quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Haikais de Alice Ruiz

Pessoal, estou passando aqui para compartilhar um pouco de alguns haikais da escritora Alice Ruiz. Quando falei dos Rubayat de Omar Khayyam, há algumas postagens atrás, mencionei também breviamente os haikais e o mundo de sentidos condensado nesses pequenos versos. Mas prefiro deixar aqui um trecho da própria Alice Ruiz apresentando sua poesia. Informo que tanto o trecho quanto os haikais apresentados a seguir foram retirados de seu livro "Outro silêncio".



O haikai é uma forma poética que tem repercussão cada vez maior no Brasil, desde que ele chegou, em 1908, no navio Kasato Maru, ao porto de Santos, com a primeira leva de imigrantes vinda do Japão, sua terra de origem.

Muito da cultura japonesa, a começar pela escrita, nasceu na China. O haikai não, ele é fruto autêntico da Terra do Sol Nascente. Os próprios chineses deram o nome de Waka a essa poética. Significa “poesia do país de Wa”, que é como eles chamavam o Japão: Wa (“Japão”) ka (“poesia”).

Quando se aprende outra língua, também se aprende outra forma de pensar e até de sentir. Quando se aprende outra escrita, se aprende outra forma de estar no mundo. Quando se aprende uma forma poética distinta da nossa, se aprende outra forma de ser. E, se isso não vale para todas as formas poéticas, com certeza vale para o haikai. (...) 

(Alice Ruiz)


silêncio na mata
a mariposa pousa na flor
outro silêncio


noite de chuva
horas esperando
que o raio volte


vespa no vidro
sobe, cai, volta a subir
por toda a viagem.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Outras Cozinhas - Eduardo Galeano

Hoje o Outras Cozinhas faz uma visita aos escritos do jornalista e escritor Eduardo Galeano, mais especificamente ao seu belo "O livro dos abraços". Sem tecer muitos comentários sobre o livro, ressalto apenas que é uma daquelas obras de rara sensibilidade e que vale a pena ser lida e relida algumas vezes. Deixo aqui a sugestão!

A função da arte - 1

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- ‘Me ajuda a olhar!’


Celebração da voz humana - 1

Os índios Shuar, chamados de Jíbaros, cortam a cabeça do vencido. Cortam e reduzem, até que caiba, encolhida, na mão do vencedor, para que o vencido não ressuscite. Mas o vencido não está totalmente vencido até que fechem sua boca. Por isso os índios costuram seus lábios com uma fibra que não apodrece jamais.


O crime perfeito

Em Londres, é assim: os aquecedores devolvem calor a troco das moedas que recebem. Em pleno inverno alguns exilados latino-americanos britavam de frio, sem nenhuma moeda para fazer funcionar a calefação de seu quarto.

Estavam com os olhos grudados no aquecedor, sem piscar. Pareciam devotos perante o totem, em atitude de adoração; mas eram uns pobres náufragos meditando sobre a maneira de acabar com o Império Britânico. Se pusessem moedas de lata ou papelão, o aquecedor funcionaria, mas o arrecadador encontraria as provas da infâmia.

O que fazer? Se perguntavam os exilados. O frio os fazia tremer como se estivessem com malária. E nisso, um deles lançou um grito selvagem, que sacudiu os alicerces da civilização ocidental. E assim nasceu a moeda de gelo, inventada por um pobre homem gelado.

Imediatamente, puseram mãos a obra. Fizeram moldes de cera, que reproduziam perfeitamente as moedas britânicas; depois encheram os moldes de água e os meteram no congelador.

As moedas de gelo não deixavam pistas, porque o calor as evaporava.

E assim aquele apartamento de Londres converteu-se numa praia do mar Caribe.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Um dicionário que vale a pena...

Em 2010, publicando meus primeiros versos, escrevi um poema um tanto quanto revoltado com os dicionários. Na ocasião, comparei o dicionário a uma prisão, a um livro que assassinava as palavras. De lá pra cá, creio não ter mudado minhas considerações a respeito. Mas nesse período tive a oportunidade de conhecer um dicionário um pouco diferente, que ao invés de aprisionar e matar as palavras, dava-lhes vida e liberdade...

