terça-feira, 29 de abril de 2014

Parábola da Montanha

Mais uma das "Parábolas de Quintal":


Parábola da Montanha

A menina gostava de calcular
Nas grandezas dos miúdos e farelos.
Fora sempre assim, desde miudinha,
Treinava seus olhos com
Formigas e diacríticos.

Não percebia montanhas.

Passou a calcular coisas maiores:
Galopes, manacás, cachoeiras inteiras...
Quanta noite numa coruja!

Ainda sim, não calculava montanhas.

Somava tudo com os dedos - os mindinhos.

Mas o mundo é longe,
Tem montanhas,
Tem grandezas grandes.
E rios a faziam perder a conta.
(Tinha que apagar tudo com céu
E recomeçar).

Certa vez, por acaso dos vagalumes,
Resolveu apagar a soma com céu anoitecido
(ficou um borrão enluarado)
E começou a desconfiar do infinito.

Logo percebeu que as casas, as árvores,
O seu tio mais alto,
Eram todos da grandeza dos farelos.

Calculou as montanhas.

Passou a somar tudo,
Tudo que existia (até coisa sem tamanho).
Mas nem usando o céu, o sol
E todos os arroios que encontrava,
A menina conseguiu subtrair a tristeza
No canto do pintassilgo
E no olhar dos homens.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Outras Cozinhas (Leminski, Cecília e Ubiratan)

Ler pelo não (Leminski)

Ler pelo não, quem dera!
Em cada ausência, sentir o cheiro forte
do corpo que se foi,
a coisa que se espera.
Ler pelo não, além da letra,
ver, em cada rima vera, a prima pedra,
onde a forma perdida
procura seus etcéteras.
Desler, tresler, contraler,
enlear-se nos ritmos da matéria,
no fora, ver o dentro e, no dentro, o fora,
navegar em direção às Índias
e descobrir a América.


Lamento do oficial por seu cavalo morto (Cecília Meireles)

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado - melhor que nós todos!
- que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...
Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos...
Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!


Palavras para uma valsa dolente (Ubiratan Rosa)

Não quero chorar as dores
que invadem meu coração;
com as dores que me invadem
vou compor uma canção.

Vou cantar o meu amor
razão das dores de outrora,
esse amor sutil e esquivo,
razão das dores de agora...

Não, não; não quero chorar,
vou compor uma canção...
Canta sempre, eternamente,
canto tolo coração...

Canta a dor que te dói tanto,
canta a dor que te consome,
e ao cansares do teu canto,
coração, sossega, e dorme...

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Antigos donos das flechas



Existem várias maneiras de contar uma história. Vários ângulos, vários pontos de vista. E embora muitos tenham preferido contar a colonização do oeste estadunidense através de histórias de mocinhos e bandido, Dee Brown resolveu dar vozes aos índios, narrar a história do ponto de vista indígena. Mas mesmo o autor utilizando os mais variados artifícios de que um escritor pode lançar mão para compor sua obra, uma coisa permaneceu inalterada, invariável: a tristeza dessa história. “Enterrem meu coração na curva do rio” relata de maneira detalhada uma vergonhosa página da história da humanidade, um massacre cruel e covarde dos índios norte-americanos. 

Mas em meio a tantos relatos de injustiça e crueldade, creio que valem ser ressaltados alguns outros aspectos da obra. A importância histórica do livro, que ampliou ainda mais o olhar do mundo sobre todas as atrocidades cometidas contras os índios, não apenas os norte-americanos, pois penso que o bom leitor poderá estender o relato, de maneira muito similar, sobre os povos indígenas latino-americanos. Outro aspecto que poderíamos ressaltar são os exemplos de sabedoria contidos no livro que emergem em homens que desejavam apenas viver em paz com os demais e fazer das diferenças sinais de respeito e tolerância.
Como nessa semana (dia 19) comemora-se o Dia do Índio, pensei em deixar de sugestão esse belo livro de Dee Brown. Abaixo coloco um trecho do livro, um relato de Robert Bent, que presenciou parte dessa grande covardia descrita na obra. E por fim, sirvo também uma bela canção cantada pela fabulosa Mercedes Sosa, que homenageia de maneira muito singela “os antigos donos das flechas”:

