terça-feira, 8 de abril de 2014

Dor de lado



Começou logo nos primeiros dias do ano. Acordei com uma dorzinha no abdômen, do lado direito, com umas pontadas, uma espécie de cólica na região da vesícula, alguma coisa na região do fígado. Definindo melhor, acordei com uma “dor de lado”.

Os dias se passaram e ela permaneceu. Havia dias em que sumia, dias em que voltava. Meses se passaram. Aconselhado pelos amigos (com aquele tom de terror: “Melhor olhar isso! Conheço gente que morreu e que começou com uma dorzinha assim!”), resolvi procurar um médico. Expliquei-lhe minha “dor de lado” e ele me solicitou uma série de exames. Tomografia e um tanto de sangue: amilase, glicemia, coagulograma, hemograma, trigricerides, pós-prandial e outros tantos que não consegui entender. Ainda bem que existem nessas clínicas de exames habilidosos decifradores de hieróglifos médicos.

Fui fazer os exames. Uma novela! Entre feriados e jejuns mal feitos, fiz todos os exames solicitados quase um mês após a consulta. E a “dor de lado” continuava lá. Mais sumida do que o habitual, mas continuava. Eu já havia até me acostumado. Sempre me vinha na cabeça os versos de Leminski e repetia para mim mesmo que “um homem com dor é muito mais elegante”. Não cheguei ao ponto de caminhar de lado, como sugere o poema, apenas me contorcia um pouco quando ela aparecia mais intensa e, sinceramente, não devia ser lá muito elegante.
  
Voltei ao médico. Nada! Estava tudo bem, os exames não mostraram nenhum problema. Na verdade até mostraram um pequeno cálculo do lado esquerdo, mas nada que pudesse justificar aquela “dor de lado”. Acabei por desistir de procurar motivos para aquela dor. Havíamos nos habituados um ao o outro. E ela já quase não aparecia. O tempo estava curando minha dor no abdômen assim como faz com as dores da alma. 

Atualmente, são raros os dias que acordo e sinto a minha “dor de lado”. É provável que em um futuro muito breve eu acorde e ela tenha sumido de vez. Minha elegância, minha incômoda companheira! É possível que, daqui uns dias, reste apenas uma lembrança dessa dor abdominal, dessas pontadas, dessa espécie de cólica na região da vesícula, alguma coisa na região do fígado. Definindo melhor, é possível que reste apenas uma “saudade de lado”.

E para quem não conhece o poema de Leminski citado acima:

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Nenhum comentário:

Postar um comentário