Acredito piamente que o ninho da poesia é a infância. Sendo assim, um dicionário que nascesse das bocas das crianças talvez permitisse que as palavras continuassem vivas, livres para serem lidas em versos, em canções ou em pensamentos silenciosos - que continuassem sendo palavras! E talvez almejando tal façanha, foi que Javier Naranjo idealizou e organizou o Casa das estrelas - O universo contado pelas crianças. Um trabalho incrível e encantador - um dicionário poético, onde cada verbete foi colhido atenciosamente junto a várias crianças de variadas idades e vivências. Desde que conheci o livro, este tem sido meu único e inseparável dicionário. Um dicionário que vale a pena... para não dizer vital.
“Em lábios de crianças, loucos, sábios apaixonados ou solitários, brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada… Feitas de matéria inflamáveis, as palavras se incendeiam assim que as roçam a imaginação ou a fantasia”– Octavio Paz

Abaixo, transcrevo alguns dos verbetes:

Água: transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)

Amor: o que cada coração reúne para dar a alguém. (Lina María Murillo, 10 anos)

Casal: é onde os pássaros se metem. (Diejo Alejandro Tabares, 8 anos)

Deus: é o amor com cabelos grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Espírito: é uma nuvem que cai do céu, e que chega e brinca com um carrinho. (David Hidalgo Ramírez, 6 anos)

Igreja: onde as pessoas vão perdoar Deus. (Natália Bueno, 7 anos).

Mistério: quando minha mamãe sai e não me diz pra onde (Glória María Hidalgo, 10 anos)

Palavra: onde as pombas se escondem (León Afonso Pava, 11 anos)

Pessoa: é uma coisa sentimental. (Lina Marcela Sanchéz, 7 anos)

Violência: se fizerem violência no país, eu vou embora. (Yeny Andrea Rodríguez, 8 anos)



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Outras Cozinhas - O quarto de Quintana

Depois de visitar a casa de Guimarães Rosa, em Cordisburgo - MG, gostei da experiência de levar o “Outras Cozinhas” um pouco além da cozinha. Desta vez fiz uma rápida visita à Casa de Cultura Mário Quintana, onde se encontra uma reconstrução fiel do quarto do poeta gaúcho. O quarto pertencia ao antigo Hotel Majestic, no qual Quintana foi morador por diversos períodos entre os anos de 1968 e 1980. O poeta foi um dos últimos hóspedes a deixar o hotel.

Reconstruído com móveis e objetos pessoais do escritor, o quarto á uma atração para ser admirada com calma. O ambiente ali montado torna todos um pouco mais íntimos do poeta e sua obra. Penso que foi ali que escreveu grande parte de seus poemas, os quais estão hoje no meu e tanto outros quartos pelo mundo. Visitar o lugar foi como ter uma conversa silenciosa com Quintana. Na minha conversa não consegui dizer muita coisa. Foi mais um silencioso e sincero agradecimento.

Ressalto aqui que a Casa Cultural Mário Quintana, além do quarto do poeta, tem diversas outras atrações relacionadas a teatro, música, cinema, dança, etc., que mantém o lugar bem vivo. Vale a pena um passeio demorado pelos andares do antigo hotel. Uma grata surpresa foi encontrar um espaço dedicado à Elis Regina, com documentos e materiais sobre a vida e obra da cantora.





Deixo a sugestão do passeio aqui aos que visitarem Porto Alegre. E junto à sugestão, como já é hábito no “Outras Cozinhas”, três poemas do escritor.

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Tão linda e serena e bela

Tão lenta e serena e bela e majestosa
[vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural e simples como a primeira canção
A vaca, se cantasse,
Que cantaria?
Nada de óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito,
A longa, misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de superaviões, tratores, êmbolos
E outros truques mecânicos!

sábado, 21 de maio de 2016

Rubaiyat

Rubaiyat – plural de rubai. Quadras poéticas consagradas pelo poeta persa Omar Khayyam (1048-1131). E Rubaiyat foi o nome dado por Edward Fitzgerald a uma seleção de poemas de Omar, quando o inglês os traduziu pela primeira vez. Em sua tradução, Fitzgerald conseguiu manter a estrutura original dos versos (1º, 2º e 4º versos com a mesma rima e o 3º branco, ou seja, sem rima). Desde então outras traduções foram feitas, em diversas línguas (como a portuguesa) – algumas conseguindo manter a estrutura e aproximar do sentido original, outras nem tanto. Fato é que, traduções a parte, os rubaiyat de Omar ratificam a força de condensação que as línguas e poesias Orientais possuem e que as Ocidentais ainda têm muito o que aprender.

