quarta-feira, 16 de março de 2011

Festa Brasileira (Parte IV)

Então veio dona Isabel,
Numa ginga bem brasileira,
E assinou um papel
Para o povo dançar capoeira.
Formou-se uma grande roda
Para todo mundo dançar,
Mas uns queriam a moda:
“A viola não pode parar!”
Foi quando um sujeito alterado
Gritou, já com as pernas bambas:
“Aqui está tudo errado,
O negócio é fazer samba!”
E já com a cuíca na mão,
Mandou improvisar o batuque.
Era para ser no latão,
Mas saiu tapa, murro e chute.
E o Brasil foi se construindo
De viola, berimbau e cuíca.
E a festa sempre seguindo...
Se pára, não tem um que fica!

(Fim)

(... mas a festa continua)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Urbanização

Em Belo Horizonte, ao anoitecer, é possível ouvir o peculiar canto das cigarras nos mais diferentes pontos da cidade. E dependendo do local, com um ouvido mais atento, pode-se ouvir outros tantos seres noturnos como os morcegos, as corujas, os relógios de ponteiro... e os grilos? Para onde foram os grilos? Creio que esses estão naturalmente desaparecendo dos ambientes urbanos. É a ordem natural das coisas, a evolução: os grilos já não podem contra os alarmes de carro.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Aperitivos

Ponho à mesa trechos do meu segundo livro, "Monólogo de uma vida - a trágica rapsódia de uma platéia sem assento". Para os que já conhecem, fica aí uma recordação. Para os que não conhecem, fica aí um gostinho, um convite para conhecer o livro inteiro.

...
A platéia nomeia o ator:
- É menino!
- Não, é menina!
- É João!
- É José!
- É Marina!...
- Vai ser alguém?!

A vida é no ventre!
Que entre o ator,
Com seus atos e sua dor, sua mórula de sonhos!
O mundo está à espreita,
O coração ainda rejeita apanhar,
Então bate!!!
Bate acelerado, o olhar ainda é invertebrado, desconfia de todos e de tudo.
Mas um dia estará estagnado, para baixo...
Um dia o olhar estará mudo...

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...
João segue o roteiro normalmente. Ele está começando a gostar de sua própria atuação, mas algo chama sua atenção: um buraco. Sim, há um imenso buraco no palco.

Há um imenso buraco no palco.
Um buraco do tamanho do mundo.
O buraco parece tão fundo,
Faz o céu parecer tão alto.

Há um imenso buraco no mundo.
Um buraco do tamanho do palco.
O buraco parece tão alto,
Faz o céu parecer tão fundo.

Há um imenso buraco no céu.
Um buraco bem lá no alto.
O mundo parece um palco,
Cada qual no seu papel.

Sempre haverá o vazio.
No alto, no fundo, do lado.
Sempre haverá o buraco,
O vão a ser preenchido.

Até então, o buraco não era um problema. Mas aos poucos, pequenos e brancos ratinhos começam a entrar e sair dali. João, apreensivo, continua encenando. Ele não sabe qual será a reação da platéia ao ver os ratos...

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...
A peça continua normalmente, num ritmo sonolento e constante. Sem sal, sem açúcar. Platéia e ator conformados. Uma máquina perfeita. O ator fala, a platéia se cala. Café-com-pão, biscoito-não. Uma atmosfera mecânica. Estímulo e resposta. Uma peça de peças encaixadas. Até o silêncio se encaixa. Monotonia. Sem surpresas, sem improviso. Isso é igual a isso. Sem enguiço. Sempre adiante. Ontem, hoje e antes. Nada além. Dia-a-dia. Sem noites, sem sonhos. Sem poesia!

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac…

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Purgatório

Entrei no estreito corredor do Purgatório.
Anjos cegos adornavam a balança.
De um lado, o ranger de mil demônios.
Do outro, o sorrir de uma criança.

Sobre todos, uma abóboda espelhada
refletindo nossas almas já desnudas.
Fui andando sob mil almas trincadas,
pisando em corpos que agora nada ocupa.

E vi minha alma divida em metades,
sendo pesada como um boi no matadouro.
Num prato, tinha o valor de mil quilates.
No outro, nem um só grama de ouro.

Ao longe, meu novo corpo-espantalho.
Era feito de nuvens e algodão.
No bojo, mil gotículas de orvalho
e a lembrança do pulsar de um coração.

O veredicto celeste não foi unânime,
mas enfim, minha alma absolvida.
Sob o protesto de mil seres pusilâmines,
novo corpo, velha alma, eterna vida!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sonhos de Infância

Lembro-me que certa vez, no jardim de infância, minha professora pediu para que cada um da turma dissesse o que queria ser quando fosse adulto. Criança tem mesmo uma capacidade incrível de se unir por um ideal. Assim, quase todas as meninas responderam "professora", e eu, como quase todos os meninos, "jogador de futebol". A marcha harmônica de respostas fluía normalmente, até que um de meus colegas, não me recordo exatamente quem, respondeu "astronauta". Pronto! Estava desfeita a marcha. Eu pensei comigo: Quero ser astronauta também! Imagina poder voar no espaço, andar na lua! Queria mudar minha resposta.
Mas o tempo passa e os gostos mudam. Hoje já não quero ser jogador de futebol nem astronauta. Formei em Psicologia e tenho dado meus primeiros passos como poeta. Jamais sonharia com isso lá na minha infância.
Há uma trova de Alphonsus de Guimaraens, mineiro de Ouro Preto, que diz:

"Tu não sabes por que a lua
é triste nunca sorri...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas moram ali!"

De certa maneira, acho que estou realizando aquele sonho de infância de andar na lua. E quanto ao sonho de jogador de futebol, peço licença a Alphonsus:

Tu não sabes por que a lua
é redonda em sua forma...
Mas que ingenuidade a tua!
- Os poetas também jogam bola!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Favônio

Um pequeno poema para abrir o apetite...

O que traz o vento,
Em seu ritmo lento,
Escondido nas mãos?
Já se ouve os gritos
De outro ser aflito
Será teu irmão?
Não!

O que traz o vento
Para teu desalento,
Para afagar teu afã?
Parece tão leve
Que andar não lhe serve
Será tua irmã?
Não!

O que traz o vento
Para soprar teu tormento
E calar os teus ais?
Talvez seguro porto,
Teu eterno conforto
Será teu pai?
Não!

O que traz o vento,
Que neste momento,
Afugenta teus cães?
Talvez seja ela,
Que teu nome revela
Será tua mãe?
Não!

Então, o que traz o vento,
Este eterno vento
Que tanto te acalma?
Outra coisa, suponho.
Mas indago medonho,
Será tua alma?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Victor Hugo

Peço licença para pôr à mesa um trecho de mais uma obra clássica da literatura mundial, "Os trabalhadores do mar" de Victor Hugo, retirada de uma edição de 1958 com tradução de Machado de Assis:

"A morte da mãe acrabunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas, é um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturando-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamaou cada vez mais aquela alma e solidão."

Um prato belo e amargo...

Aproveito a oportunidade para convidar mais uma vez todos para participarem da campanha Perca um Livro. Vamos transformar o mundo numa imensa biblioteca!
Grande abraço!