quarta-feira, 29 de junho de 2011

Outras cozinhas (dos amores perdidos)

Essa que hei de amar perdidamente um dia (Guilherme de Almeida)

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"


Hão de chorar por ela os cinamomos
(Alphonsus de Guimaraens)

Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"


Perdoa-me, visão dos meus amores (Álvares de Azevedo)

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores…

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…

Sem que última esperança me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Trovas

Fiz para você uma trova,
sem sequer ser trovador.
Ela é bem mais que uma prova,
é um veredicto de amor!

Não tenho o hábito de escrever trovas. Essa surgiu numa das raras vezes que me arrisquei por esse caminho. Talvez motivado pelo livro de trovas que tenho em mãos desde o começo desse mês: Degraus do Sonho, da poetisa Manita. Segundo as informações do livro em questão, Manita é membro correspondente da Academia Fluminense de Letras, membro efetivo da Academia Teresopolitana de Letras, do Clube dos Poetas Fluminenses, da Sociedade Cultural e Artística Brasileira (S.C.A.B.) e do Grêmio Brasileiro de Trovadores. Não consegui muito mais informações sobre a autora, como sua data de nascimento e se ainda é viva. Fato é que o “Degraus do Sonho” que tenho comigo foi publicado em 1966.
Outra pequena informação que tenho sobre Manita é que ela visitou algumas vezes minha cidade natal, Ervália. E tais visitas devem ter sido bastante agradáveis, pois fez a autora dedicar algumas de suas belas trovas a essa pequena grande cidade. Uma delas, compartilho agora em nossa mesa:

A noite, nos céus de Ervália,
Tão bela, dá gosto de vê-la;
Não há lugar, Deus me valha,
Para pôr mais uma estrela.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O elo perdido

Caros arqueólogos e simpatizantes, parem com essa bobagem de procurar o “elo perdido”! Nunca perdemos o elo com os animais, com os primatas. Somos os mesmos homens de sempre (talvez mais eretos e menos emotivos). O que perdemos foi o elo com o outro mundo, com os sonhos, com as coisas que não existem. Estamos na “era do coração de pedra”.
Inventamos a roda, mas perdemos a direção. Inventamos a lâmpada, mas perdemos as estrelas. Inventamos o telefone, mas perdemos as palavras. Inventamos o avião, mas atropelamos os anjos... Aprendemos a contar, calcular, medir, e criamos uma espécie de fita métrica para o céu, para nos certificarmos que aquele pedaço de azul cabe em nosso poema em redondilha maior. Trocamos cinco palmos de poesia por dois dedos de prosa apressados. Sabemos exatamente quantos copos d’água nossa flor no vaso necessita, mas esquecemos qual a nossa dose diária de flores para sobreviver.
Experimentem um dia escavar livros. Não os seus próprios livros, mas esses livros rasos que algumas crianças guardam como tesouros. Nossa história não está numa ossada enterrada no barro, está manchada à tinta no papel. Nesses papéis de histórias inventadas. Nossos ancestrais são deuses, ninfas, Otelo, Pinóquio, Dorian Gray, Dom Quixote (esse último considero da família) etc. Talvez muitas pessoas duvidem, mas alguns de nossos ancestrais tinham asas. Porém, deu-se a evolução e as perdemos. Agora estamos a pouco de perder o siso.
Por isso, mais uma vez, peço encarecidamente que parem de procurar dinossauros, primatas, ossadas de qualquer espécie, e vão todos procurar suas almas peludas!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Hermenêutica

O texto de Vivaldo Coaracy, servido no último prato, foi retirado de um livro de 1930. Apesar disso, continua bem atual (com exceção de algumas regras ortográficas). Isso me fez lembrar um pequeno pensamento que eu havia passado para o papel há um tempo atrás:

Todo autor deve ser lido e interpretado sob a luz de sua época. É impossível compreender inteiramente um autor e suas obras sem considerar o contexto, o momento histórico em que ele viveu. Bem verdade, como disse Nietzsche, que alguns autores já nascem póstumos e só serão compreendidos em épocas futuras, depois de sua morte. O próprio Nietzsche era um deles. Ah, e é preciso lembrar dos poetas. Esses devem ser lidos sob a luz das estrelas.

domingo, 12 de junho de 2011

Brasileiros, até quando brasileiros? - Final

Continua...