Nesta semana, graças aos bons e velhos sebos, um belo exemplar em português do Rubaiyat de Omar Khayyam chegou às minhas mãos. Já o devorei como uma pessoa que estivesse há dias sem comer e de repente fosse colocado um banquete imenso à sua frente.  Mas pretendo ler novamente, outras tantas vezes. Não é possível saborear devidamente os rubaiyat de Omar com tanta pressa. A poesia ali condensada precisa ser degustada aos pouquinhos, com calma. Um rubai, um haikai, um gazal , podem conter um mundo de sentidos, de “especiarias”, os quais um leitor apressado jamais será capaz de apreciar.

Tratando-se especificamente da obra de Omar, há várias discussões e interpretações sobre os sentidos de seus versos, sobre o significado de algumas expressões, sobre a essência de sua obra. Longe de entrar nessas discussões, gostaria de compartilhar aqui alguns rubaiayt que me foram mais saborosos. Ressalto que a tradução que tenho em mãos é de Jamil Almansur Haddad e, de maneira geral, não foi mantida a estrutura original dos versos mencionada anteriormente.

A Tulipa não vês que, na hora matinal,
Absorve da atmosfera o Vinho celestial?
Faze com crença o mesmo até que o Céu um dia
Te inverta para o Chão, feito ânfora vazia.


Eu minha Alma enviei para o espaço sem fim
para um Traço apreender do Mistério do Além.
Minha Alma devagar foi retornando a mim
E disse: “Eu sou o Céu e o Inferno também.”


Dispõe o Eterno Escriba. E havendo escrito,
A folha vira: e não há ciência ou devoção
Que cancele uma Linha; e não há pranto aflito
Que risque uma Palavra! Ah, todo choro é vão!


As esperanças vãs do Coração de um Homem
Ora são cinza, ora Esplendor, porém, em breve,
Como por sobre o pó dos Desertos a Neve,
Brilham somente uma hora ou duas e após somem.


Tanto ao homem que o seu HOJE prepara,
Como ao que no AMANHÃ incerto pensa,
Da Torre negra um Muezim gritara:
“Tolos! Nem cá nem lá há recompensa!”


Tuas cogitações, murmura a Multidão,
O Ano reduzirão a melhor curso? Não.
Um aviso somente o calendário deu:
“– O ontem já se extinguiu e o Amanhã não nasceu."


O mistério indaguei do Ser e do Não ser
E fui investigar não sei quanta grandeza.
De quanta cousa enfim eu procurei saber
Só no vinho encontrei alguma profundeza.

sábado, 7 de maio de 2016

Outras Cozinhas - João Guimarães Rosa

Hoje o “Outras Cozinhas” faz uma visita a Guimarães Rosa. Mas desta vez não ficamos limitados à cozinha, visitamos a casa inteira. Tive a oportunidade de conhecer há algumas semanas a simpática e encantadora de Cordisburgo-MG, terra natal do escritor e berço de muitas de suas histórias e personagens. Entre as várias atrações que a cidade oferece (Gruta de Maquiné, Portal Grande Sertão, Zoológico de Pedra, Empório do Brasinha – Projeto Recordanças...) está o Museu Casa Guimarães Rosa.
Visitar o museu é um mergulho na vida e obra do escritor. Lá é possível conhecer um pouco da infância de João, ver fotografias de sua família, de seus amigos que o inspiraram, sua elegante coleção de gravatas borboletas, o sacro quarto de sua avó, manuscritos, etc... É encantador. Não posso deixar de ressaltar os guias do museu – jovens do projeto Miguelim que tornam a visita mais agradável e enriquecedora, além de nos presentar com declamações de trechos dos contos de Guimarães Rosa.

Por isso deixo aqui a sugestão de visita ao Museu Casa Guimarães Rosa. Não só ao museu, mas à cidade de Cordisburgo. As pessoas de lá sabem ser acolhedoras e mantém viva a memória do Cordisburguense João. Ali Guimarães Rosa ainda passeia. Ali pulsa o Sertão.




