Coração,
máquina de pulsar,
máquina de bater,
máquina de encher
e esvaziar.
Máquina de soprar,
máquina de cuspir,
máquina de fluir
e armazenar.
Máquina de fechar,
máquina de abrir,
máquina de servir...
Brinquedo de amar!
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Nota sobre o amanhecer
Ao amanhecer, o canto dos pássaros é tão importante quanto à luz do sol. Há em nós sentidos que só são despertados com o canto de um passarinho. É com ele que vamos abrindo nossos olhos líricos, esses mesmos que usamos para sonhar. E vamos despertando para um outro mundo, invisível, sobre o qual a noite nos deu algumas pistas. São os primeiros cantos matinais que vão iluminando cada pedacinho do que não existe.
Os que despertam apenas com a luz do sol continuam dormindo, continuam de olhos fechados para esse outro mundo. Porém, os que despertam não só com a luz do sol mas também com o cantar de um bem-te-vi, de um sabiá, acordam por completo, para este e tantos outros mundos, acordam para o visível e o invisível, para o que existe e o que não existe. Acordam para o dia e conseguem levar consigo um pedacinho da noite.
Obs: Vale lembrar que passarinho preso não canta, lamenta.
Os que despertam apenas com a luz do sol continuam dormindo, continuam de olhos fechados para esse outro mundo. Porém, os que despertam não só com a luz do sol mas também com o cantar de um bem-te-vi, de um sabiá, acordam por completo, para este e tantos outros mundos, acordam para o visível e o invisível, para o que existe e o que não existe. Acordam para o dia e conseguem levar consigo um pedacinho da noite.
Obs: Vale lembrar que passarinho preso não canta, lamenta.
domingo, 18 de novembro de 2012
Outras cozinhas (Emily, Ivo e Quintana)
(Emily Dickinson)
As manhãs estão mais suaves,
Mais sazonadas, as nozes;
Os mirtilos, mais carnudos,
E ausente se encontra a rosa.
O bordo ostenta um lenço mais alegre,
A campina, uma saia escarlate;
Para não estar fora de moda,
Vou tratar de me enfeitar.
Pão nosso (Ivo Barroso)
Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.
Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.
Ah, sim, a velha poesia... (Mario Quintana)
Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos
Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.
As manhãs estão mais suaves,
Mais sazonadas, as nozes;
Os mirtilos, mais carnudos,
E ausente se encontra a rosa.
O bordo ostenta um lenço mais alegre,
A campina, uma saia escarlate;
Para não estar fora de moda,
Vou tratar de me enfeitar.
Pão nosso (Ivo Barroso)
Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.
Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.
Ah, sim, a velha poesia... (Mario Quintana)
Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos
Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Deus e o mar
Uns versinhos antigos tirados do fundo do mar, quero dizer, do fundo da gaveta...
Deus sentiu tanto orgulho
quando enfim criou o mar
que quis dar seus mergulhos,
pensou logo em navegar.
Deus pôs-se a contar as ondas
e pôs-se a brincar na areia.
Quis colecionar conchas
e sonhou com belas sereias.
Queria reinventar tudo
sem pernas, sem asas, sem ar,
para que tudo, tudo, tudo
só pudesse nadar.
E Deus sentiu tanto orgulho
que começou a chorar
e decidiu que dos olhos
cairiam gotinhas do mar.
Deus sentiu tanto orgulho
quando enfim criou o mar
que quis dar seus mergulhos,
pensou logo em navegar.
Deus pôs-se a contar as ondas
e pôs-se a brincar na areia.
Quis colecionar conchas
e sonhou com belas sereias.
Queria reinventar tudo
sem pernas, sem asas, sem ar,
para que tudo, tudo, tudo
só pudesse nadar.