Figuremos, por exemplo, quanto mais clara se tornaria a nossa historia, se na mesma fossem incluidos alguns capitulos como os seguintes: "Formação e evolução dos Brasileiros e dos Brasis", "Desenvolvimento da economia dos Brasis", "Processos politicos e administrativos dos Brasileiros", "Lutas de facções entre os Brasileiros", "Miseria e decadencia dos Brasis", etc.
Sob o ponto de vista social não seriam pequenas as vantagens, antes é provavel que uma grande transformação dahi viesse a resultar. Imagine-se por um momento que fosse possivel realizar-se essa fantasia ociosa que esbocei. É evidente que ninguem quereria ser considerado entre os profissionaes do Brasil. Os mais ferozes "brasileiros" de hoje passariam logo, por simples pudor, ou conveniencia propria, a affirmar que eram legitimos "brasis", que sempre o haviam sido no mais intimo dos seus sentimentos. É provavel que a designação "brasileiro" passasse mesmo a ser considera injuria, passivel de pena, quando a imprensa da opposição a empregasse. E aquelle mecanismo suggestivo das palavras, que ainda ha pouco recordei, paulatinamente uma transformação nas mentalidades se realisaria. Já não seria implantanta na imaginação ductil dos garotos que aprendem a ler a noção irradicavel de que a sua vocação profissional era ser, pelo menos, deputado ou governador de Estado. Só isto seria um benefico incalculavel.
E é possivel que dentro de dois ou tres seculos, por que devemos acreditar na lei da evolução, viesse mesmo a desapparecer a profissão de brasileiro. E os "brasis" investidos na posse e governo desta terra, poderiam então conduzil-a para aquelles "altos destinos" de que falava o Patriarcha.


Fim.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Brasileiros, até quando brasileiros? - Parte II

Continuando...

Quanto á grande maioria, esta enorme população que vive na condição de indigena da colonia, esta ainda não tem nome. É preciso crial-o. É preciso que uma distincção de designações torne manifesta a distincção real que existe entre as duas categorias de habitantes do maior pedaço da America tropical.
Ha tempos, o sr, ministro Helio Lobo empregou o patronymico "brasilianos". O vocabulo está regularmente formado, ao que parece, mas é antipathico. Acharia eu mais attrahentes os adjectivos "brasiliense", ou "brasilez", esse ultimo com um bom sabor de velho vernaculo. Talvez o melhor, porém, fosse adjectivar a forma "brasil". Seriamos nós assim, os pertencentes ao indigenato, os "brasis", o que teria o pico de uma ironia em relação aos outros, os "brasileiros".
Admittamos, pelo momento, esta designação. Aliás, qualquer uma das outras serviria. O essencial é ter vocabulos diversos para indicar coisas distinctas. relacionadas de facto, mas profundamente distinctas. Neste paiz ha "brasileiros" e "brasis", e o estabelecimento de denominações diversas, viria trazer muito maior clareza ao estudo dos nossos problemas e da nossa historia, ao mesmo tempo que acarretaria fatalmente consequencias sociaes de largo alcance.
Parece isto uma questiuncula de lexicologia. Insisto, porém, em affirmar que ella se reveste de importancia capital que á primeira vista não se manifesta.


Continua...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Brasileiros, até quando brasileiros? - Parte I

Gostaria de compartilhar aqui em nossa mesa um texto muito interessante que li há poucos dias. Não sei a data exata em que foi escrito, mas seu autor, Vivaldo Coaracy, viveu de 1882 a 1967. Sirvo-o aqui da maneira em que foi transcrito no livro "Literatura Brasileira", de Paulo de Azevedo & C., de 1930. O texto será servido em três partes.

