quinta-feira, 24 de abril de 2014

Outras Cozinhas (Leminski, Cecília e Ubiratan)

Ler pelo não (Leminski)

Ler pelo não, quem dera!
Em cada ausência, sentir o cheiro forte
do corpo que se foi,
a coisa que se espera.
Ler pelo não, além da letra,
ver, em cada rima vera, a prima pedra,
onde a forma perdida
procura seus etcéteras.
Desler, tresler, contraler,
enlear-se nos ritmos da matéria,
no fora, ver o dentro e, no dentro, o fora,
navegar em direção às Índias
e descobrir a América.


Lamento do oficial por seu cavalo morto (Cecília Meireles)

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado - melhor que nós todos!
- que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...
Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos...
Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!


Palavras para uma valsa dolente (Ubiratan Rosa)

Não quero chorar as dores
que invadem meu coração;
com as dores que me invadem
vou compor uma canção.

Vou cantar o meu amor
razão das dores de outrora,
esse amor sutil e esquivo,
razão das dores de agora...

Não, não; não quero chorar,
vou compor uma canção...
Canta sempre, eternamente,
canto tolo coração...

Canta a dor que te dói tanto,
canta a dor que te consome,
e ao cansares do teu canto,
coração, sossega, e dorme...

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