E Deus sentiu tanto orgulho
que começou a chorar
e decidiu que dos olhos
cairiam gotinhas do mar.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Carta aos arqueólogos e simpatizantes (repostagem)
Caros arqueólogos e simpatizantes,
parem com essa bobagem de procurar o “elo perdido”! Nunca perdemos o elo com os animais, com os primatas. Somos os mesmos homens de sempre (talvez mais eretos e menos emotivos). O que perdemos foi o elo com o outro mundo, com os sonhos, com as coisas que não existem. Estamos na “era do coração de pedra”.
Inventamos a roda, mas perdemos a direção. Inventamos a lâmpada, mas perdemos as estrelas. Inventamos o telefone, mas perdemos as palavras. Inventamos o avião, mas atropelamos os anjos... Aprendemos a contar, calcular, medir e criamos uma espécie de fita métrica para o céu, para nos certificarmos de que aquele pedaço de azul cabe em nosso poema em redondilha maior. Trocamos cinco palmos de poesia por dois dedos de prosa apressados. Sabemos exatamente quantos copos d’água nossa flor no vaso necessita, mas esquecemos qual a nossa dose diária de flores para sobreviver.
Experimentem um dia escavar livros! Não os seus próprios livros, mas esses livros rasos que algumas crianças guardam como tesouros. Nossa história não está numa ossada enterrada no barro, está manchada à tinta no papel. Nesses papéis de histórias inventadas. Nossos ancestrais são deuses, ninfas, Otelo, Pinóquio, Dorian Gray, Dom Quixote (esse último considero da família) etc. Talvez muitas pessoas duvidem, mas alguns de nossos ancestrais tinham asas. Porém, deu-se a evolução e as perdemos. Agora estamos a pouco de perder o siso.
Por isso, mais uma vez, peço encarecidamente que parem de procurar dinossauros, primatas, ossadas de qualquer espécie e vão todos procurar suas almas peludas!
parem com essa bobagem de procurar o “elo perdido”! Nunca perdemos o elo com os animais, com os primatas. Somos os mesmos homens de sempre (talvez mais eretos e menos emotivos). O que perdemos foi o elo com o outro mundo, com os sonhos, com as coisas que não existem. Estamos na “era do coração de pedra”.
Inventamos a roda, mas perdemos a direção. Inventamos a lâmpada, mas perdemos as estrelas. Inventamos o telefone, mas perdemos as palavras. Inventamos o avião, mas atropelamos os anjos... Aprendemos a contar, calcular, medir e criamos uma espécie de fita métrica para o céu, para nos certificarmos de que aquele pedaço de azul cabe em nosso poema em redondilha maior. Trocamos cinco palmos de poesia por dois dedos de prosa apressados. Sabemos exatamente quantos copos d’água nossa flor no vaso necessita, mas esquecemos qual a nossa dose diária de flores para sobreviver.
Experimentem um dia escavar livros! Não os seus próprios livros, mas esses livros rasos que algumas crianças guardam como tesouros. Nossa história não está numa ossada enterrada no barro, está manchada à tinta no papel. Nesses papéis de histórias inventadas. Nossos ancestrais são deuses, ninfas, Otelo, Pinóquio, Dorian Gray, Dom Quixote (esse último considero da família) etc. Talvez muitas pessoas duvidem, mas alguns de nossos ancestrais tinham asas. Porém, deu-se a evolução e as perdemos. Agora estamos a pouco de perder o siso.
Por isso, mais uma vez, peço encarecidamente que parem de procurar dinossauros, primatas, ossadas de qualquer espécie e vão todos procurar suas almas peludas!
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Outras cozinhas (Guimarães, Adelaide e Drummond)
O sono das águas (Guimarães Rosa)
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
Planta carnívora (Adelaide Petters Lessa)
(voz do diabo)
Aos desafetos serviu alume,
urtigas, urzes, cicuta, estrume.
Tem o desmanche de seu curtume
no inferno onde quem fez assume.
Nada se perca,
nada se esfume.
(voz de amigo)
Aos desafetos
serviu alume,
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
no limbo onde
quem fez assume.