Somos o unico povo do mundo (sempre fomos muito originaes!) que adopta por patronymico uma designação profissional. Em bom vernaculo, o sufixo "eiro" não é formador de gentilicos, mas designa o individuo que habitualmente exerce um officio. Ser brasileiro, é pois, como carpinteiro, ferreiro, boiadeiro ou cozinheiro. É um meio de vida. E está certo, em muitos casos, como já se verá.
Sabe-se a origem historica dessa anomalia. Nos tempos coloniaes, quem vinha trabalhar no Brasil, explorar a terra, era naturalmente um "brasileiro". Conserva Portugal esta tradição, assim designando os filhos da lusa terra que, aqui tendo feito fortuna, para lá regressam a gosal-a. É a accepção original. Não nos fazem esta injuria os outros povos. Todos elles indicam os naturaes do Brasil por um patronymico, regularmente formado de accordo com as regras de seu idioma. Nós, não. Não queremos nos designar por uma denominação que nos indique a pátria; apenas queremos ser os que della vivem. Somos "brasileiros".
Ora, isto, positivamente, não está certo. Essa generalisação é excessiva na sua amplitude. E tem inconvenientes muito graves. É um facto inconteste de psychologia que a palavra é o mais podereso elemento de suggestão conhecido. A repetição de um vocabulo é sufficiente para implantar profundamente no inconsciente do individuo a idéa que ella representa. É mesmo este um processo applicado por certos mysticos para criar determinadas attitudes mentaes. É o "mantran" dos theosophistas e dos yogis da India.
Vejamos, pois, o que succede a um pimpolho nascido neste paiz. Elle aprende a chamar os filhos da França, francezes. aos da Italia, italianos; aos da China, chins; aos da Turquia, turcos; aos da Polonia, polacos (agora se diz polonezes, por decencia). Para cada povo, aprende um gentilico apropriado. A si mesmo se designa como brasileiro, analogamente ao carroceiro, ao quintandeiro, ao padeiro. Instinctivamente, implanta-se em seu espirito a noção de que a sua qualidade de brasileiro é profissão. Inconscientemente, resolve-se a fazer como os outros, a adoptar esse meio de vida. E ahi temos no pirralho o germen de um politico, a semente de um futuro deputado!... Muita habilitação mais util é assim impedida de se manifestar.
Isso esta errado.
Em bom portuguez, "brasileiro" é o individuo que vive de explorar o Brasil. Reserve-se, pois, essa designação para aquella pequena minoria dos donos desta vasta colonia, para aquelles que fazem profissão habitual de explorar a terra e as gentes da mesma. Assim ficará certo.


Continua...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Outras cozinhas (andorinhas, avestruz e sapos)

Poeminha sentimental (Mario Quintana)

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


Termos de comparação (Zulmira Ribeiro Tavares)

São lidos por especialistas
um pequeno círculo
ávido.
A avestruz é um bicho-raro.
O poeta uma ávis-trote.
A avestruz engole
tudo: parafusos em princípio.
O poeta não
digere uma
única partícula.
Tudo: fica-lhe atravessado.
no papel, para tanto
estraçalha e regurgita –
ei-la: a Arte!!
Com quantas letras escreve-se “destroço”?
e “pútrido”?
com quantas, “estrutura”?
Para escrevê-las
com quantos dentes mastiga-se?
para romper certas palavras
o que se morde? o que sangra de início,
a língua?
Mas quem morde a língua
é o arrependido,
o que se cala.
Por isso a avestruz
é o bicho cândido.
O poeta, o tão difícil.
Todo o mundo sabe que ela é simples.
Cada enciclopédia a determina.
Ninguém confunde
a localização das plumas
o bico contra o peito: direção na fuga
o parafuso dentro
do estômago.
Vamos devagar com os poetas.
Por que são aves?
Porque regulam o peso de seus braços
e conforme cismam – voam.
Ávis-trotes porque pulam
inesperadamente
e quebram os braços.
Lidos por um grupo ávido.
Por que ávido?
por que de especialistas?
por que lidos?
Porque: –
não engolem
nem recusam
porque atrapalha
o comum espetáculo circence
do parafuso descendo pelo esôfago
o seu engasgo, o seu espasmo.
Porque são
intrusos.
Não se aceitam ávis-trotes
nos circos – Não comem espadas
muito menos fogo.
Porque não se juntam
ao comum dos espectadores
na arquibancada
mansamente digerindo sobras.
Porque não têm país certo
assinalado no mapa
como sói acontecer às avestruzes.
Seu país é
Nenhures.
Terra de difícil acesso
sujeita tanto
aos roedores
quanto à ação
das irradiações atrozes.
Em Nenhures
os acontecimentos desencadeiam-se fatais
ou, ao contrário, lúdicos.
Por exemplo em Nenhures
as unhas crescem
sozinhas do solo
simples para
beliscarem certas
zonas glúteas
É o cúmulo! – dizem todos –
É impensável!
Num país sujeito a irradiações
e à fatalidade
as unhas crescerem
e para isso!
Por isso os especialistas se interessam
Por isso sabem
São especialistas, por isso
poucos.
A ávis-trote
– nome científico, o vulgo a conhece por poeta –
também
é estudada nas escolas
fora do círculo.
Mais escassas fazem-se as respostas
a curiosidade nas crianças amaina-se
acalma-se, o poema: ovo choco muita vez
pois o poeta é fase histórica
não escapa –
raramente põe-se
como objeto de estudos.
De seu autor, pouco provável que se tenha
uma noção menos confusa.
O povo aclama a avestruz!
as plumas! ah!
a esplêndida
aventura audaz do parafuso!


Os sapos (Manuel Bandeira)

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...