Existem várias maneiras de contar uma história. Vários ângulos, vários pontos de vista. E embora muitos tenham preferido contar a colonização do oeste estadunidense através de histórias de mocinhos e bandido, Dee Brown resolveu dar vozes aos índios, narrar a história do ponto de vista indígena. Mas mesmo o autor utilizando os mais variados artifícios de que um escritor pode lançar mão para compor sua obra, uma coisa permaneceu inalterada, invariável: a tristeza dessa história. “Enterrem meu coração na curva do rio” relata de maneira detalhada uma vergonhosa página da história da humanidade, um massacre cruel e covarde dos índios norte-americanos.
Mas em meio a tantos relatos de
injustiça e crueldade, creio que valem ser ressaltados alguns outros aspectos
da obra. A importância histórica do livro, que ampliou ainda mais o olhar do
mundo sobre todas as atrocidades cometidas contras os índios, não apenas os
norte-americanos, pois penso que o bom leitor poderá estender o relato, de
maneira muito similar, sobre os povos indígenas latino-americanos. Outro aspecto
que poderíamos ressaltar são os exemplos de sabedoria contidos no livro que
emergem em homens que desejavam apenas viver em paz com os demais e fazer das
diferenças sinais de respeito e tolerância.
Como nessa semana (dia 19)
comemora-se o Dia do Índio, pensei em deixar de sugestão esse belo livro de Dee
Brown. Abaixo coloco um trecho do livro, um relato de Robert Bent, que
presenciou parte dessa grande covardia descrita na obra. E por fim, sirvo
também uma bela canção cantada pela fabulosa Mercedes Sosa, que homenageia de
maneira muito singela “os antigos donos das flechas”:
“Vi a bandeira americana
flamulando e ouvi Chaleira Preta dizer aos índios que ficassem à volta da
bandeira, e ali estavam eles amontoados – homens, mulheres e crianças. Isso
quando estávamos a uns cinco metros dos índios. Vi também uma bandeira branca
içada. As bandeiras estavam numa posição tão evidente que, necessariamente,
seriam vistas. Quando os soldados atiraram, os índios correram, alguns dos
homens para tendas, provavelmente para pegar armas… Acho que havia, ao todo,
uns 600 índios. Uns 35 bravos e alguns velhos, cerca de 60 ao todo... o resto
dos homens estava fora do acampamento, caçando... Depois da salva, os
guerreiros puseram as squaws e as crianças juntas para protegê-las. Vi cinco
squaws sob um banco, em busca de proteção. Quando as tropas as alcançaram,
saíram e mostraram-se para que os soldados vissem que eram squaws, e pediram
mercê, mas os soldados feriram-nas. Vi
uma squaw no banco, com a perna quebrada por um obus; um soldado foi até ela
com o sabre desembainhado, ela levantou um braço para se proteger, quando ele
golpeou, quebrando-lhe o braço; ela rolou e levantou o outro braço, que ele
golpeou , quebrou; depois, deixou-a , sem matá-la. Parecia haver uma matança
indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Havia cerca de trinta ou
quarenta squaws reunidas numa caverna como abrigo. Enviaram uma menina de cerca
de seis anos com uma bandeira branca num pau; mal dera uns passos, ela foi
atingida e morta. Todas as squaws da caverna foram mortas mais tarde, além de
quatro ou cinco homens fora dela. As squaws não ofereceram resistência. Todo
mundo que vi morto estava escalpado. Vi uma squaw cortada com um filho ainda
não nascido, segundo me pareceu, ao seu lado. O capitão Soule me disse depois
que havia sido isso mesmo. Vi o corpo de Antílope branco com os genitais
cortados e ouvi um soldado dizer que iria fazer uma bolsa de fumo com eles. Vi
uma squaw com os genitais cortados… Vi uma menina de uns cincos anos que se
escondera na areia; dois soldados descobriram–na, tiraram seus revólveres e a
mataram, arrastando-a depois pelo braço sobre a areia. Vi várias crianças de colo
mortas com suas mães.”

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