Nada se perca,
tudo se arrume.
(voz de anjo)
Aos desafetos
serviu alume
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
na terra onde
quem fez assume
Nada se perca.
Tudo se emplume.
Memória (Carlos Drummond)
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
Planta carnívora (Adelaide Petters Lessa)
(voz do diabo)
Aos desafetos serviu alume,
urtigas, urzes, cicuta, estrume.
Tem o desmanche de seu curtume
no inferno onde quem fez assume.
Nada se perca,
nada se esfume.
(voz de amigo)
Aos desafetos
serviu alume,
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
no limbo onde
quem fez assume.
Nada se perca,
tudo se arrume.
(voz de anjo)
Aos desafetos
serviu alume
urtigas, urzes,
cicuta, estrume.
Curte o desmanche
de seu curtume
na terra onde
quem fez assume
Nada se perca.
Tudo se emplume.
Memória (Carlos Drummond)
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
A sombra de Algemiro
Conta-se que a sombra de Algemiro nunca envelheceu, conservou-se criança. Enquanto Algemiro crescia, ela continuou pequena, cheia de brincadeiras. Ele tornou-se um rapaz alto, robusto, sério. Aos vinte e três anos já era advogado. Andava pela rua sempre de terno, com passos firmes e apressados. A sombra, por sua vez, andava pulando listras, dando cambalhotas, ora correndo ora distraída com outras sombras e, às vezes, parecia estar nua.
Até se formar em direito, Algemiro nunca se incomodou com sua sombra infantil, mas depois que se formou, passou a se sentir desconfortável com aquilo. Preferia dias nublados. Em casa, evitava acender as luzes. Começou a sentir vergonha, raiva, medo de sua sombra.
À medida que ia envelhecendo, só aumentava em Algemiro o repúdio por sua sombra, chegando a ponto de ele viver no escuro e não mais sair de casa. Mesmo assim havia momentos em que, ao menor descuido, lá estava ela sempre sorridente e brincalhona, a sombra de Algemiro.
Quando completou sessenta e dois anos, Algemiro já beirava a loucura, pouco se diferenciava de um bicho solitário. E pressentindo que a morte se aproximava, resolveu dar uma última olhada em sua sombra, queria despedir de seu tormento. Mas quando acendeu a vela, tomou um grande susto: sua sombra envelhecera! Estava velha e curvada como ele, já não corria nem brincava, apenas acompanhava seus passos lentos e doídos.
Algemiro morreu naquela mesma noite. E há gente que conta que, em seu velório, sua sombra não estava junto ao corpo e que, no caminho para o cemitério, sob um sol ameno de fim de tarde, muitos viram um passarinho voando com duas sombras.
Até se formar em direito, Algemiro nunca se incomodou com sua sombra infantil, mas depois que se formou, passou a se sentir desconfortável com aquilo. Preferia dias nublados. Em casa, evitava acender as luzes. Começou a sentir vergonha, raiva, medo de sua sombra.
À medida que ia envelhecendo, só aumentava em Algemiro o repúdio por sua sombra, chegando a ponto de ele viver no escuro e não mais sair de casa. Mesmo assim havia momentos em que, ao menor descuido, lá estava ela sempre sorridente e brincalhona, a sombra de Algemiro.
Quando completou sessenta e dois anos, Algemiro já beirava a loucura, pouco se diferenciava de um bicho solitário. E pressentindo que a morte se aproximava, resolveu dar uma última olhada em sua sombra, queria despedir de seu tormento. Mas quando acendeu a vela, tomou um grande susto: sua sombra envelhecera! Estava velha e curvada como ele, já não corria nem brincava, apenas acompanhava seus passos lentos e doídos.
Algemiro morreu naquela mesma noite. E há gente que conta que, em seu velório, sua sombra não estava junto ao corpo e que, no caminho para o cemitério, sob um sol ameno de fim de tarde, muitos viram um passarinho voando com duas sombras.
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