quinta-feira, 3 de março de 2011

Aperitivos

Ponho à mesa trechos do meu segundo livro, "Monólogo de uma vida - a trágica rapsódia de uma platéia sem assento". Para os que já conhecem, fica aí uma recordação. Para os que não conhecem, fica aí um gostinho, um convite para conhecer o livro inteiro.

...
A platéia nomeia o ator:
- É menino!
- Não, é menina!
- É João!
- É José!
- É Marina!...
- Vai ser alguém?!

A vida é no ventre!
Que entre o ator,
Com seus atos e sua dor, sua mórula de sonhos!
O mundo está à espreita,
O coração ainda rejeita apanhar,
Então bate!!!
Bate acelerado, o olhar ainda é invertebrado, desconfia de todos e de tudo.
Mas um dia estará estagnado, para baixo...
Um dia o olhar estará mudo...

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...
João segue o roteiro normalmente. Ele está começando a gostar de sua própria atuação, mas algo chama sua atenção: um buraco. Sim, há um imenso buraco no palco.

Há um imenso buraco no palco.
Um buraco do tamanho do mundo.
O buraco parece tão fundo,
Faz o céu parecer tão alto.

Há um imenso buraco no mundo.
Um buraco do tamanho do palco.
O buraco parece tão alto,
Faz o céu parecer tão fundo.

Há um imenso buraco no céu.
Um buraco bem lá no alto.
O mundo parece um palco,
Cada qual no seu papel.

Sempre haverá o vazio.
No alto, no fundo, do lado.
Sempre haverá o buraco,
O vão a ser preenchido.

Até então, o buraco não era um problema. Mas aos poucos, pequenos e brancos ratinhos começam a entrar e sair dali. João, apreensivo, continua encenando. Ele não sabe qual será a reação da platéia ao ver os ratos...

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A peça continua normalmente, num ritmo sonolento e constante. Sem sal, sem açúcar. Platéia e ator conformados. Uma máquina perfeita. O ator fala, a platéia se cala. Café-com-pão, biscoito-não. Uma atmosfera mecânica. Estímulo e resposta. Uma peça de peças encaixadas. Até o silêncio se encaixa. Monotonia. Sem surpresas, sem improviso. Isso é igual a isso. Sem enguiço. Sempre adiante. Ontem, hoje e antes. Nada além. Dia-a-dia. Sem noites, sem sonhos. Sem poesia!

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac…

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Purgatório

Entrei no estreito corredor do Purgatório.
Anjos cegos adornavam a balança.
De um lado, o ranger de mil demônios.
Do outro, o sorrir de uma criança.

Sobre todos, uma abóboda espelhada
refletindo nossas almas já desnudas.
Fui andando sob mil almas trincadas,
pisando em corpos que agora nada ocupa.

E vi minha alma divida em metades,
sendo pesada como um boi no matadouro.
Num prato, tinha o valor de mil quilates.
No outro, nem um só grama de ouro.

Ao longe, meu novo corpo-espantalho.
Era feito de nuvens e algodão.
No bojo, mil gotículas de orvalho
e a lembrança do pulsar de um coração.

O veredicto celeste não foi unânime,
mas enfim, minha alma absolvida.
Sob o protesto de mil seres pusilâmines,
novo corpo, velha alma, eterna vida!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sonhos de Infância

Lembro-me que certa vez, no jardim de infância, minha professora pediu para que cada um da turma dissesse o que queria ser quando fosse adulto. Criança tem mesmo uma capacidade incrível de se unir por um ideal. Assim, quase todas as meninas responderam "professora", e eu, como quase todos os meninos, "jogador de futebol". A marcha harmônica de respostas fluía normalmente, até que um de meus colegas, não me recordo exatamente quem, respondeu "astronauta". Pronto! Estava desfeita a marcha. Eu pensei comigo: Quero ser astronauta também! Imagina poder voar no espaço, andar na lua! Queria mudar minha resposta.
Mas o tempo passa e os gostos mudam. Hoje já não quero ser jogador de futebol nem astronauta. Formei em Psicologia e tenho dado meus primeiros passos como poeta. Jamais sonharia com isso lá na minha infância.
Há uma trova de Alphonsus de Guimaraens, mineiro de Ouro Preto, que diz:

"Tu não sabes por que a lua
é triste nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas moram ali!"

