Parábola
da Montanha
A menina gostava de calcular
Nas grandezas dos miúdos e farelos.
Fora sempre assim, desde miudinha,
Treinava seus olhos com
Formigas e diacríticos.
Não percebia montanhas.
Passou a calcular coisas maiores:
Galopes, manacás, cachoeiras inteiras...
Quanta noite numa coruja!
Ainda sim, não calculava montanhas.
Somava tudo com os dedos - os mindinhos.
Mas o mundo é longe,
Tem montanhas,
Tem grandezas grandes.
E rios a faziam perder a conta.
(Tinha que apagar tudo com céu
E recomeçar).
Certa vez, por acaso dos vagalumes,
Resolveu apagar a soma com céu anoitecido
(ficou um borrão enluarado)
E começou a desconfiar do infinito.
Logo percebeu que as casas, as árvores,
O seu tio mais alto,
Eram todos da grandeza dos farelos.
Calculou as montanhas.
Passou a somar tudo,
Tudo que existia (até coisa sem tamanho).
Mas nem usando o céu, o sol
E todos os arroios que encontrava,
A menina conseguiu subtrair a tristeza
No canto do pintassilgo
E no olhar dos homens.
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