terça-feira, 22 de maio de 2012

Incêndio

"Palavras poéticas tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria." (Manoel de Barros)
Sendo assim, resolvi brincar um pouco com as palavras. Mas brinquei com as palavras como quem brinca com fogo. Deu nisso:

Incêndio

Fogo!

Foge! Foge! Foge!

Fogo! Foge! Foge!

Fogo! Fogo! Foge!

Fogo! Fogo! Fogo!

Fugiu! (Ufa...)

terça-feira, 15 de maio de 2012

Outras cozinhas (Rimbaud)

Hoje faço uma visita na cozinha de Rimbaud. Todos os três pratos servidos aqui foram traduzidos por Ivo Barroso.


BAILE DOS ENFORCADOS

Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.

Compadre Belzebu puxa pela gravata
Seus fantoches que aos céus fazem negra careta,
E açoitando-os na cara a golpes de sapata,
Fá-los dançar ao som de velhas cançonetas!

Enlaçam-se na dança os braços e as canelas,
Órgãos negros ao vento, os seus furos expondo,
Esses peitos que outrora abraçaram donzelas
Se embatem lentamente em seu amor hediondo.

Já não gasta sandália o duro calcanhar!
A camisa de pele a maioria arranca;
O resto vê-se bem sem muito se acanhar.
Sobre as calvas, a neve aplica a touca branca;

Serve o corvo de pluma ao crânio a que se entrega;
De um magro queixo pende a carne nunca farta.
Dir-se-iam, a voltear em lúgubre refrega,
Campeões, hirtos, chocando armaduras de carta.

Hurra! o vento a assoviar no baile de esqueletos!
A negra forca muge – é um férreo órgão de uivos!
Lobos respondem, longe, em seus bosques de abetos
E o céu tem, no horizonte, a cor de infernos ruivos...

Vamos lá, balançai meus fúnebres farsantes
Que desfiam, fingindo, em dedos desconjuntos
Um rosário de amor nas vértebras hiantes:
Não estais num mosteiro, ó restos de defuntos!

Nessa dança macabra, eis que então, repentino,
Um esqueleto salta aos céus em alvoroço
Levado em seu afã, como um cavalo a pino;
E, sentindo inda a corda esticar-lhe o pescoço,

Crispa seus dedos sobre o fêmur que se solta
Com gritos que são mais chacotas e risadas,
E assim como o bufão que ao picadeiro volta,
Chocalha-se no baile ao canto das ossadas.

Na negra forca, o bom maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.


CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA

Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha.

Eu me disse: cessa
Que ninguém te veja,
E sem a promessa
De algum bem que seja,
A ti só aspiro,
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.

Ah! viuvez selvagem
Desta alma que chora
Tendo só a imagem
De Nossa Senhora!
Mas quem rezaria
À Virgem Maria?

Mocidade presa
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! que o tempo venha
Em que a alma se empenha!


O ARMÁRIO

Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,
Muito antigo, adquiriu esse ar bom dos idosos;
E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,
Como um jorro de vinho, odores capitosos;

Repleto, é uma babel de velhas velharias,
Recendentes lençóis encardidos, fustões
De infante ou feminis, as rendas alvadias
E os xales das avós pintados de dragões;

- Em ti podem-se achar os medalhões, as mechas,
Os retratos, a flor ressequida que fechas,
Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.

- Ó armário de outrora, as histórias que exortas
E amarias contar, com teus roucos gemidos,
Quando se abrem de leve as tuas negras portas.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Distração

Era um desses velhinhos de praça, distraído jogador de Damas. Certo dia, confundiu as coisas: deu milho ao tombo e foi para o céu culpando os pombos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Súplica

Não me conta da lua, do fundo, do inverno
e nem das cantigas das ondas,
do mar em seu choro eterno,
não me conta!

Não me conta nada sobre o infinito
nem me pergunta das horas.
Beija-me agora, eu suplico!
Sim! Agora!

Deixa em segredo minha solidão.
Que os vergéis só conheçam flores!
O céu, só estrelas! Meu coração,
só amores!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Livros

Pessoal, compartilho aqui com vocês mais uma vez os links para download dos meus livros. Os livros estão hospedados no 4shared. Há algum tempo o site começou a pedir que se faça um login para download, mas quem não tem conta no 4shared pode fazer o login com a conta do gmail ou facebook mesmo. Grande abraço e boa leitura!

Pá Virada

Monólogo de uma vida: a trágica rapsódia de uma platéia sem assento.

O poeta e o pano

Aproveito também para divulgar mais uma vez a campanha perca um livro. Para quem não conhece, acesse o site e dê uma olhada, vale muito a pena participar e levar essa idéia adiante.
Site:www.livr.us/

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Outras cozinhas (Alphonsus, Laurindo e Cecília)

Ismália (Alphonsus de Guimaraens)

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…


Conta e tempo (Laurindo Rabelo)

Deus pede estrita a conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas como dar, em tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não fiz conta.
Não quis sobrando tempo, fazer conta;
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Ó vós que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis êsse tempo em passa-tempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.

Mas oh! Se os que contam com seu tempo
Fizessem dêsse tempo alguma conta,
Não choravam como eu, o não ter tempo.


Murmúrio (Cecílcia Meireles)

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Tosse e poesia

Estive limpando e lendo alguns livros antigos de poesia que encontrei na casa de meu avô. Mas foi preciso parar, pois em pouco tempo eu já estava tossindo incessantemente. O cheiro, a poeira que vinha dos livros era quase insuportável e poderia me causar uma doença respiratória mais grave.
E nessa mistura de tosse e poesia, acabei lembrando-me de nossos inúmeros poetas que foram mortos pela tuberculose. Muitos deles, antes mesmo de completarem trinta anos. A lista é imensa: Álvarez de Azevedo (1831-1852), Castro Alves (1847-1871), Cruz e Souza (1864-1898), Augusto dos Anjos (1884-1914), e tantos outros.
Havia, em épocas passadas, quem acreditasse que a poesia era uma das causas da tuberculose, ou pelo menos, um de seus sintomas. Mas hoje os tempos são outros. Tuberculose e poesia tomaram caminhos diferentes. A tuberculose já tem tratamento e não mata mais em níveis tão alarmantes. Os nossos poetas estão vivendo mais. Quanto à poesia, ainda não tem tratamento, continua incurável e contagiosa. Eis aqui uma belíssima forma de contágio:

Ilusões da vida (Francisco Otaviano)

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.