Ponho à mesa trechos do meu segundo livro, "Monólogo de uma vida - a trágica rapsódia de uma platéia sem assento". Para os que já conhecem, fica aí uma recordação. Para os que não conhecem, fica aí um gostinho, um convite para conhecer o livro inteiro.
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A platéia nomeia o ator:
- É menino!
- Não, é menina!
- É João!
- É José!
- É Marina!...
- Vai ser alguém?!
A vida é no ventre!
Que entre o ator,
Com seus atos e sua dor, sua mórula de sonhos!
O mundo está à espreita,
O coração ainda rejeita apanhar,
Então bate!!!
Bate acelerado, o olhar ainda é invertebrado, desconfia de todos e de tudo.
Mas um dia estará estagnado, para baixo...
Um dia o olhar estará mudo...
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João segue o roteiro normalmente. Ele está começando a gostar de sua própria atuação, mas algo chama sua atenção: um buraco. Sim, há um imenso buraco no palco.
Há um imenso buraco no palco.
Um buraco do tamanho do mundo.
O buraco parece tão fundo,
Faz o céu parecer tão alto.
Há um imenso buraco no mundo.
Um buraco do tamanho do palco.
O buraco parece tão alto,
Faz o céu parecer tão fundo.
Há um imenso buraco no céu.
Um buraco bem lá no alto.
O mundo parece um palco,
Cada qual no seu papel.
Sempre haverá o vazio.
No alto, no fundo, do lado.
Sempre haverá o buraco,
O vão a ser preenchido.
Até então, o buraco não era um problema. Mas aos poucos, pequenos e brancos ratinhos começam a entrar e sair dali. João, apreensivo, continua encenando. Ele não sabe qual será a reação da platéia ao ver os ratos...
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A peça continua normalmente, num ritmo sonolento e constante. Sem sal, sem açúcar. Platéia e ator conformados. Uma máquina perfeita. O ator fala, a platéia se cala. Café-com-pão, biscoito-não. Uma atmosfera mecânica. Estímulo e resposta. Uma peça de peças encaixadas. Até o silêncio se encaixa. Monotonia. Sem surpresas, sem improviso. Isso é igual a isso. Sem enguiço. Sempre adiante. Ontem, hoje e antes. Nada além. Dia-a-dia. Sem noites, sem sonhos. Sem poesia!
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac…
Putz, Denis!!!! Foda! Tô doida pra ver a última versão!
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