Começou logo nos primeiros dias do ano. Acordei com uma dorzinha no abdômen, do lado direito, com umas pontadas, uma espécie de cólica na região da vesícula, alguma coisa na região do fígado. Definindo melhor, acordei com uma “dor de lado”.
Fui
fazer os exames. Uma novela! Entre feriados e jejuns mal feitos, fiz todos os
exames solicitados quase um mês após a consulta. E a “dor de lado” continuava
lá. Mais sumida do que o habitual, mas continuava. Eu já havia até me
acostumado. Sempre me vinha na cabeça os versos de Leminski e repetia para mim
mesmo que “um homem com dor é muito mais elegante”. Não cheguei ao ponto de
caminhar de lado, como sugere o poema, apenas me contorcia um pouco quando ela
aparecia mais intensa e, sinceramente, não devia ser lá muito elegante.
Voltei
ao médico. Nada! Estava tudo bem, os exames não mostraram nenhum problema. Na
verdade até mostraram um pequeno cálculo do lado esquerdo, mas nada que pudesse
justificar aquela “dor de lado”. Acabei por desistir de procurar motivos para
aquela dor. Havíamos nos habituados um ao o outro. E ela já quase não aparecia.
O tempo estava curando minha dor no abdômen assim como faz com as dores da
alma.
Atualmente,
são raros os dias que acordo e sinto a minha “dor de lado”. É provável que em
um futuro muito breve eu acorde e ela tenha sumido de vez. Minha elegância,
minha incômoda companheira! É possível que, daqui uns dias, reste apenas uma
lembrança dessa dor abdominal, dessas pontadas, dessa espécie de cólica na
região da vesícula, alguma coisa na região do fígado. Definindo melhor, é possível que reste apenas
uma “saudade de lado”.
E para quem não conhece o poema de Leminski citado acima:
E para quem não conhece o poema de Leminski citado acima:
Dor elegante
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

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