“Vi a bandeira americana flamulando e ouvi Chaleira Preta dizer aos índios que ficassem à volta da bandeira, e ali estavam eles amontoados – homens, mulheres e crianças. Isso quando estávamos a uns cinco metros dos índios. Vi também uma bandeira branca içada. As bandeiras estavam numa posição tão evidente que, necessariamente, seriam vistas. Quando os soldados atiraram, os índios correram, alguns dos homens para tendas, provavelmente para pegar armas… Acho que havia, ao todo, uns 600 índios. Uns 35 bravos e alguns velhos, cerca de 60 ao todo... o resto dos homens estava fora do acampamento, caçando... Depois da salva, os guerreiros puseram as squaws e as crianças juntas para protegê-las. Vi cinco squaws sob um banco, em busca de proteção. Quando as tropas as alcançaram, saíram e mostraram-se para que os soldados vissem que eram squaws, e pediram mercê, mas os soldados feriram-nas.  Vi uma squaw no banco, com a perna quebrada por um obus; um soldado foi até ela com o sabre desembainhado, ela levantou um braço para se proteger, quando ele golpeou, quebrando-lhe o braço; ela rolou e levantou o outro braço, que ele golpeou , quebrou; depois, deixou-a , sem matá-la. Parecia haver uma matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Havia cerca de trinta ou quarenta squaws reunidas numa caverna como abrigo. Enviaram uma menina de cerca de seis anos com uma bandeira branca num pau; mal dera uns passos, ela foi atingida e morta. Todas as squaws da caverna foram mortas mais tarde, além de quatro ou cinco homens fora dela. As squaws não ofereceram resistência. Todo mundo que vi morto estava escalpado. Vi uma squaw cortada com um filho ainda não nascido, segundo me pareceu, ao seu lado. O capitão Soule me disse depois que havia sido isso mesmo. Vi o corpo de Antílope branco com os genitais cortados e ouvi um soldado dizer que iria fazer uma bolsa de fumo com eles. Vi uma squaw com os genitais cortados… Vi uma menina de uns cincos anos que se escondera na areia; dois soldados descobriram–na, tiraram seus revólveres e a mataram, arrastando-a depois pelo braço sobre a areia. Vi várias crianças de colo mortas com suas mães.”

terça-feira, 8 de abril de 2014

Dor de lado



Começou logo nos primeiros dias do ano. Acordei com uma dorzinha no abdômen, do lado direito, com umas pontadas, uma espécie de cólica na região da vesícula, alguma coisa na região do fígado. Definindo melhor, acordei com uma “dor de lado”.

Os dias se passaram e ela permaneceu. Havia dias em que sumia, dias em que voltava. Meses se passaram. Aconselhado pelos amigos (com aquele tom de terror: “Melhor olhar isso! Conheço gente que morreu e que começou com uma dorzinha assim!”), resolvi procurar um médico. Expliquei-lhe minha “dor de lado” e ele me solicitou uma série de exames. Tomografia e um tanto de sangue: amilase, glicemia, coagulograma, hemograma, trigricerides, pós-prandial e outros tantos que não consegui entender. Ainda bem que existem nessas clínicas de exames habilidosos decifradores de hieróglifos médicos.

Fui fazer os exames. Uma novela! Entre feriados e jejuns mal feitos, fiz todos os exames solicitados quase um mês após a consulta. E a “dor de lado” continuava lá. Mais sumida do que o habitual, mas continuava. Eu já havia até me acostumado. Sempre me vinha na cabeça os versos de Leminski e repetia para mim mesmo que “um homem com dor é muito mais elegante”. Não cheguei ao ponto de caminhar de lado, como sugere o poema, apenas me contorcia um pouco quando ela aparecia mais intensa e, sinceramente, não devia ser lá muito elegante.
  
Voltei ao médico. Nada! Estava tudo bem, os exames não mostraram nenhum problema. Na verdade até mostraram um pequeno cálculo do lado esquerdo, mas nada que pudesse justificar aquela “dor de lado”. Acabei por desistir de procurar motivos para aquela dor. Havíamos nos habituados um ao o outro. E ela já quase não aparecia. O tempo estava curando minha dor no abdômen assim como faz com as dores da alma. 

Atualmente, são raros os dias que acordo e sinto a minha “dor de lado”. É provável que em um futuro muito breve eu acorde e ela tenha sumido de vez. Minha elegância, minha incômoda companheira! É possível que, daqui uns dias, reste apenas uma lembrança dessa dor abdominal, dessas pontadas, dessa espécie de cólica na região da vesícula, alguma coisa na região do fígado. Definindo melhor, é possível que reste apenas uma “saudade de lado”.

E para quem não conhece o poema de Leminski citado acima:

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Abril

Para celebrarmos o começo de Abril, alguns versos...

...

Ganhar uma cor de Abril
Dando voltas na praça.
Aconselhando o inverno
Para quem passa.

Buscando atentamente
Qualquer estrela escassa
Para saber se a noite caiu
Fora ou dentro de casa.