segunda-feira, 14 de abril de 2014

Antigos donos das flechas



Existem várias maneiras de contar uma história. Vários ângulos, vários pontos de vista. E embora muitos tenham preferido contar a colonização do oeste estadunidense através de histórias de mocinhos e bandido, Dee Brown resolveu dar vozes aos índios, narrar a história do ponto de vista indígena. Mas mesmo o autor utilizando os mais variados artifícios de que um escritor pode lançar mão para compor sua obra, uma coisa permaneceu inalterada, invariável: a tristeza dessa história. “Enterrem meu coração na curva do rio” relata de maneira detalhada uma vergonhosa página da história da humanidade, um massacre cruel e covarde dos índios norte-americanos. 

Mas em meio a tantos relatos de injustiça e crueldade, creio que valem ser ressaltados alguns outros aspectos da obra. A importância histórica do livro, que ampliou ainda mais o olhar do mundo sobre todas as atrocidades cometidas contras os índios, não apenas os norte-americanos, pois penso que o bom leitor poderá estender o relato, de maneira muito similar, sobre os povos indígenas latino-americanos. Outro aspecto que poderíamos ressaltar são os exemplos de sabedoria contidos no livro que emergem em homens que desejavam apenas viver em paz com os demais e fazer das diferenças sinais de respeito e tolerância.
Como nessa semana (dia 19) comemora-se o Dia do Índio, pensei em deixar de sugestão esse belo livro de Dee Brown. Abaixo coloco um trecho do livro, um relato de Robert Bent, que presenciou parte dessa grande covardia descrita na obra. E por fim, sirvo também uma bela canção cantada pela fabulosa Mercedes Sosa, que homenageia de maneira muito singela “os antigos donos das flechas”:

“Vi a bandeira americana flamulando e ouvi Chaleira Preta dizer aos índios que ficassem à volta da bandeira, e ali estavam eles amontoados – homens, mulheres e crianças. Isso quando estávamos a uns cinco metros dos índios. Vi também uma bandeira branca içada. As bandeiras estavam numa posição tão evidente que, necessariamente, seriam vistas. Quando os soldados atiraram, os índios correram, alguns dos homens para tendas, provavelmente para pegar armas… Acho que havia, ao todo, uns 600 índios. Uns 35 bravos e alguns velhos, cerca de 60 ao todo... o resto dos homens estava fora do acampamento, caçando... Depois da salva, os guerreiros puseram as squaws e as crianças juntas para protegê-las. Vi cinco squaws sob um banco, em busca de proteção. Quando as tropas as alcançaram, saíram e mostraram-se para que os soldados vissem que eram squaws, e pediram mercê, mas os soldados feriram-nas.  Vi uma squaw no banco, com a perna quebrada por um obus; um soldado foi até ela com o sabre desembainhado, ela levantou um braço para se proteger, quando ele golpeou, quebrando-lhe o braço; ela rolou e levantou o outro braço, que ele golpeou , quebrou; depois, deixou-a , sem matá-la. Parecia haver uma matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Havia cerca de trinta ou quarenta squaws reunidas numa caverna como abrigo. Enviaram uma menina de cerca de seis anos com uma bandeira branca num pau; mal dera uns passos, ela foi atingida e morta. Todas as squaws da caverna foram mortas mais tarde, além de quatro ou cinco homens fora dela. As squaws não ofereceram resistência. Todo mundo que vi morto estava escalpado. Vi uma squaw cortada com um filho ainda não nascido, segundo me pareceu, ao seu lado. O capitão Soule me disse depois que havia sido isso mesmo. Vi o corpo de Antílope branco com os genitais cortados e ouvi um soldado dizer que iria fazer uma bolsa de fumo com eles. Vi uma squaw com os genitais cortados… Vi uma menina de uns cincos anos que se escondera na areia; dois soldados descobriram–na, tiraram seus revólveres e a mataram, arrastando-a depois pelo braço sobre a areia. Vi várias crianças de colo mortas com suas mães.”

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