De certa maneira, acho que estou realizando aquele sonho de infância de andar na lua. E quanto ao sonho de jogador de futebol, peço licença a Alphonsus:

Tu não sabes por que a lua
é redonda em sua forma...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas também jogam bola!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Favônio

Um pequeno poema para abrir o apetite...

O que traz o vento,
Em seu ritmo lento,
Escondido nas mãos?
Já se ouve os gritos
De outro ser aflito
Será teu irmão?
Não!

O que traz o vento
Para teu desalento,
Para afagar teu afã?
Parece tão leve
Que andar não lhe serve
Será tua irmã?
Não!

O que traz o vento
Para soprar teu tormento
E calar os teus ais?
Talvez seguro porto,
Teu eterno conforto
Será teu pai?
Não!

O que traz o vento,
Que neste momento,
Afugenta teus cães?
Talvez seja ela,
Que teu nome revela
Será tua mãe?
Não!

Então, o que traz o vento,
Este eterno vento
Que tanto te acalma?
Outra coisa, suponho.
Mas indago medonho,
Será tua alma?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Victor Hugo

Peço licença para pôr à mesa um trecho de mais uma obra clássica da literatura mundial, "Os trabalhadores do mar" de Victor Hugo, retirada de uma edição de 1958 com tradução de Machado de Assis:

"A morte da mãe acrabunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas, é um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturando-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamaou cada vez mais aquela alma e solidão."

Um prato belo e amargo...

Aproveito a oportunidade para convidar mais uma vez todos para participarem da campanha Perca um Livro. Vamos transformar o mundo numa imensa biblioteca!
Grande abraço!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Festa Brasileira (Parte III)

Mas a festa se arrastou por anos
Com muito mais convidados
Holandeses, alemães, africanos
Foliões de todos os lados
Aí começou a mistura
“Ninguém é de ninguém!”
Exceto os de pele escura
Esses eram sempre de alguém
Até Dom Pedro que mal chegara
Também entrou no clima
Subiu num pau-de-arara
E então bradou lá de cima:
“Portugal marcou meu horário
Ameaçou me pôr de castigo
Mas desta festa eu não saio
Digam ao velho que fico!”
E vendo o povo empolgado
Continuou o seu discurso
Num tom ainda mais alto
Com um sotaque bem luso:
“Já me enjoei desse vinho!
Quero algo mais forte!
Ouça bem Portugal:
Caipirinha ou Morte!”

(Continua...)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Feijão com Arroz

Caros amigos, além das "dificuldades" que não me permitiram atualizar o blog nos últimos dias, confesso também que hesitei algumas vezes, pois queria que o primeiro prato de 2011 fosse especial, saboroso, de encher a alma d'água.
Inicialmente pensei em servir um trecho amargo e belo da cozinha de Victor Hugo, no seu clássico "Os trabalhadores do mar". Hesitei. Queria um prato mais requintado de poesia, talvez mais exótico. Logo me veio à cabeça começar o ano com um poema de Fernando Pessoa, numa cozinha bem portuguesa. Hesitei. O prato devia ser nacional, tipicamente brasileiro. Vixe! O que não faltou foram idéias, ou melhor, cozinhas. Quintana, Drummond, Cecília, Vinícius, Coralina... Mas por fim, hesitei com tantas opções . Queria servir um feijão com arroz, simples, saboroso e que mata a fome. O que seria o feijão com arroz, na poesia? Pensei... deixei as idéias em banho-maria. O feijão com arroz na poesia talvez seja um prato raro, que se vê pouco por aí. Quase um sonho. É aquela poesia que brota por si só, leve e completa, simples e saborosa, feita em qualquer cozinha, comida por muitos, apreciada por poucos. Escrevê-la é quase uma gafe… Hesitei.
Não tenho esse feijão com arroz para por à nossa mesa. Perdão! Resta-me servir a fome... de palavras, de versos, de poesias. É assim que vou começar o ano, servindo muita, muita fome a todos!
Tenho que confessar outra coisa: isto acaba de ser escrito em terras uruguaias e talvez seja apenas um desabafo de um mineiro longe de sua cozinha natal. Tenho comido muito bem (chivitos, pastas, helados), mas quanta vontade de ler, digo, comer um bom feijão com arroz!