Trecho do Grande Sertão: Veredas

“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isto que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas: mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei – “Amanhã eu tiro ...” – falei, comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido corroído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo – por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí esta:  Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...” 



sábado, 23 de abril de 2016

Reabrindo as portas

Hoje, dia 23 de abril, comemora-se o dia mundial do Livro. Aproveito a data para “reabrir” o Sobra ou Sobremesa que estava “fechado” desde 2015. Reabro o blog com algumas sugestões de leitura, obras que tive a oportunidade de ler nos últimos tempos e das quais gostei muito. Gostaria também de informar que, apesar do longo período sem novas postagens, tentarei trazer algumas novidades no decorrer das próximas semanas. Boa leitura a todos!


*Utilizo-me aqui das sinopses encontradas nos próprios livros.

A lebre com olhos de âmbar - Edmund Waal

"Nenhuma das miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim era maior que uma caixa de fósforos. Edmund Waal ficou fascinado ao encontrar essa coleção em Tóquio, no apartamento de seu tio-avô, Ignace. Mais tarde, quando Edmund herdou os netsuquês, eles revelaram uma história muito mais ampla que ele imaginara...

Os Ephrussis, originários de Odessa, eram os maiores exportadores de trigo do mundo; em 1870, Charles Ephrussi fazia parte da nova geração de financistas estabelecida em Paris. Sua personalidade inspirou Marcel Proust, que foi durante um curto período secretário de Charles, a criar a Swann, personagem de Em busca do tempo perdido. Colecionar objetos de arte era a paixão de Charles, e os netsuquês – comprados quando os objetos japoneses estavam em alta nos salões parisienses – foram enviados como presente de casamento ao seu primo, um banqueiro em Viena.

Anos depois, três crianças, inclusive o jovem Ignace, brincavam com as miniaturas, enquanto a História reverberava ao redor deles. A anexação da Áustria e a Segunda Guerra Mundial levaram os Ephrussis e seu fausto ao esquecimento. (...)

Com essas memórias impressionantes, Edmund Waal viaja pelo mundo e coloca-se diante das magníficas construções que seus antepassados habitaram. Ele traça as relações de uma família memorável no cenário de um século tumultuado. Com uma prosa elegante e precisa, como os próprios netsuquês, o autor conta a história de uma coleção ímpar que, por um capricho do destino, encontrou o rumo de casa depois de passar pelo Japão."

A alma e a dança e outros diálogos - Paul Valéry

"Não te parece, Erixímaco, e a ti, caro Fedro, que essa criatura que vibra ali, e que se agita adoravelmente para nossos olhos, essa ardente Athiktê que se divide e se reúne, que se alteia e se abaixa, que se abre e se fecha tão depressa, e que parece pertencer a outras constelações que não são as nossas - não parecem viver, como se fosse em casa, num elemento comparável ao fogo - numa essência muito sutil de movimento e música, onde ela respira uma energia inesgotável, enquanto participa, com todo seu ser, da violência pura e imediata de uma extrema felicidade?"

Puro - Andrew Miller

"Paris, 1785.
Jean-Baptiste Baratte, um jovem engenheiro de origem modesta, recebe de um dos ministros do rei Luiz XVI uma missão desafiadora: livrar-se da igreja e do cemitério de Les Innocents. O cemitério vem acumulando corpos há séculos, chegando ao ponto da população vizinha sentir o gosto dos cadáveres na comida e na água. Respiram a morte, têm seu cheiro, seu hálito.

No começo, Baratte vê nessa empreitada uma chance de limpar o fardo da história, a tarefa perfeita para um homem moderno, do futuro, da razão. Mas logo ele percebe que a igreja e o cemitério são prenúncios de uma queda maior que está por vir. Os rumores de uma grande mudança que se aproxima ganham volume, e o povo se divide quanto ao trabalho de Baratte: ao mesmo tempo que a cidade já não suporta mais um cemitério que não para de receber corpos e não tem para onde crescer, é difícil aceitar a mudança e tirar de cena um dos marcos do passado monárquico.

O engenheiro imagina que a missão seja ingrata, das mais desagradáveis, mas não faz ideia dos dramas e das calamidades que se avizinham e se concretizam conforme os ossos começam a emergir de seus séculos de descanso. E, com a agitação contra a corte de Luiz XVI se tornando cada vez mais insuportável, Baratte percebe que o futuro que planejara para si pode não ser mais o que ele quer de fato."