje. Uma das intenções de Dostoievski ao escrever esse fabuloso livro era, como ele mesmo relatou, “retratar um homem perfeitamente belo”, um homem que fosse perfeitamente bom. Para tal façanha, o autor observou que precisaria de muita inspiração, constatando que, em toda história, o único homem que havia satisfeito esse ideal de “perfeitamente belo” foi Cristo (após um longo período na prisão, Dostoievski aderiu firmemente aos valores cristãos). No mundo literário, o personagem que mais se aproximava desse ideal era Dom Quixote, embora para o autor tal personagem parecia, em certas circunstâncias, demasiadamente cômico (Dostoievski estudou ainda personagens como o Sr. Pickwick de Dickens e Jean Valjean de Victor Hugo). E assim nasceu o príncipe Míchkin, uma mistura de Cristo com Dom Quixote.
Entretanto, mais do que características advindas dessa mistura, o humanista príncipe Míchkin era, em muitos momentos, uma representação do próprio autor. O príncipe era epilético assim como Dostoievski e carregava muitas das experiências que o escritor passou em vida. Talvez esse tenha sido um dos personagens mais autobiográficos do autor em questão.
Existe uma famosa frase latina que diz “primo vivere, deinde philosophare”, primeiro há de viver, depois há de filosofar. Assim também é usado na literatura: primeiro há de viver, depois há de escrever. Dostoievski fez isso brilhantemente. Sua vida está quase toda descrita em seus livros.
Por outro lado, ao escrever seus poemas, Sylvia Plath contrariou um pouco essa idéia. Ela propôs talvez uma idéia de que “primeiro há de morrer, depois há de escrever”. Pois é, caros amigos, Plath estava certo! Em muitas ocasiões, para escrever um bom romance, um bom poema, é preciso morrer algumas vezes...

“Morrer
é uma arte, como tudo mais.
Eu, por exemplo, morro excepcionalmente bem.

Morro para me sentir no inferno.
Morro para me sentir real.
Acho que se pode dizer que tenho um dom.”
(Sylvia Plath)